Pai moderno

[Jules Rimet]

É uma impressão. Talvez um dado empírico. Mais como um sentimento, vá lá. Tenho a sensação de que um filho (ou, no meu caso, uma filha) na vida de um homem melhora consideravelmente a qualidade de vida do homem.Claro que não estou falando aqui daqueles homens que “têm filhos”, e sim dos que criam seus filhos, dos que compartilham o crescimento deles, dos que estão presentes e vibram com cada balbucio diferente que a filha descobre.

Creio mesmo que o homem moderno é assim. No meu restrito círculo de amizades, os homens são assim. São quase pães, como diz o vocabulário popular; meio pais, meio mães. São homens que não se preocupam e demonstram a afetividade que têm por seu rebento em qualquer lugar. Homens que se vestem de mães quando vão passear com o filho (a filha, direi daqui por diante).

Outro dia mesmo, chegando atrasado numa reunião e com minha menina de um ano a tiracolo mais bolsa com água, fralda, lencinhos e roupas sobressalentes, uma amiga virou e falou: estávamos comentando que não tinha nenhum homem hoje, na reunião, quando você chegou e eu falei pras outras:e o único homem que veio, veio vestido de mãe.

É esse tipo de homem que eu acho que tem a qualidade de vida extremamente melhorada. Porque a filha causa isso. A presença e a carência da filha fazem o homem se sentir um super-homem. Ainda que nem todo super-homem seja superpai, sei que todo superpai é um super-homem. E não estou aqui puxando a sardinha pra brasa mais perto de mim. Estou querendo apenas compartilhar um sentimento que percebo há algum tempo, em mim e nos amigos superpais. Nem sei direito se essa sensação de superpai se aplicaria a mim. Claro que eu gostaria. Mas ao mesmo tempo há ainda o vazio de saber que há muito a fazer e tão pouco tempo ou que poderia ter feito mais ou melhor.

A mesma sensação eu li num livro que minha esposa comprou e que trata da vida de mães que se dividem entre o trabalho remunerado e o trabalho em casa, com filhos: vida de equilibrista. É o velho sentimento de frustração que ataca tantas mães que não conseguem conciliar os papéis. O livro revela que esse sentimento de frustração é resultado de uma cobrança por perfeição e, como a perfeição é inatingível, sobra angústia.

O que eu estou descobrindo é que essa angústia, essa mesma frustração, atinge também os pais. Não sei se isso se relaciona ao fato de que sou pai de uma menina e (dizem todos e eu comprovo) menina é muito ligada ao pai, mas o fato é que eu também padeço dessa frustração.

O engraçado é que durante toda a minha vida eu ouvi a história da ligação da mãe com os filhos, que ser mãe era padecer no paraíso, que mãe só tem uma, que mãe é o maior dos presentes, que é a mãe quem mais se liga aos filhos, etc, etc, e, por não ter um pai presente, achava que era isso mesmo. Não que eu esteja querendo diminuir o papel da mãe, mas um pai, pelo menos da forma como eu vivencio, traz as mesmas dores e delícias que sempre foram atribuídos às mães.

O mais recente tema do site será a culpa. E como pai se sente culpado! Mas é uma culpa saudável, ligada à vontade de estar mais presente na vida da filha, de pensar sobre o que ela aprendeu  durante o tempo em que o pai está no trabalho, de ter saudades de suas risadas e seu carinho.

Acho que vou viver mais meio século por causa de minha filha.

Jules Rimet é professor de história do sistema ANGLO de ensino, casado com Rachel, psicopedagoga, e pai de Ana Carolina. Escreve no blog http://imagina.blogspot.com

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