A luta continua

É cada vez mais comum vermos mulheres liderando empresas ou em cargos de alto escalão. São inegáveis as conquistas femininas nesse campo e isso nem é mais tão notícia assim. Mas o que ainda surpreende é quão pouco as mulheres caminharam na divisão de tarefas. Todos os dados que leio relacionados à carga horária das mulheres dentro de casa apontam para a mesma direção: a mulher soube entrar nas empresas mas não soube delegar a casa ao marido. Cabe ainda às mulheres, com exceção das muitos ricas (que pagam para alguém cuidar disso), ter a dupla jornada, trabalhando muito dentro e fora de casa. Hoje, lendo ao jornal Estado de São Paulo, o sociólogo pesquisador da Universidade de Brasilia, Marcelo Medeiros, aborda muito bem esse ponto, fazendo-me refletir sobre uma ideia: ainda há muito o que mudar no que se refere à igualdade entre homens e mulheres. Aceita-se muito bem mulheres presidindo empresas mas poucos homens são corajosos o suficientes para serem “apenas” donos de casa. Ainda prevalece sobre eles o estereótipo do provedor. Ele pode até  “dar uma mão” nas tarefas da casa mas essa gestão ainda é feminina.

Não sou defensora da igualdade absoluta entre gêneros mas sim a favor da liberdade de escolha. Nesse quesito acho que tanto homens como mulheres ainda vivem numa encruzilhada. Mulheres porque não se libertaram das tarefas da casa, apesar do excelente desempenho no mundo corporativo. Homens porque sentem-se pressionados para produzir “fora de casa” e sentem-se impedidos de fazer uma outra opção, que não essa.

Pois é, para quem acha que muitas mudanças rolaram, sem dúvidas, isso é inequívoco. Mas a luta ainda continua. Para elas e para eles.

Poemas para as netas

[Anna Russo]

Minha filha pediu-me para escrever alguma coisa sobre o que é ser mãe de uma equilibrista, contar como as avós ajudam as equilibristas e, talvez, dizer como é ser avó equilibrista. Bem, pode ser que existam avós equilibristas em tempo integral, eu não sei. Posso apenas falar de minha experiência como avó equilibrista ocasional, ou avó equilibrista por escolha.

É muito bom poder escolher a hora em que assumimos responsabilidades que sabemos ser passageiras, entramos em ação para que a mãe tenha a tranquilidade necessária para viajar, trabalhar e, por que não, cuidar um pouco de si mesma. Eu também recebi este carinho, porque minha mãe fez o mesmo por mim.

Mas, como tudo na vida tem sua época certa, como é bom poder entregar os queridos netinhos a suas mamães e papais, depois de algumas horas, ou mesmo alguns dias.

Cuidar dos netos, brincar com eles, quebrar as regras rígidas que eles tem que seguir quando estão com os pais, é uma delícia. E sentir a reciprocidade do amor que dedicamos a eles é maravilhoso!

Tão maravilhoso que só posso descrever através destes poemas que fiz para duas de minhas netinhas.

BEATRIZ

Vamos jogar bola,

Ler uma história feliz,

Andar por aí à toa,

Rir de coisa nenhuma.

E, se espanto causarmos,

Explicar:

“Não é nada, gente,

estamos só

combinando gerações.”

 

FLORA

Vou comprar flores,

Rosas, brancas, amarelas,

Só prá combinar com seu nome.

E fazer um buquê bem grande

Que vou levar pra você.

Vou chegar num dia azul,

Igualzinho ao laço

Que as flores vão abraçar.

E levarei muito carinho

Na minha cesta de avó.

Biscoitos de chocolate

Com certeza não vão faltar

E muitos pãezinhos de açúcar,

Para o presente completar.

Ao chegar quero sorrisos

E um abraço apertado.

Um beijo de borboleta

E muita conversa fiada!

Anna Russo é casada, formada em Comunicações pela ECA-USP, tradutora e professora de inglês, mãe de 3 filhos e avó de 6 netos.

Vovó virou empresária

[Laura Bierrenbach]

Cansada de encontrar só roupas caras ou sem charme para a netinha nas lojas, Laura abriu o negócio próprio e bolou um serviço para mães sem tempo…

VDE: Como tornar-se avó mudou a sua vida?

Laura: Netos são um presente. É alegria, é um amor que nasce em nós que não se consegue explicar. Quando penso neles, a minha vida se ilumina.

VDE: O fato de ser avó influenciou na escolha pelo tipo de empreendimento? Quando resolveu montar a loja?

Laura: Sim, influenciou na medida que comecei a ter dificuldade de achar roupinhas bonitas e com  bom preço  para as meninas.  Tudo aconteceu de supetão. Eu tinha uma sala vaga num prédio comercial muito legal onde trabalham meus filhos e amigos. O investimento não seria muito alto. Era junho, mês das feiras de logistas, voltei das feiras com várias encomendas fechadas. Meu marido disse que eu era louca, que precisava planejar mais. Atualmente produzo quase tudo o que vendo e assim posso ter ótima qualidade e preço bom.

VDE: Como se sente como uma avó moderna, ativa, dinâmica e antenada? Comente sobre avós que vêm comprar na sua loja porque as filhas estão no trabalho.

Laura: Acho muito bom ter meu próprio negócio. Na minha geração ainda tem muitas avós que não trabalham e ficam com o papel de mãe dos netos, o que, na minha opinião, é muito complicado. Não podem curtir ser avós. Tenho amigas que ficam com os netos literalmente o dia todo.

VDE: Qual a maior alegria de ser avó?

Laura: É não ter as responsabilidades, as dúvidas e compromissos que os pais têm. É só alegria, brincadeira, poder curtir cada gracinha, cada aprendizado da criança. É ouvir vovóoooooo…

VDE: Qual a maior dificuldade?

Laura: Acho que é a limitação física. Chega uma hora que cansa.

VDE: Como é a sensação de ter o filho e as netas longe?

Laura: É a sensação de você ganhar um presente maravilhoso, mas não poder curti-lo. É difícil não participar do crescimento delas, que há um ano moram nos Estados Unidos. Agora vou ganhar um neto no Brasil, o que é maravilhoso, mas acho que um não substitui o outro.

VDE: Como você imagina as avós do futuro?

Laura: Falando da idade para ser avó, não sei como será num futuro próximo. Minha mãe foi avó com 43 anos (eu tive filho com 21 anos),  eu, avó com 51, minha filha está tendo filho com 31 e provavelmente será avó mais tarde que eu. O perfil das avós está mudando rapidamente. A profissão tem peso grande na hora de decidir quando ser mãe.

VDE: Como enxerga as equilibristas que compram na sua loja?

Laura: O que percebo na loja é a grande falta de tempo das mães e também a quantidade de mães que ficam de repouso hoje em dia, por conta de gravidez de gêmeos (pelas inseminações) e outros problemas. Todas gostariam de ter mais tempo para seus bebês e poder trabalhar menos.

VDE: Você até criou um serviço para atender as mães.

Laura: Mandamos muitos enxovais em casa, presentes e também roupas para reposição. As mães não têm tempo de passar na loja e vejo que esse serviço é essencial para elas hoje em dia.

Laura Bierrenbach é proprietária da Bebeleta, loja de roupas para crianças de 0 a 3 anos em São Paulo, e avó de Luísa, 5 e Beatriz, 2. (www.bebeleta.com.br)

O apoio chega de elevador

[Monica H. Rodrigues]

“Comecei a minha carreira cedo, com 18 anos já era secretária trilíngue em uma multinacional alemã e fazia faculdade de administração à noite. Hoje sou gerente administrativo-financeira em uma empresa química em Cajamar, a 55 km de São Paulo.

Muito por conta da carreira, demorei para casar e depois, para ter filhos. Achava que teria filho e pararia de viver… ou seja, tinha oito anos de casada quando o mais velho nasceu.  Mas não quis largar o trabalho, sempre fui muito independente, nunca quis depender de marido. Depois tive mais um, que era planejado. Os outros dois vieram de brinde!!

Eu saio muito cedo por conta da distância do trabalho e as crianças vão e voltam de transporte para as duas escolas que frequentam.  Tenho duas empregadas que dão conta da casa pela manhã e, à tarde, das crianças. Elas fazem todas as atividades extra curriculares no condomínio, balé, judô, natação… Minha mãe mora no mesmo prédio, eu trabalho muito mais tranquila quando ela está por lá. Não que ela tenha obrigação ou passe o dia todo com elas, mas está sempre por perto. (leia o depoimento de Rosemarie no Papo de Equilibrista)

Outro dia minha filha perdeu o dente com raiz e tudo e quando eu soube, ela já estava na cadeira do dentista. Minha mãe costuma levar as crianças ao médico, ao ortodontista, a festinhas de aniversário. No horário comercial, com certeza, meus pais são meu grande apoio. Eles não mimam muito, pois com quatro é impossível, tudo é bem dividido. Acabam participando da educação, pois a lição de casa é feita na casa deles. Como meu marido não mora aqui durante a semana, pois trabalha em Catanduva, é bom ter meu pai por perto, pois ele é uma figura masculina e um avô muito presente.

Atualmente eu chego em casa por volta de 19h30, então dá para ficar mais um pouco com as crianças. Antes eu trabalhava em uma empresa em que o cedo era 20h30 e eu costumava chegar às 23h, quando já estavam dormindo há tempo. Isso marca as crianças, que até hoje me perguntam: Mami, você vai chegar cedo? Por isso, jamais marco compromissos à noite e meu final de semana é todo das crianças: não tenho empregada e dou sossego para os meus pais. 

Não me arrependo de ter demorado para ter meus filhos, pois já viajei para diversos lugares interessantes, já fui muito a festas. Não pulei nenhuma etapa. Vivi bem todas, não sinto falta de nada. Nunca pensei em largar a profissão, ela é uma conquista minha. Sempre gostei de trabalhar e de ser independente. Antes trabalhava para poder viajar, para comprar roupas… agora é tudo para eles, as prioridades mudam… Mas não tem problema, também me sinto realizada como mãe.

Monica H. Rodrigues é gerente administrativo-financeira em indústria química e mãe de Rafael, 6, Juliane, 5, Mariane, 4, e Victor, 2.