Simplesmente pai

[Daniel Billio]

Cresci sem pai numa família repleta de mulheres. Meu avô e um tio faziam o papel de figuras masculinas, mas como não apitavam quase nada na rotina da casa, cresci com a certeza de que as mulheres mandavam no mundo. Ao longo dos anos fui trabalhando calmamente o meu Édipo – às vezes nem tanto – e, sem complexos, me apaixonando por mulheres fortes. Casei e, chegada a hora de perpetuar a espécie, adivinhem o que eu pus no mundo? Uma menina. Dois anos depois, pus outra. Agora vivo, definitivamente, cercado de mulheres por todos os lados.

Essa estreita convivência com o universo feminino causou em mim uma distorção na percepção das diferenças entre homens e mulheres. Na verdade nunca percebi diferença alguma, salvo as anatômicas, claro. Não sei se as mulheres da minha família eram muito masculinas, e os homens muito femininos, o certo é que pra mim era tudo igual. Era. A paternidade curou minha miopia. Não existe nada mais diferente do que um pai e uma mãe. Se o pai é homem e a mãe é mulher, logo, não existe nada mais diferente do que um homem e uma mulher. Gênio!

Como eu já disse, cresci sem pai. Essa ausência – que pelas minhas contas já custou uma casa confortável em Camburi, só de terapia – me deu a oportunidade de ser pai do zero. O pai que eu sou é uma invenção minha. Provavelmente sou o pai que eu gostaria de ter tido. Bom, esse pai que eu inventei pras minhas filhas é conhecido no mercado como o “pai participativo”. Uma espécie de semideus, um tipo evoluído de homem capaz de dar banho, trocar fraldas, cozinhar e dar o almoço, botar pra dormir, levar no balé e combinar direitinho a roupa pra sair. Eu não sou um pai participativo, eu sou uma mãe, certo? Errado. Nada é aparentemente assim tão simples. Minha mulher vai ser capaz de perceber pequenos detalhes em todas essas ações que me desqualificam sem dó nem piedade para o papel de mãe. Detalhes que só uma mãe percebe. Detalhes forjados numa combinação de perfeição, culpa, ciúme, posse e um tipo de afeto que homem nenhum consegue entender, por mais feminino ou participativo que seja. No filme Cassino, de Martin Scorcese, o gângster interpretado por Robert de Niro diz uma frase que poderia sair perfeitamente da boca de uma mãe: “Existem três maneiras de fazer as coisas na vida. A certa, a errada e a minha.”

Minha mulher é uma equilibrista. Às vezes por necessidade, às vezes por gosto. E, como diria minha avó, “quem corre por gosto não cansa”. Como tudo que exige técnica, quanto melhor você fica, mais longe quer ir. Cansei de tentar entender por que minha mulher exige tanto dela própria, das meninas, de mim. Também não sofro mais por não conseguir agir como ela agiria. Desisti de tentar ser mãe e estou me divertindo com o papel de pai. Aliás, sem essa de participativo. Simplesmente pai. Faço o que posso e ajudo porque gosto. Nos dias em que o número de equilibrismo falha, me contento com o papel de rede de segurança. Tá bom demais.

Daniel Billio é roteirista e diretor de TV e, se dinheiro caísse do céu, teria mais filhas.

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