Relações, casinha e perfeição

[Calé]

Deus, que para alguns não existe, tem lá suas idéias de como as coisas devem ser. O que mais me chama a atenção é a idéia de que as coisas partindo Dele são perfeitas. Se for assim, só partindo Dele mesmo. Além disso, acho que Ele, além de ter as razões para fazer as coisas como faz, é um gozador.

Cresci ao lado de duas irmãs, uma mãe muito presente e um lote de amigas. Por alguma razão, o plano que Deus fez para mim envolveu sempre a presença feminina. E confesso, docemente contrariado, que não foi fácil. Desde a mais tenra idade meninas brincam de casinha. E continuam depois, não importa qual a idade. Já ali na aurora das coisas estavam fundamentos bem sólidos como “eu sou isso, você aquilo” ou “primeiro a gente faz assim e depois assado”. Democraticamente participei (e muito) de tudo.

Felizmente tive um filho. Seu nome é Pedro e, tirando o(s) filho(s) que você, leitor ou leitora possam ter, é a coisa mais bacana do mundo e incomparável. Além do mais, me dá a oportunidade de exercer a paternidade na íntegra e do jeitão mais masculino possível, ou seja, se eu entender que preciso parto pra cima sem medo no melhor estilo latino, cultivado a gritos e pontapés pelos cinco séculos que formam nossa história.

Ah, mas se fosse uma menina… estaria perdido. Uma menina faria de mim gato, sapato e tamborim. Olhando tanto pelo lado bom quanto pelo mau. Seria incapaz de falar mais alto ou administrar os momentos mais críticos com um tranco bem dado. Eis o legado que a convivência com as mulheres me deixou: apesar de me dar vontade, sei que não devia tratar a criança de forma truculenta.

Até hoje causo espanto quando digo que assisti (já é estranho) As Pontes de Madison. E fui além: gostei. Toda a dificuldade que rondou a pobre Meryl Streep durante a fita me deixou bem sensibilizado. E olha que nem dá para culpar o Clint Eastwood, pois ele tenta melhorar a vida dela. O caso é que tanto para o plano divino, para a convivência em qualquer nível ou para um simples filminho quase desconhecido, o modo com o qual homens e mulheres tratam as coisas é diferente.

Entre os homens e as mulheres de hoje também é assim. E essa coisa da mulher que trabalha não é nova. Sempre trabalharam. O que mudou foi o aumento desse trabalho, resultando na famosa “segunda jornada”. Mãe, irmãs, amigas e minha mulher passam pelo mesmo processo diariamente. Solidarizo-me absolutamente. Só quando se precisa tratar com a empregada, preparar o rango ou passar uma camisa é que se dá o real valor. Senão pelo trabalho, ao menos pela administração dessas coisas corriqueiras que, quando não entregues na bandeja fazem uma falta danada.

Homens (supostamente) tratam as coisas de outro jeito. Já li, ouvi e vi gente dizendo que é um modo mais objetivo, sem voltas e frufrus, sem nhenhenhém. E é verdade. Mas o que leva a coisa a esse ponto é o fato de fazer o que tem de ser feito e, só em casos de paquera, começo de namoro ou desejo incontrolável, ir um pouco além. Os homens não vão entender nunca (eu também não entendo) os porquês de tanto cuidado. O que vira motivo de desentendimento e de riso é essa busca maluca de colocar ordem no mundo. As moças gostam de tudo no seu lugar. Tudo como tem que ser, acrescido de limpeza, elegância, pertinência e apreço. Enfim, perfeição.

No final, esse embate é o que faz a coisa funcionar (ou não). É duro admitir, mas acho mesmo que as coisas só vão para frente com uma mulher puxando ou empurrando. Sim, há sempre uma mulher envolvida em cada vez que algo evolui. Basta sinceridade na análise e um pouco (tá, dois poucos) de boa vontade para, pelo menos, aceitar.

Sim, Deus, o gozador, deve mesmo ter feito os homens em Marte e as mulheres um Vênus. Fez assim para mostrar as diferenças e facultar a todos os caminhos para o entendimento. Mas, pensando melhor, deve ter feito assim para que os homens não ouvissem as meninas reclamando da bagunça no planeta vermelho.

Calé é cartunista de formação e jornalista de coração.

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