Convivência para sempre

[Simone Raitzik]

Acho que fora o momento da gravidez e da amamentação, quando a sobrevivência dos meus dois pequenos rebentos  – Tom tem 10 e Paulo, 6 – dependiam exclusivamente de mim, todo o resto dessa nossa intensa jornada enquanto família foi compartilhada com o Ruben, meu companheiro há mais de 20 anos e pai da prole.

E quando digo tudo, é tudo mesmo. Lembro que naquelas inúmeras noites insones, quando eu dava de mamar de 3 em 3h, era ele quem depois deixava o Tom na posição vertical, no colo, por 20 min (ele tinha muito refluxo) e trocava a fralda encharcada com o maior cuidado. Sem reclamar, meio cambaleante, quase como que me dizendo que nós fazíamos uma dupla, em todos os sentidos.

Ambos trabalhávamos direto “fora de casa também”: eu, jornalista em redação, ele, economista, em fase de doutorado. Horários malucos, correria e muito estresse. Mas essa rotina de compartilhar todos os momentos – os bons, os cansativos, os difíceis… – das crianças viraram uma forma de convivência associada a prazer, uma pausa em meio ao turbilhão. A escolha da primeira escola veio depois de muitas visitas espremidas na hora do almoço do trabalho. As idas ao pediatra, para acompanhar o crescimento, dar vacinas, nunca foram uma obrigação. Sempre um dos dois dava um jeitinho de incluir a consulta na agenda. Aos poucos, fomos reorganizando nossas vidas para ter escritórios próximos de casa, viramos profissionais autônomos, cada um na sua área. Boa ou ruim, essa opção nos deu mais liberdade para estar com os filhos. 

Hoje, eles são daquelas crianças ocupadas: natação, inglês, futebol, tênis, uma loucura diferente a cada manhã. Nem sempre é fácil decidir quem leva, traz… O Ruben é mais disponível, porque seu dia é mais flexível. Mas quando eu não faço parte dessa ritual de idas e vindas, sinto que estou perdendo. Sim, porque é no trajeto da aula de inglês, na volta da escola, na caminhada para o tênis, que tecemos, com essas criaturinhas tão incríveis e ricas, laços que vão além de obrigações. A gente passa a se conhecer, conversar sobre um livro, lembrar de uma viagem, repartir uma piada, ouvir uma música no carro.

Enfim, deixamos de ser apenas pais para virar amigos. E isso fica para sempre, independentemente da idade, dia, mês e ano de nossas existências. 

Simone Raitzik é jornalista carioca. Veja o texto do Ruben, seu marido, clicando em Pai Equilibrista.

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