Volta para casa 2

[Claudia Zacharias]

Sentei para conversar com meu futuro chefe e disse: “Estou cansada de ficar em casa cuidando de criança. Preciso voltar a trabalhar.” Dois anos depois, meu discurso mudou radicalmente: “Estou cansada de trabalhar, quero voltar para casa. Minhas filhas precisam de mim.”

Trabalhei por 12 anos na área comercial de seguros e parei uma semana antes da minha primeira filha nascer. Fiquei durante 5 anos em casa e só fui ter babá depois do nascimento da caçula. Quando ela tinha dois anos, em 2005, recomecei na área comercial de uma empresa multimídia, motivada por um bom salário e pelo desafio profissional.

Nessa época, as crianças iam para a escola à tarde, e eu penei durante quase um ano para conseguir uma empregada de confiança. Eu tinha duas, e, às vezes, não chegava nenhuma na segunda-feira cedo para eu poder ir trabalhar. Meu marido dava um jeito de ficar com as meninas até uma delas chegar.

No trabalho, eu só tinha horário para entrar e não para sair. Viajava muito e trabalhava nos feriados, acompanhando projetos de filmagens de simpósios médicos. Mesmo passando fora finais de semana, não tinha uma única folga de segunda a sexta. Minha rotina pesou, pois sou muito mamãe ursa e fazia questão de dar banho nas crianças, nem que fosse às 20 ou 21hs. Fora isso, sobrava tudo pra mim: as compras da casa, a organização, as crianças ligando pra dizer que tinham brigado com a empregada…  Era o estresse de casa somado ao estresse do trabalho.

Eu tinha prazer em trabalhar, mas fiquei balançada com a saída de uma grande amiga da empresa (para ser mãe do terceiro filho). Além disso, minha filha começou a ter muito trabalho de escola que exigia acesso à internet e não tinha quem a ajudasse. A empregada era boa, mas passava conceitos errados para as crianças. Também pensava que as meninas seriam crianças uma vez só na vida. Como eu poderia resgatar isso depois? Como apagar os erros dos outros? Nessa idade as crianças absorvem muito.

Então, em maio de 2007, meu marido montou uma empresa eu dei um basta no trabalho. Na verdade eu era boa de vendas, ganhei até uma viagem-prêmio na empresa. Sou competente, tenho garra, força de vontade, trabalho no que eu quiser. Agora estou parada há um ano e estou feliz.

Claro que existem coisas que chateiam. O lance da grana, por exemplo, ter que pedir para o marido coisas que eu já não pedia. No domingo à noite peço um cheque para o jardineiro, outro para a fantasia do balé das crianças… Ele fala: você está me assaltando. Na hora dá raiva isso, mas depois passa.

O pior é quando surgem as encucações de mãe: será que sou boa companhia para as minhas filhas? Dito regras o tempo todo, sou muito rígida. Educar não é uma tarefa light. Estou acertando? Mas são crises normais… Acho que agora elas estão mais manhosas e grudadas em mim, não querem que eu faça nada sozinha.  Meu dia ainda é corrido, pois tudo tem hora, as tardes são muito ocupadas com atividades delas. Não é porque a pessoa está em casa que não trabalha. É preciso administrar as provisões, a empregada, de tarde é um leva-e-traz.

Para mim, o ideal é a mulher trabalhar enquanto as crianças estão na escola. Mas quando eu sentir que elas não correm perigo, estiverem com os princípios enraizados, que não vão fazer a cabeça delas… volto ao trabalho sabendo que dei o melhor de mim para educá-las. Me acho privilegiada por poder me dedicar a elas. Sou bem resolvida e preciso estar bem comigo para estar bem com os outros, por isso vou à ginástica, me presenteio, me permito ser feliz!

Claudia Oppido Zacharias é mãe de duas meninas (de 8 e 5 anos).

Um comentário sobre “Volta para casa 2

  1. Paula Myers disse:

    Olá.

    Identifiquei-me bastante com sua história.

    Fiz um movimento parecido em minha vida há quase 2 anos. Sempre fui executiva da área de comunicação/marketing; trabalhei por quase 17 anos nesta área sempre com muito sucesso e conquistas. Claro, o trabalho sempre demandou muito de mim…inclusive muitas horas!

    Depois do nascimento de meus dois filhos (com 2 anos de diferença entre eles) a ideia de mudar de vida começou a se formar dentro de mim. A culpa de participar pouco de suas vidas..acompanhar mesmo, dar banho, levar e buscar na escola, ir na natação…tudo isso me fazia falta muito grande.

    Quando houve uma reestruturação no meu escritório e fui desligada da empresa, não tive dúvidas: conversei com meu marido e disse que iria parar por um tempo. Muita gente apostava que eu não aguentaria 6 meses na rotina de mãe, mas, bem lá no íntimo que sabia que estavam erradas.

    O prazer de participar da vida de meus filhos preenche meus dias. Ao longo desses dois anos sabáticos, decidi voltar a estudar e mudar radicalmente de vida: voltei para faculdade e hoje estudo Pedagogia…sou a mais velha de minha classe (tenho 40 anos) mas a maturidade nos faz encarar os estudos de outra maneira…as informações “assentam” de outra forma na cabeça da gente.

    Sinceramente, não me arrependo de conscientemente ter aberto mão de uma carreira no mundo corporativo. É engraçado, muita gente me olha com espanto mas, sabe? Estou feliz e sinto que esse tempo com meus meninos não volta e ficará para sempre comigo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s