Do papel almaço ao upload, ou do upload ao papel almaço!

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Vivemos como nunca antes em uma sociedade que se transforma a cada dia. Hoje tudo é diferente: papel almaço virou arquivo em power point, entregar pessoalmente trabalhos impressos para o professor transformou-se em  “upload” de arquivos no portal da escola e conversar com a monitora da classe para tirar dúvidas cedeu lugar ao “chat” virtual.

A geração de nossos filhos vive uma realidade completamente diferente da que vivemos, em muitos sentidos.  A velocidade é outra, a possibilidade de acessar conhecimento é infinita e o mundo é pequeno para tudo o que eles querem conquistar. Facebook, Skype, Google Earth e aplicativos de todos os tipos mexeram com a forma com que nossos filhos se relacionam com o mundo. A Educação não ficou imune a essas mudanças sociais e, como resposta,  escolas equipam-se para falar a língu

a do jovem aluno. Assim,  oferecem tablets, lousas que se conectam à internet, aulas de robótica e empreendedorismo. Giz é quase um objeto de museu, ficando lado a lado do “papel almaço”. Quem de nós, pais, não se lembra do papel almaço?

Nostalgia? Sim, um pouco. É dificil não ter. Aliás, até minha filha, do “alto” de seus 19 anos, ao ver uma daquelas lousas “mágicas” em que as crianças podiam desenhar e bastava raspar uma lâmina que rapidamente o desenho sumia e tinha-se uma nova folha par

a desenhar, soltou uma frase curiosa: “essa geração está perdida, agora com iPad, eles nem tem mais prazer com essas lousinhas”. Mas essa discussão vai muito além da nostalgia e da disputa entre gerações.

Como pais, diante desse cenário de transformação, temos nos dedicado a entender o que mudou e nos esforçamos para educar nossos filhos a partir disso. A educação, seja dentro das escolas, seja a que pais promovem em casa, é impactada pelo modo de vida contemporâneo.  Isso é ótimo e tem um papel importante na relação dos alunos com a escola e também na dinâmica entre pais e filhos.

Mas o que me fascin

a não é aquilo que muda na vida de nossos filhos mas sim aquilo que não muda. Quando falamos em Educação, talvez tão importante quanto entender o que muda, é compreender o que não muda. E para isso sinto que há menos espaço e ainda pouca discussão e reflexão. Mesmo sem ser uma especialista no assunto, ouso dividir com vocês 5 ideias que a meu ver são eternas quando discutimos o tema Educação.

1. Educação começa em casa e se expande para a escola. Parece óbvio, certo? Acho que poucos pais discordarão dessa afirmação, n

a teoria. No entanto, na prática, vemos muitas vezes essa frase tão óbvia ser esquecida. A escola não faz o papel dos pais e mesmo assim ainda vemos muitas famílias esperarem isso das escolas. Claro que as boas escolas têm um forte trabalho de estimular o desenvolvimento de alunos críticos, socialmente responsáveis e éticos. Mas de nada adianta o ambiente escolar proporcionar um ambiente propício para esse desenvolvimento do aluno, se ele não encontra ressonância dos mesmos princípios dentro de sua casa. Aliás, acredito que a melhor escola para uma criança é aquela que pratica valores que se aproximam dos valores daquela família. Não necessariamente será a mais próxima de casa, nem a que mais aprova no vestibular. A melhor escola é a que se apresenta como uma continuação natural do que se pratica em casa. Afinal, Educação é um processo que se inicia na família e se expande para a escola e, como tal, precisa ter uma linha mestra, única e clara para todos os envolvidos. Resumindo, educação exige coerência.

2. Pais educam pelo qu

e falam e mais ainda pelo que praticam. Espanta-me muito alguns pais que, ao levarem seus filhos para a escola em busca de uma educação de qualidade, já na porta da escola, dão aulas de má educação. Exemplos desse tipo já podem ser constatados na própria porta da escola: ignorar a faixa de pedestres para ceder a passagem às crianças, andar em velocidade indevida para uma rua escolar ou parar em fila dupla são apenas alguns deles. Onde quero chegar com isso? Alguns pais ainda veem educação como algo que se ensina com palavras apenas. Ignoram que os atos são tão ou mais persuasivos que as palavras. Se efetivamente queremos educar nossos filhos a serem éticos e responsáveis, precisamos educá-los pelo exemplo. Afinal, desde pequenos, crianças apreendem o mundo pela repetição. Não acreditem que teremos adultos éticos se em nossa prática cotidiana não formos 100% éticos. Afinal, pais são modelos e como t

ais, representam padrões para serem imitados e até mesmo idealizados. Resumindo, educação exige praticar o que se prega.

3. Educação dá trabalho. Não há formulas mágicas no campo da educação, daquelas que as revistas femininas costumam anunciar para emagrecimento instantâneo. Educação é um processo, é a arte da persistência, é o exercício do dia a dia, é co

mpromisso total. Mesmo num mundo tão acelerado como o que vivemos, não há como pular etapas. Seja a Educação formal (das escolas), seja a educação promovida pelos pais, em nenhuma delas vemos que há receitas “básicas”. Aliás, educar está mais para uma culinária tipo “gourmet” do que para receitas de “liquidificador”. Educar é escolher as palavras, como se escolhe os ingredientes; é organizar e definir prioridades, como estudamos a sequência precisa no preparo de uma receita; é dar tempo para amadurecer, como pacientemente aguardamos o ponto exato do bolo. Resumindo, educação exige dedicação.

 4. Educação

 pede presença. Calma, não estou dizendo que filhos de mães que trabalham ou de pais que tem longas jornadas profissionais estão sendo pais pouco atenciosos. Para mim, presença tem outro sentido, menos literal e mais relacionado à disponibilidade mental. Há mães ou pais que estão com os filhos por muitas horas. Outros, por impedimentos diversos, têm um número mais limitado de horas com os filhos, no dia a dia. Independente da contabilidade das horas “reais”, ambas as famílias podem ter presenças “mentais” suficientes ou insuficientes. O que não podemos é acreditar que estamos educando nossos filhos quando algumas vezes estamos apenas “pseudo” presentes. Estar presente por inteiro signif

ica estar disponível, física e afetivamente. Podemos fazer isso com mais horas ou com menos horas. Na verdade a contabilidade é menos de horas “brutas” e mais de horas “líquidas”. Ou seja, o quanto nos mostramos emocionalmente disponíveis para nossos filhos. Resumindo, educação exige disponibilidade mental.

5. Educação pressupõe customização. Esse talvez seja mais um dos clichês relacionados à Educação. Porém, em Educação, nunca é demais repetir. Quem já não ouviu a frase: “cada filho é um filho”. Apesar de ser uma verdade que ouvimos até de nossas avós, muitas vezes ficamos comparando nossos filhos com o filho da vizinha ou mesmo comparando o caçula com o mais velho ou a menina com o menino. Acho que comparar é inevitável e pode ter um lado bom, se olharmos sob a ótica de entender as diferenças e não de cobrar para que todos tenham comportamentos semelhantes. Muitas vezes o que funciona com um filho não tem nada a ver com o outro. Educar é pensar em estratégias customizadas para cada filho. Em educação não existe o modelo “one fits all”. Educar é entender cada indivíduo e atuar de forma única. Não se iludam, achando que o que serviu para um filho vai servir para o outro, nem nas coisas mais simples, como a

escolha de uma chupeta, até as mais complexas, como a escolha da escola, por exemplo. Aliás, há famílias que optam por mais de uma escola exatamente por isso, escolas com a “cara” de cada filho. Resumindo, educar exige olhar o indivíduo.

 Poderia seguir listando outros “N” pontos que para mim são eternos no campo da Educação. Mas de jeito nenhum quero deixar a impressão de que a tecnologia atua contra a Educação. Apenas acredito que uma coisa não substitui a outra. Tablets não substituem um bom professor, mas são ferramentas que enriquecem o aprendizado. Chats não substituem o olho no olho, mas garantem o contato com o professor muito além da hora da aula. Ou seja, não se trata de uma disputa de mocinho e bandido. Apenas acho que os holofotes têm se voltado mais fortemente para o lado dos avanços promovidos no campo da educação do que para as raízes do processo educacional. Nunca é demais relembrar alguns ensinamentos que são eternos e que não foram enterrados pela tecnologia nem pela velocidade da era em que vivemos.

Enfim, ainda bem, muito coisa mudou no mundo da Educação. E, ainda bem, nem tudo mudou no mundo da Educação. Papel almaço e upload, em seus sentidos figurados, continuarão a ser importantes pilares da Educação.

Artigo originalmente publicado na Revista RA.

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