Doce confusão

[Maggi Krause]

Começo alguns dos meus dias sem acreditar que consigo trabalhar no meio dessa bagunça do escritório. Em outros, paro, respiro e resolvo dar aquela arrumada básica, daquele tipo que só conforta os olhos, para seguir em frente. Explico: agora que trabalho em casa, as coisas se misturam um tantinho mais…

Me forço a esquecer da zoeira de brinquedos espalhados pela sala, dos álbuns de fotos ainda por organizar, do armário que há meses espera uma boa arrumação, para sentar ao computador e me entregar sem culpa nenhuma aos textos.

Há seis anos, quando minha jornada virou tripla – trabalho fora, casa e filhos – comecei a viver por prioridades. Tive que abandonar a mania de ter tudo certinho, organizadinho, dominado! Depois do segundo filho, as plantas da minha varanda, largadas, foram morrendo. O apartamento no final de semana tava de pernas para o ar… mas o que era mais importante? Perder tempo com faxina ou brincar com os filhos no parquinho? Quando percebi que tinha passado quase um ano sem licenciar meu carro, vi que as coisas estavam meio fora de controle! Mas, aos poucos, as agruras foram passando, os filhos estão fortes, saudáveis e felizes e até ajudam a organizar seu quarto e seus brinquedos (apesar das pistas de carrinhos que ainda cruzam a sala!). E, recentemente, troquei as horas no trânsito por tempo extra para brincar com eles e cuidar da nossa horta na varanda.

Costumo ir resolvendo as coisas (da agenda de trabalho, aos compromissos da família e da casa) conforme posso. Existe uma frase muito usada nas redações: “O ótimo é inimigo do bom.” Há quem odeie essa afirmação, pois pressupõe que as pessoas já estão se dedicando menos do que poderiam para entregar um trabalho. Para mim funciona de outra maneira: costumo fazer tudo bem-feito (não perfeito, veja bem). Ou seja, vou cumprir a tarefa da melhor forma possível naquele momento, dedicando o máximo de mim (mas sem sofrimento!). No final das contas, quer saber? Acaba ficando ótimo!

Pensar dessa maneira para mim já é uma imensa vitória, pois a mania de perfeição parece um peso no meu sobrenome. A herança cultural germânica é tão forte que nem mesmo meio ano de estudo na Itália me livraram de ser pragmática, ponderada e organizada. Sei que misturo um bocado de perfeccionismo do meu pai com o senso prático da minha mãe! Graças a Deus ela conseguiu me fazer ver que o prático é muito mais útil para uma mulher do que o perfeito! Na Alemanha as exigências da família, da sociedade e até dos vizinhos são tão grandes que soube de amigas com filhos que caíram doentes por não conseguirem contentar a todas as expectativas (dos outros e delas mesmas). Repetidas vezes eu presenciei ou soube dos Krause da geração anterior sofrendo para entregar trabalhos impecáveis… só um detalhe: todos eram homens e delegavam os cuidados da casa e dos filhos à suas esposas. Fácil, não é mesmo?

Quantas executivas, professoras, médicas etc. também sofrem para entregar trabalhos impecáveis e ainda carregam nas costas todas as outras jornadas. Quando se pensa em tudo o que precisa ser feito, nunca é pouca coisa. Por isso acabo fazendo listinhas, para resolver uma coisa de cada vez. Mas, minha terapeuta floral sabe quantas vezes corri até ela implorando por um vidrinho para me fazer “dar conta”. Aos poucos, aprendi a me cobrar menos e dar pouca pataca para a opinião dos outros. Agora tenho mais tempo e não sobra dinheiro… e daí?

Uma semana antes de começar este texto, escutei no carro o novo CD da banda Pato Fu, Daqui pro Futuro. Me espantei com o refrão de uma das músicas, obra do John Ulhoa: “Quando algo sai do seu controle, o mundo volta a respirar. A confusão pode ser doce, a perfeição pode matar.” Apesar da batida de rock, vou fazer desses versos meu mantra. De manhã, vou dar bom dia para a confusão aqui de casa e pedir licença para fazer o que precisa realmente ser feito. Sem me escravizar, vou dedicar ao trabalho o suficiente para receber de volta satisfação (e pagar as contas das escolas, o melhor investimento, claro)! Vou tomar as gotas de floral e acreditar que serei capaz de curtir uma vida cada vez mais imperfeita.