Longe do ideal, perto do possível

Recentemente estive em um evento onde tive a oportunidade de palestrar e o privilégio de ouvir mulheres inspiradoras. Muitas vezes tenho impressão de que ainda precisaremos de muitas discussões como essa uma vez que as perguntas que surgem da plateia mostram temas que estão longe de serem resolvidos. Ou, outra forma de ver isso, é pensar que há sempre uma nova geração chegando e que fará os mesmos questionamentos, mesmo que com uma roupagem renovada.

Um desses temas persistentes em eventos, onde temos mães na plateia, é o da conciliação maternidade e trabalho. Aliás, o termo que criei em 2007 (e que também é o tema guia de minhas colunas), “Vida de equilibrista”, veio dessa inquietação constante que carregamos. E não há evento desse tipo que alguém na plateia não levante a mão e pergunte:

“O que é mais importante: qualidade do tempo com os filhos ou a quantidade de horas que passamos juntos?”.

Pois é, neste evento não foi diferente e a mesma pergunta veio contextualizada pela vida de uma mãe equilibrista da plateia.  Ela estava sofrendo porque tinha muito pouco ou quase nada de tempo para o filho nos dias de semana e que tentava usar o máximo do seu tempo do final de semana para essa relação. A pergunta foi lançada num painel com a presença de uma pediatra, que com bom senso, experiência e empatia, respondeu algo mais ou menos como:

“ Essa situação que você vive está longe do ideal mas perto do possível neste seu momento”

A frase acima é da Dra. Florencia Fuks, que compunha o painel e foi quem respondeu à dúvida da mãe da plateiaDesde quando ouvi suas palavras pensei muito sobre o tema e sobre as palavras usadas pela médica. Acho que cada palavra proferida pela Dra. Florencia é preciosa e por isso tomo a liberdade de olhar mais atentamente para cada uma delas com vocês agora.

Começando por “longe do ideal”. Já temos aqui duas palavras que me fazem refletir. Sim, existe um mundo supostamente ideal e neste mundo talvez pudéssemos equilibrar mais nossas horas ou, pelo menos, administrá-las como acharmos mais adequado. Mas, na vida real talvez estejamos longe disso. Nossas horas escapam de nosso controle e a correria do dia a dia, gostando dela ou não, toma boa parte de nossas rotinas. Cabe aqui uma observação: o ideal é algo muito pouco definido e toma formas muitos variadas em cada um de nossos lares. Seja porque mães são diferentes umas das outras, seja porque nossos filhos são, da mesma forma, únicos à sua maneira. De todo modo, cada um de nós tem um ideal e a pergunta da mãe da plateia indicava que para ela o ideal não estava próximo. Também a resposta da médica afirmava que a vivência dessa mãe estava longe do ideal, uma vez que ela pouco ou nada ficava com seu filho durante os dias da semana. Mas calma, isso apenas uma parte da história e uma parte da resposta.

Indo para o outro lado da frase, “perto do possível”, talvez aqui resida a grande sacada e inspiração para a mãe da plateia e tantas outras. Cada uma de nós tem um possível, o ponto que para nós é o melhor que podemos fazer. Acredito muito que devemos nos pautar para estar o mais perto que consigamos do possível. É neste ponto que está o nosso ponto máximo e reflete a nossa realidade.

Soma-se a esse estado possível a continuação da frase, “…neste momento”. Aqui fica claro que as coisas são transitórias e mutantes. Neste momento é um tempo do presente e neste presente, este é o seu possível, seu máximo seu melhor. Em outros momentos poderá ser diferente, para mais ou para menos, mais perto ou mais longe.

Em suma: nossa felicidade e a de nossos filhos não estão no ideal, já que este não existe. Ela está naquilo que é possível fazermos por eles, naquele momento. Sugiro que pautemos nossas vidas de equilibristas menos contabilizando horas e muita mais vivendo momentos. Muito mais usufruindo o que temos do que nos punindo pelo que não fizemos. Muito mais pelo possível do que pelo ideal.

 

 

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