Fugir da corda bamba

[Ana Dini]

Quem já viveu a graça de estar grávida deve ter podido experimentar o quão nos sentimos poderosas por isso. Gestar traz consigo uma grandeza que se relaciona com o poder.

Nos sentimos soberanamente humanas, mas ao mesmo tempo, divinas. A sensação de se ter UMA PESSOA inteira sendo formada dentro de si é uma realidade milagrosa.

Após o nascimento, o bebê nos mostra, com sua total dependência,  que somos imprescindíveis à sua existência, a força que foi construída em nós interiormente se estende para as muitas tarefas que temos de cumprir e somos lançadas ao dever de continuar a fazer tudo que fazíamos antes e ainda ficar o maior tempo possível com os nossos filhos.

Uma idéia recorrente não nos larga: O que posso fazer para ter mais tempo e ser mais mãe? Digo a vocês, essa questão é a semente da culpa.

Acredito ser o sentimento de poder que surge na gravidez (que certamente, esteve sempre lá, mas adormecido) combinado ao desejo de ser mãe em período maior, que faz muitas trocarem a vida como assalariadas para tornarem-se empresárias.

Gerir seu próprio negócio e então, certamente o seu tempo, já vimos, é o sonho da maioria das mães equilibristas. O desejo de poder estar à disposição do filho em um momento ou outro, ter um horário flexível, faz crer a essa mulher que ser empresária pode ser uma boa opção.

Já ouvi algumas mães falarem sobre isso. “Quando meus filhos nasceram, sabia que não daria conta de continuar trabalhando como antes, entrava às  8 horas no escritório e não tinha hora para sair…” Conclusões como essa levam a mulher a buscar outras opções.

E sabemos que elas vão em busca de novos caminhos mesmo. No que se deve ter atenção, é que a carreira de empresária traz consigo algumas armadilhas, nem sempre fáceis de identificar num primeiro momento, que às vezes pode ser de desespero.

O tempo dedicado ao trabalho, aquele que queremos tanto manipular, pode se confundir com o tempo que temos para os nossos filhos. Podemos ficar sempre a mercê de uma corda bamba: sem saber se ficamos em casa, resolvendo algumas coisas por lá mesmo e estando de corpo presente para as crianças ou se vamos para o escritório e voltamos no final da tarde, talvez cansadas e sem muito ânimo.

Nesse contexto a mulher deixa de estar à frente de qualquer solução e se vê diante de uma situação de impasse que não pode dar conta de equilibrar. Ela queria mais tempo, era isso, e não o tem.

Para essa empreitada é necessária muita organização, disposição e disciplina, tanto quanto em muitas outras tarefas como assalariada. É importante que tenhamos a consciência de que pode não ser tão mais fácil ou tão melhor.

Como decidir, então? Escolha por você, seja empresária porque você quer e não porque pode vir a ter mais tempo com seus filhos. Quando buscamos os nossos objetivos, nem sempre eles são fáceis de serem identificados,  somos mais felizes e corremos menos riscos de nos tornarmos seres pesados de tanta culpa.

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