Minha primeira vez

[Ricardo Klein]

Dizem que para tudo na vida sempre tem a primeira vez. E, sem dúvida, a chegada do primeiro filho é uma das mais emocionantes para um pai (nem preciso dizer para uma mãe). São tantos os motivos que poderia ficar aqui escrevendo linhas e linhas.

Mas uma das coisas que mais me deixa feliz é que, com meu filho, todo dia é dia da primeira vez. Primeira vez que olha para você, primeira vez que sorri para você, primeira vez que come papinha, que anda, que chuta uma bola etc, etc.

Pois é, mas chegou o bendito dia da primeira viagem da minha mulher a trabalho. Não vou esconder, fiquei apreensivo e com um friozinho (para não dizer friozão) na barriga.

Eu acho que sou um pai presente e que ajuda em casa, mas confesso que não chego nem aos pés da minha mulher. E agora que teria que me virar uma semana inteira sozinho com o João, eu fiquei gelado.

Um mês antes do dia D (dia da despedida) eu pensava: está longe, relaxa… Mas com uma semana para o dia D eu já não estava mais tão calmo assim. Está chegando, está chegando…era tudo que vinha à mente. Relaxar? Nem pensar.

Para facilitar (muito) a minha vida, e para ela ficar mais segura, minha mulher fez uma verdadeira planilha com a rotina do João. Acorda tal hora e faz isso, dá tantos ml de leite e mistura com 2 colheres de farinha láctea, roupas quentes na terceira gaveta…e por aí vai.

Muitas informações eu sabia, mas fui perceber que é sempre bom ter uma colinha sempre à mão. Na hora do aperto e da correria a planilha foi salvadora.

O João tem um ano e 6 meses. Acha que fala tudo, mas não fala nada. Quer dizer, a mãe dele entende tudo. Eu é que não entendo quase nada.

Minha primeira noite sozinho foi de insônia forçada. Como eu durmo muito bem, e nem escolas de samba me acordam, estava morrendo de medo de não acordar caso o João chorasse. Santa babá eletrônica! Para não correr o risco, coloquei o aparelho grudado na minha cama, deixei o volume no máximo e fui dormir.

No dia seguinte, acordei com o ouvido zunindo mas valeu a pena. O João estava calmo no berço e a primeira coisa que fez quando me viu foi falar mamãe. Não dei bola e fui tirá-lo do berço. Ele, de novo, chamou pela mãe. Tentei explicar que naquela manhã (e nas seis seguintes, mas isso eu não falei) seria o papai que pegaria ele no berço. Parece que ele entendeu o recado porque na mesma hora desatou a chorar. Para ser sincero, parecia mais berrar, o que me deixou meio tenso para tentar acalmá-lo.

Quebrei a regra da planilha, que dizia que eu deveria ir direto para a mamadeira, e perguntei se ele queria jogar bola comigo. Como ele é alucinado por bolas, achei que seria uma boa. Funcionou! O choro foi parando e depois de 5 minutos estávamos nós, às 6h10 da manhã chutando bola na varanda e gritando gooooool para a alegria de todos os vizinhos.

Com a exceção do almoço, que ficou por conta da babá, o café da manhã e o jantar eram minha responsabilidade. No fundo, até que me saí bem. O café ainda é à base de mamadeira, o que facilita bastante, e o jantar era só esquentar o prato já preparado pela babá e dar pra ele comer. Cheguei a pensar em dizer para a babá racionar no lanchinho da tarde, para facilitar minha vida no jantar, mas resolvi encarar o desafio e fazia em uma hora o que minha mulher faz em 20 minutos.

O banho era minha redenção. Essa área eu domino, pensei confiante. Afinal, ele toma banho comigo quase todos os dias. Nada de banheirinha! Vou encarar o banho no box, como sempre faço e ele adora. O que eu tinha esquecido é que minha mulher sempre está lá para pegar o João enquanto eu termino meu banho. Agora, eu tinha que tomar banho e dar banho nele ao mesmo tempo. Me enxugar e enxugar o João. O primeiro banho foi uma catástrofe, pois com medo dele ficar com frio, saí do box molhado e arrumei ele todinho. Nem preciso dizer como ficou o apartamento.

Às 20h30, quando coloquei ele para dormir, percebi o quanto estava quebrado de cansaço e o quanto ainda tinha que fazer: enxugar o rastro molhado que deixei, limpar a mesa do jantar (parecia que um batalhão tinha passado por lá), arrumar a cozinha, recolher as roupinhas sujas dele, separar o conjunto para o dia seguinte. Sem contar as coisas que precisava fazer para mim mesmo. É, seria uma longa semana.

No dia seguinte ele acordou pedindo pela mãe de novo. Quando me viu, ao invés de falar papai (o que me deixaria extremamente feliz) ele falou gooool. Que me desculpem os vizinhos, mas lá fomos nós para a varanda mais uma vez…

Depois do terceiro dia, peguei o jeito e as coisas foram mais tranqüilas. Dias melhores e dias piores, confesso. A planilha não saiu do meu bolso, pois não tive como decorar quando é que deveria usar o bico número 4 da mamadeira, o número de colheres de Sustagem, a marca específica do docinho de fruta que tive que comprar no supermercado etc.

Mas valeu a pena! Muito. Foi uma semana intensa, onde chegava em casa e ficava em função do João por toda a noite. Não assisti o jornal durante meu jantar, não entrei na internet, não vi meus seriados. Por outro lado, hoje causo inveja nos outros pais, pois sei cantar todas as músicas do HI-5 e sou íntimo de toda a turma dos Backyardigans. Posso dizer que estou pronto para mais uma. Mas, sinceramente, espero que demore um pouquinho.

O administrador de empresas Ricardo Klein é gerente de marketing e projetos e marido de Paula Hsieh (veja post anterior).

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