Mea culpa, mea maxima culpa

[Cristiane Campos]

Ando pensando bastante a respeito desta famosa frase em latim, porque tinha um péssimo hábito de viver me culpando por tudo, acredito que me foi incutida a idéia de ser culpada pelas coisas que não davam certo.

Um exemplo: você tem um filho médico, o pai orgulhoso diz “meu” filho; ao contrário, se este filho é um desajustado, então ele é o “seu” filho, e não nosso filho como seria o justo e correto. E a pior parte é que, na maioria das vezes, acabava aceitando como minha culpa os erros das pessoas que mais amava. Tento ser muito objetiva nesta questão, até porque gastei um bom dinheiro com terapeutas para que eles me livrassem da dita “culpa”.

Quando pensava em mim, me sentia culpada, se gastava dinheiro comigo, mais culpada ainda, um filho doente era uma sentença pesada e assim por diante, era como se todos fossem mais importantes do que eu mesma. Até que um belo dia, acordo e descubro que não tive culpa de ter sido trocada por uma garota de vinte anos e que a culpa dos quilos a mais que ganhei ao longo do tempo depois de ter parido quatro filhos não eram minhas e nem de ninguém, eram apenas fatos, e os fatos dizem o seguinte: sou inocente, até porque não existe julgamento nesta vida presente que me condene por minha devoção, pelo excesso de amor ou resignação diante dos fatos. Lembre-se são apenas fatos.

Fato é que para aliviar a dor daqueles que amava, assumia as suas responsabilidades, os seus erros, e os fazia acreditar que era culpada, apenas para que eles pudessem ter mais segurança e tranqüilidade, que beleza não? E com isso fui acumulando resíduos negativos e por vezes me tornei amarga, daí sim tive culpa quando a garota de vinte anos surgiu sorridente e cheirosa destruindo meus sonhos, sem sentir culpa alguma.

Tudo passado, tudo passou – até eu fui passada para trás -, e acredito que graças a estas sentenças mal decretadas é que hoje não sinto culpa de absolutamente nada, deito e durmo o sono dos justos, porque afinal, azar da menina de vinte que vai ter que amargar um coroa de quase sessenta, chato, rabugento e pão duro. Sinto-me divinamente recompensada por tantas condenações, já paguei as minhas penas, todas elas, tim tim por tim tim e isso não tem preço.

Agora é preciso olhar o horizonte, que até então não tive coragem de encarar, agora sim é que o bicho pega, pois se não sinto mais culpas, não tenho mais desculpas, e preciso prosseguir sem medo de continuar cometendo erros, e definitivamente chega de dar dinheiro a terapeutas, vou guardar para uma bela plástica que tenho prometido a mim mesma desde que saí da prisão.

Entro no ateliê todas as manhãs, leve como uma pena. Pego meus velhos pincéis e meu avental sujo e prometo a mim mesma que farei alguma coisa espetacular apenas para os meus olhos se deliciarem, porque eu mereço.

Mereço ter alegrias, apesar dos problemas que os meus sofrem, mereço poder gastar o meu dinheiro comigo, mesmo quando sei que algum deles esta precisando de alguma coisa, mereço sim, porque paguei adiantado por erros que não cometi, e agora livre de qualquer culpa, vou vivendo e me satisfazendo com as pequenas coisas, claro que ainda ontem quando fui ao banco, passei em frente a duas lojas, uma de lingerie e uma de criança… Rsrs, adivinhem só o que eu comprei? Uma sandália linda pro meu netinho que estava precisando.

Não tenho mesmo jeito, eu os amo demais.

Cristiane Campos é artista plástica, tem quatro filhos, mora em Maringá e escreve em http://orebate-cristianecampos.blogspot.com/

A tela Estante I (imagem acima) é de autoria da artista.

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