Eu sobrevivi à primeira viagem!

[Renata Lima]

Viagens a trabalho nunca foram um problema sério para mim. Mudava a rotina, dava para correr em lugares diferentes, respirava outros ares… Bom, foi assim até minha filha nascer…

Quando soube que poderia participar de uma reunião na Argentina, mil pensamentos: ok, legal, Buenos Aires, o espanhol está em dia, hum, reunião na sexta-feira, por que não passar o fim de semana lá, meu marido poderia ir também, muito bom! Mas, e a Luísa?????? Durante oito meses, nunca tínhamos ficado uma única noite longe uma da outra. Como eu a deixaria por um fim de semana inteirinho? Pânico!

Quando “volto ao planeta Terra”, meu chefe me pergunta: “Tá tudo bem? Você poderá ir?” – “Lóóóóóóóóóógico, chefe, pode confirmar a reunião…” Saí da sala dele com os olhos arregalados… O que é que eu iria fazer?

Como eu já tinha lido o livro da Cecília, acionei rapidamente minha rede de apoio. “Reservei” minha mãe para aquele final de semana. Ela ficaria na minha casa, acompanhada pela Ângela, a babá da Luísa (que é ótima).

Os dias pré-viagem foram duros. Aproveitava cada minuto com a Luísa como se fossem os últimos. E chorava…Olhava para ela e pensava como ficaria sem mim e como eu ficaria sem ela. E chorava mais um pouco… Nesse meio tempo, a Cecília me pediu para escrever um texto sobre essa minha experiência, aproveitando que estava tudo “fresquinho” na minha cabeça… Pensei: será que o site dela é à prova d’água???

Para completar o dramalhão, ainda ouço a seguinte pérola da minha sobrinha Isabel, de cinco anos: “Tia Rê, por que você vai viajar e deixar a Luísa aqui sozinha?” – “Calma, aí, Bel, olha como você fala! Como assim, deixar a Luísa???? Eu vou viajar PORQUE EU PRECISO, não porque eu quero!!!” (eu tive que omitir a voluntária esticada do fim de semana para não morrer de tanta culpa…)

No dia da viagem, uma rápida despedida (para não chorar na frente da Luísa) e mensagens encorajadoras de minha mãe e de minha irmã. As últimas recomendações para a babá e os dedos cruzados para que o roaming internacional realmente funcionasse.

Já em Buenos Aires, um brinde à tecnologia! Recebi todos os torpedos enviados pela Ângela (sim, a babá manda torpedos!) e cada minuto me trazia a certeza de que estava tudo bem.

Na madrugada de sábado, porém, fui surpreendida por uma dor de barriga muito forte. Tão forte que foi capaz de me acordar justamente na minha primeira noite sem babá eletrônica ao lado! Que ironia do destino! Eram quatro da manhã, levantei suando frio, pálida.

No dia seguinte, bem cedo, liguei para o Brasil para saber como tinha sido a noite da Luísa. Eu tinha a certeza ab-so-lu-ta de que ela também tinha acordado de madrugada – coisa muito rara. Intuição de mãe? Logo saberia…

Eis que a Ângela me conta que “a Luísa acordou de repente, eram três da manhã (quatro da manhã na Argentina), começou a resmungar porque tinha perdido a chupeta. Depois sentou no berço e chorou. Coloquei-a no meu colo, ela chorou mais um pouco e depois dormiu ”.

Que sensação estranha! De um lado, a preocupação pela noite mal dormida da filha. De outro, o prazer de saber que nós duas temos uma conexão, mesmo à distância! Coincidência? Seja lá por qual motivo, nós duas, que nunca acordamos à noite, despertamos na mesma hora!… Quem chamou quem? Quem não deixou a outra dormir? Como tenho esse tipo de “transmissão” com a minha mãe, fiquei feliz por “isso” parecer hereditário!

Carreguei esse sentimento gostoso até o fim da viagem.

Na volta, a expectativa pelo reencontro e o controle da ansiedade. O atraso de uma hora no vôo quase me enlouqueceu. O choro no avião veio como um desabafo por não conseguir ver a Luísa acordada. Quando cheguei, confesso que tive que me segurar para não tirá-la do berço dormindo. Muito egoísmo da minha parte, pensei.

No dia seguinte, pulei da cama! Eram 5h40 da manhã quando ganhei um sorriso indescritível e inesquecível! O abraço apertado, aqueles bracinhos e perninhas se mexendo freneticamente no meu colo, aquele olhar bem no fundo dos olhos: é você mesmo???

Coisas que aprendi com essa viagem:

  1. A imensa dor da ida é compensada pelo imenso prazer da volta.
  2. “A ligação entre a mãe e a filha não se rompe. Apenas não pode ser simbiótica”, ensinou  minha mãe.
  3. Nunca mais comer sanduíche de presunto e queijo do aeroporto. Dá uma dor de barriga danada (pois é, o coitado levou a culpa…)
  4. A primeira viagem, que é a mais difícil, já foi. Quero crer que a próxima será mais fácil!
  5. Fim de semana “a dois” onde quer que seja: o casamento agradece!

    Renata Lima é administradora com mestrado em antropologia e corredora nas horas vagas.

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