Tem um bebê no escritório

[Eduardo Zambelli]

Há pouco mais de um ano, decidi que o excesso de trabalho e o estresse como diretor de criação de uma agência de design não cabiam mais na minha vida. Queria mudar de vez e investir na carreira, e a idéia era montar um escritório em casa. Na mesma semana em que pedi demissão, minha mulher descobriu que estava grávida! Depois da alegria da notícia, claro, cheguei a pensar em voltar atrás na decisão, mas ela me deu a maior força para virar a mesa.

Saí da agência, continuei a prestar serviço para eles e para outras agências, além de conseguir clientes diretos depois de um tempo. No apartamento, transformei um dos quartos em escritório, comprei bons equipamentos e montei uma estrutura de trabalho virtual que funciona muito bem para esse meu trabalho de criação e design. Estou tranqüilo com minha escolha e com meus ganhos, pois estou envolvido em muitos projetos.

O Matheus começou a dominar a rotina dos meus dias há apenas três semanas, quando a Simone voltou ao trabalho no banco, após o final da licença-maternidade. A sorte é que ela está podendo sair mais cedo para amamentar (às 19h30) e foi transferida para uma central administrativa mais perto de casa. Bom, eu já dava banho todos os dias e trocava o bebê, além de brincar, mas não tinha ficado, digamos, totalmente responsável por ele. Sente só o meu dia:

De manhã, o Matheus mama no peito às 7h e volta a dormir até as 9h30, que é quando me acorda. Aí pego ele no berço, troco, dou remédio, levo para a sala e deixo ele brincar um pouco. Às 11h dou mamadeira e aí ele dorme meia hora. É durante as sonecas dele que eu corro para o computador. Às 12h30, a Simone chega e almoçamos juntos, e, fatalmente, depois que ela vai embora, o Matheus dá uma choradinha e dorme mais meia hora. Quando acorda, deixo ele no chão brincando atrás de mim e sigo trabalhando. Às 15h ele mama de novo e dorme outra meia hora. No final da tarde é que fica mais difícil, pois ele quer bastante atenção e o trabalho fica muito picado. Às 18h30 a Simone chega e dá de mamar, eu dou o banho e depois de jantar e relaxar, volto para o computador e trabalho das 21h às 2h, geralmente.

Nas primeiras duas semanas, ainda sofri um pouco para me acostumar com a mudança e a interferência no trabalho, mas agora estou sentindo que consigo trabalhar cada vez mais. O Matheus é bem bonzinho e parece que também vai se acostumando a essa rotina que estabelecemos. Sinto que a maior vantagem é vê-lo crescer, acompanhar o seu desenvolvimento e observar as suas conquistas de perto. Isso é ótimo e não tem preço.

O ponto mais difícil é conciliar a atenção que ele precisa e conseguir trabalhar bastante. Existem os momentos tranqüilos e os de crise, com choro, normais para uma criança. Às vezes fico ainda na dúvida se vou precisar de alguém para me auxiliar o tempo todo ou se eu vou entrar em sintonia e conseguir dar conta de tudo sozinho. Quando você está em casa, mesmo trabalhando, acham que você está mais disponível. Criam-se expectativas extras, ou seja, sobram tarefas tipo “passa na farmácia, passa no supermercado”. Às vezes bate um desespero, pois os outros não têm noção de quanto trabalho eu tenho para entregar.

Em relação à carreira, é engraçado… por estar em casa, estou muito mais antenado do que eu era na empresa, acho que me cobro mais. Assinei todas as revistas e faço cursos on-line específicos da minha área. Estabeleço minhas metas e corro atrás delas. Sei que no exterior existem profissionais liberais que trabalham com muito sucesso e em estruturas montadas em casa.

Daqui a dois anos, quando chegar o próximo filho que já está nos planos, pode ser que eu precise alugar outro espaço. Mas minha meta ideal seria continuar trabalhando em casa, pois por enquanto nem penso em trocar essa rotina profissional somada à delícia de poder cuidar do meu filho.

Eduardo Zambelli é designer e pai de Matheus (5 meses e meio).

Um comentário sobre “Tem um bebê no escritório

  1. Tania disse:

    Olá Eduardo,

    também sou designer e também estou em casa com o meu pequenito! É bom saber que existem mais pessoas na minha situação e que foram bem sucedidas na escolha de vida que fizeram. Espero que continue a correr tudo bem, passados estes quase 3 anos.

    Cumprimentos
    Tânia

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