Redação: minhas férias

[Ana Dini]

“Se lembra da fogueira, se lembra dos balões, se lembra dos luares dos sertões…” Chico Buarque

Férias de infância. Há melhor coisa de que se recordar?

Na minha casa, as férias eram tão esperadas, que começávamos a planejá-las uns dois meses antes. Tendo pai e mãe professores, eu e meus irmãos sempre gozamos do privilégio de tê-los em tempo integral nos meses de dezembro, janeiro (naquela época, um pedacinho de fevereiro) e depois em julho.

Vendo hoje, de fora, parece tanto tempo. De qualquer modo, na época não parecia ser tanto assim. Meus pais tinham uma sobrecarga de trabalho anual que não era brincadeira, por trabalharem em escola e dentro de sala de aula, nunca podiam abrir exceção e chegar um pouco mais tarde ou sair um pouco mais cedo. Usavam o seu horário de almoço para irem de um colégio ao outro e nos finais de semana eram as provas, redações para corrigir e preparar. Assim sendo, as férias eram merecidas e a nossa grande alegria.

Lembro-me como hoje de todos os detalhes desses meses tão cheios de prazer. No primeiro dia de férias meu pai ia para o seu escritório, abria os armários e começava a tirar de lá papéis e papéis que não usaria mais, tinha todo um ritual para rasgá-los, antes de jogar no lixo. Ficava impressionada de ver a sua força por conseguir rasgar tantos papéis de uma só vez. Mais tarde descobri que ele tinha um truque, e hoje, até eu consigo.

À noite comíamos uma pizza para comemorar a chegada das férias e então tudo começava de fato. Como os nossos parentes são mineiros, nunca deixávamos de ir para Minas e passar alguns dias lá, na companhia de tios e primos, coisa que durante o ano nos privávamos. Isso era gostoso, mas nada comparado a nossa ida anual à Boracéia.

Hoje todo mundo já ouviu falar em Boracéia, praia do litoral Norte de São Paulo, mas há 30 anos ela não tinha a infra-estrutura e nem a quantidade de gente que tem hoje. Ela era uma praia semi-deserta.

Como não havia supermercado por perto e nenhum tipo de comércio, éramos obrigados a levar tudo de São Paulo. Ficávamos em uma colônia de férias dos irmãos Maristas, íamos com um grupo grande de amigos (umas 50 pessoas), levávamos duas ou três ajudantes que cuidavam da cozinha e da limpeza e era como se estivéssemos em um Resort (com um pouco menos de conforto, é claro).

O lugar era grande, amplo, com duas casas enormes cheias de quartos, um refeitório e uma capela, tudo  rodeado por uma graminha bem cuidada, a grama acabava com a areia da praia e essa por sua vez, era de uma imensidão… Não se via casas, barraquinha de sorveteiro, quiosquinhos, nada, era só a praia e nós.

Dizendo assim parece um pouco solitário, mas não. O grupo que nos acompanhava, era bem animado, todas as noites fazíamos festas, uma mais divertida que a outra. Dormíamos um pouco mais tarde que de costume, mas acordávamos cedo o suficiente para aproveitarmos o melhor horário do sol. Na época não existia protetor solar como hoje, e eu era obrigada a passar em meu rosto uma pasta horrorosa branca. Essa era única parte ruim.

A praia, o mar era tudo tão limpo que víamos peixinhos nadando e também, em determinados dias, tínhamos que entrar no mar de tênis (a minha mãe, inclusive, levava um tênis especialmente para entrarmos no mar) porque tinha siri, que beliscava o nosso pé.

Em Boracéia, eu e meus irmãos ficávamos à vontade, podíamos ficar descalços, brincar de esmalte, sem nos preocupar em estragar os móveis. Só à noite, depois do banho, minha mãe nos besuntava de Repelex e nos vestia calça jeans, para que não fôssemos comidas pelos borrachudos.

Lembro-me de tudo: do cheiro, dos barulhos, do que sentia ao estar tão junto dos meus pais, mas com tanta liberdade. Essas lembranças todas, tão boas e felizes me comprometem por inteiro, quando penso no que farei nas minhas férias hoje, com a minha família.

Boas férias a todos e até o próximo ano!

Ana Dini é educadora, especialista em Educação Infantil. Ministra o workshop “Como falar para o seu filho ouvir”. anapdini@hotmail.com

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