Lidar com o sentimento

[Ana Dini]

Decidir por trabalhar e deixar o filho em casa já requer da mãe uma estrutura complexa; uma viagem a trabalho exige uma reestruturação do que já foi organizado com tanta cautela. Mas não é dessa organização que eu quero falar hoje e sim dos sentimentos envolvidos nessas viagens. Sentimentos de mães e filhos.

No ano passado fui procurada por uma mãe que, bastante ansiosa, me questionou sobre o seu filho mais velho. Sua pergunta era pontual: Como a criança lidava com o fato de ela trabalhar o dia todo e mais, precisar viajar em função do cargo que ocupava.

Devolvi-lhe a pergunta: Como você lida? Porque é essa a questão. Somos nós que autorizamos os nossos filhos a ficarem bem ou não. Se a viagem a trabalho é necessária, pode ser produtiva e é importante para o nosso crescimento profissional e se esse crescimento profissional é importante para a nossa realização pessoal, não há filho no mundo que não entenda, ou melhor, vivencie e sinta o nosso bem estar.

Essa mãe em especial tinha uma história bonita pra contar. Há oito meses ela tinha tido o seu segundo filho e a volta de sua licença maternidade foi celebrada com uma viagem a trabalho. Exatamente uma semana depois de sua volta, o bebê não tinha completado 5 meses ainda, ela precisaria viajar. Além disso, teria que criar e apresentar uma campanha interna da empresa em um Estado vizinho.

Sua cabeça não respondia à sua necessidade criadora, só pensava em seu bebê. Em função disso, ela teve uma idéia. A campanha dizia respeito a um remédio novo que seria lançado no mercado e os diretores e donos da empresa estavam muito preocupados porque o produto em questão seria concorrente do seu remédio mais vendido naquele momento. Um não poderia sobrepor o outro. Como fazer?

Voltemos à mãe. Ela viajou e no dia da apresentação, após fazer uma fala introdutória à sua campanha, a porta da sala de reuniões se abriu e nela entraram, pelas mãos de seu marido, o seu filho mais velho vestindo uma camiseta com o nome do remédio mais vendido – o carro chefe da empresa – e em seguida, entrou o seu bebê de quase 5 meses vestindo uma camisetinha com o nome do novo remédio. A mãe então, emocionada como todos da sala, continuou sua campanha dizendo que um não substituiria o outro mas sim, somaria e faria crescer a empresa, assim como fez com a sua família.

O que as crianças envolvidas em uma história como essa podem aprender para vida? Paixão, envolvimento, competência, responsabilidade, dedicação… É isso que deve ser privilegiado, é nisso que a mãe deve pensar quando vai trabalhar, ainda que seja para ficar alguns dias longe de casa: o que os meus filhos ou filhas ganham com isso? E o como eu tenho que fazer e sentir para que eles ou elas ganhem mais? A resposta é simples: viver com intensidade. No futuro as crianças terão subsídios para buscar a felicidade em suas próprias vidas.

Ana Dini é educadora, formada pela USP-SP, especialista em Educação Infantil. Há 18 anos atende crianças e pais em escolas de grande porte. Ministra o workshop “Como falar para o seu filho ouvir”. Contato: anapdini@hotmail.com

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