Mulheres e felicidade

Lembro-me de ter visto, em arquivos antigos na Editora Abril, um lindo anúncio dos “Lençóis Santista”, veiculado na primeira edição de Claudia, em outubro de 1961. Divido essa pérola aqui com vocês:

 

Quando vi essa propaganda, chamou-me muito a atenção a simplicidade da cena e da mensagem: “ela é uma dona-de-casa feliz”. Era isso mesmo, essa mulher, fazendo a cama e brincando de roda com a filha, estava em estado pleno de felicidade. Não era uma propaganda enganosa.

Agora giremos o ponteiro e voltemos novamente para o início de 2011. Será que somos felizes? Será que conseguiríamos ser felizes com “tão pouco”, como essa mãe da propaganda? Tenho minhas dúvidas. De lá para cá, 50 anos se passaram e nesse período ocorreu uma enxurrada de mudanças, tanto na vida das mulheres como na sociedade como um todo. Somos bombardeadas hoje com cobranças que vem de todos os lados, sabiamente expressas nessa fala da psicóloga  Magdalena Ramos:

A mulher de hoje carrega essa angústia permanente porque quer ser boa mãe, boa dona de casa, boa esposa, boa amante, muito competente no trabalho, tem que estudar e se atualizar. E ainda precisa ser magra, fazer ginástica e cuidar da alimentação”.

Ufa, quanta coisa, haja equilibrismo! Culpas, cobranças, falta de tempo, patrulhamentos sociais, “pratinhos” que têm que ser equilibrados, será que as mulheres estão conseguindo ser felizes? Certamente estamos bem mais ocupadas e mais preparadas para lidar com a vida multi-tarefas, mas será que felizes?

Por outro lado, essa nova realidade das mulheres é uma viagem sem passagem de volta. Não queremos mais ser como a mãe da propaganda dos Lençóis Santista, tampouco creio que encontramos nosso ponto de equilíbrio perfeito. Acredito que vivemos um momento de transição: sabemos o que não queremos mais, mas ainda estamos buscando saber o que de fato queremos para nossas vidas. Só arrumar a cama não nos satisfaz mais. Também não queremos abrir mão da carreira e nem da família. Cotidianamente, umas mais outras menos, pensamos sobre o que queremos de nossas vidas. Será que caso ou compro uma bicicleta, será que retorno ao trabalho ou adio um pouco mais esse plano, será que assumo que gosto de ser dona de casa ou sigo trabalhando fora? Muitos “serás” e poucas certezas. De mãe como a dos Lencóis Santista para uma presidente mundial de uma multinacional, hoje, tudo é possível para as mulheres. As possibilidades são imensas e as dúvidas seguem a mesma proporção.

Mas acho que é assim mesmo, fases de transição provocam instabilidade e dúvidas. Isso não precisa significar infelicidade, muito pelo contrário. Somos felizes porque temos oportunidades, horizontes pela frente. Difícil é o trabalho dos publicitários que hoje precisam nos retratar em múltiplos papéis e nem sabem se nos apresentam em casa, no escritório, na porta da escola ou numa viagem de negócios!

Cecília R. T.

 

 

O retorno

O choro no meio da madrugada, os gastos com fraldas e a pilha de papinhas dentro do armário da cozinha. Os pais de primeira viagem, não acostumados à rotina de um bebê e que, até o presente momento, estavam “apenas” focados na carreira, podem ficar um pouco desnorteados no início.

Com esse parágrafo, o portal www.Administradores.com.br inicia uma reflexão sobre o retorno da mãe à vida profissional. Realmente esse período da volta é um ponto crítico de nossas vidas. Por um lado, queremos desesperadamente encontrar outras pessoas, sair da rotina peito-fralda-Hipoglós. Por outro lado, nossa alma está pregada em casa, juntinho do bebê. É animador pensar que participaremos de reuniões, encontraremos os colegas de trabalho e as divertidas conversas nos corredores. Mas como é desesperador deixar aquele ser tão pequenino sem estarmos pertinho deles. Ou será ao contrário, sem nós tendo-os por perto?

Esse sentimento ambíguo é muito verdadeiro e presente em todas nós. Na pesquisa que fiz para meu livro, mapeei os principais sentimentos desse retorno ao trabalho:

Ansiedade                 33%                                    

Alegria                        30%

Insegurança              25%

Conflito                       24%

Culpa                           22%

Angústia                      20%

Felicidade                   19%

Confiança                    13%

Esperança                   11%

Dúvida                         11%

É uma combinação de coisas boas com elementos bem doloridos. Só nos resta saber que, com o tempo, tudo entra nos eixos. Vale toda nossa atenção para escolher bem com quem o bebê ficará e acompanhar como nós e ele lidamos com esse momento de separação.

Mas, acreditem, no fim tudo dá certo!

Trabalhar ou não? Depende…

Tenho certeza de que muitas mães já se colocaram, em algum momento de suas vidas, essa questão: vou ou não trabalhar fora? E muito poucos pais sequer trouxeram para seus “radares” esse questionamento. Ainda há espaço para as mulheres se colocarem essa dúvida. No entanto, a resposta não é nada simples. Aliás, tenho certeza de que não há uma única resposta. Para ser mais honesta, a melhor resposta que eu daria para alguém que me pedisse algum conselho a partir dessa pergunta é: depende.

E acredito mesmo nisso, depende de muitas coisas. Por conta disso, resolvi relacionar o que, na minha opinião, deve ser considerado para que a decisão seja o mais madura possível. Aí vão  6 questionamentos que acho que valem a pena ser considerados:

  1. Sua família depende ou será bastante favorecida economicamente com sua atividade profissional?
  2. Independentemente de outras questões, você sente falta de trabalhar fora ou se sente 100% abastecida com suas atuais atividades?
  3. Seu marido é alguém que te apoia nessa empreitada de trabalhar fora e estaria disposto a dividir as responsabilidades da casa e da família com você, agora que ambos estarão trabalhando fora?
  4. Você já tem um esquema organizado para seus filhos ou consegue montá-lo para que você consiga delegar algumas atividades relacionadas a eles?
  5. Você se sente segura para ficar mais distante da casa e dos filhos, nas horas em que estiver trabalhando?
  6. Você sente que seu potencial profissional está sub-utilizado se não exercer alguma atividade profissional?

Certamente, cada uma dessas perguntas nos faz pensar um bocado. Responder sim ou não para cada uma delas não é e acho que nem deveria ser tão simples. Claro, para quem responde sim ou não para todas as questões, a decisão é fácil: sair correndo para trabalhar no primeiro caso ou optar por deixar a carreira de lado no segundo. Mas nem sempre as respostas são pretas ou brancas. O mais comum é respondermos sim para umas e não para outras…E aí, o que devemos fazer? Depende…

Ou seja, não acredito que essa seja uma decisão fácil, especialmente para as mães de filhos menores. Com essas perguntas acho que quis mesmo é propor uma reflexão. Mostrar que vale mesmo a pena parar e pensar. Não agir apenas porque “é bacana trabalhar fora” ou porque “meus filhos ficarão muito mal sem mim”.  A decisão de trabalhar ou não trabalhar fora, se não for algo compulsório para um lado ou outro, merece nossa total atenção. Afinal, de um jeito ou de outro ela mexe conosco e com toda a família.

Também é importante considerar que essa decisão pode ser temporária e refazer esses questionamentos de tempos em tempos pode ser bem proveitoso. Afinal, o que era bom um dia pode não ser mais . Depende, certo?

Volta para casa 2

[Claudia Zacharias]

Sentei para conversar com meu futuro chefe e disse: “Estou cansada de ficar em casa cuidando de criança. Preciso voltar a trabalhar.” Dois anos depois, meu discurso mudou radicalmente: “Estou cansada de trabalhar, quero voltar para casa. Minhas filhas precisam de mim.”

Trabalhei por 12 anos na área comercial de seguros e parei uma semana antes da minha primeira filha nascer. Fiquei durante 5 anos em casa e só fui ter babá depois do nascimento da caçula. Quando ela tinha dois anos, em 2005, recomecei na área comercial de uma empresa multimídia, motivada por um bom salário e pelo desafio profissional.

Nessa época, as crianças iam para a escola à tarde, e eu penei durante quase um ano para conseguir uma empregada de confiança. Eu tinha duas, e, às vezes, não chegava nenhuma na segunda-feira cedo para eu poder ir trabalhar. Meu marido dava um jeito de ficar com as meninas até uma delas chegar.

No trabalho, eu só tinha horário para entrar e não para sair. Viajava muito e trabalhava nos feriados, acompanhando projetos de filmagens de simpósios médicos. Mesmo passando fora finais de semana, não tinha uma única folga de segunda a sexta. Minha rotina pesou, pois sou muito mamãe ursa e fazia questão de dar banho nas crianças, nem que fosse às 20 ou 21hs. Fora isso, sobrava tudo pra mim: as compras da casa, a organização, as crianças ligando pra dizer que tinham brigado com a empregada…  Era o estresse de casa somado ao estresse do trabalho.

Eu tinha prazer em trabalhar, mas fiquei balançada com a saída de uma grande amiga da empresa (para ser mãe do terceiro filho). Além disso, minha filha começou a ter muito trabalho de escola que exigia acesso à internet e não tinha quem a ajudasse. A empregada era boa, mas passava conceitos errados para as crianças. Também pensava que as meninas seriam crianças uma vez só na vida. Como eu poderia resgatar isso depois? Como apagar os erros dos outros? Nessa idade as crianças absorvem muito.

Então, em maio de 2007, meu marido montou uma empresa eu dei um basta no trabalho. Na verdade eu era boa de vendas, ganhei até uma viagem-prêmio na empresa. Sou competente, tenho garra, força de vontade, trabalho no que eu quiser. Agora estou parada há um ano e estou feliz.

Claro que existem coisas que chateiam. O lance da grana, por exemplo, ter que pedir para o marido coisas que eu já não pedia. No domingo à noite peço um cheque para o jardineiro, outro para a fantasia do balé das crianças… Ele fala: você está me assaltando. Na hora dá raiva isso, mas depois passa.

O pior é quando surgem as encucações de mãe: será que sou boa companhia para as minhas filhas? Dito regras o tempo todo, sou muito rígida. Educar não é uma tarefa light. Estou acertando? Mas são crises normais… Acho que agora elas estão mais manhosas e grudadas em mim, não querem que eu faça nada sozinha.  Meu dia ainda é corrido, pois tudo tem hora, as tardes são muito ocupadas com atividades delas. Não é porque a pessoa está em casa que não trabalha. É preciso administrar as provisões, a empregada, de tarde é um leva-e-traz.

Para mim, o ideal é a mulher trabalhar enquanto as crianças estão na escola. Mas quando eu sentir que elas não correm perigo, estiverem com os princípios enraizados, que não vão fazer a cabeça delas… volto ao trabalho sabendo que dei o melhor de mim para educá-las. Me acho privilegiada por poder me dedicar a elas. Sou bem resolvida e preciso estar bem comigo para estar bem com os outros, por isso vou à ginástica, me presenteio, me permito ser feliz!

Claudia Oppido Zacharias é mãe de duas meninas (de 8 e 5 anos).

Rendimento de mães sozinhas é menor

…já as sozinhas sem filhos ganham mais.

Mulheres sem filhos que moram sozinhas podem ter rendimentos 60% superiores aos daquelas que têm filhos, mas não contam com a ajuda de um companheiro para a manutenção do lar, segundo revela a PED (Pesquisa de Emprego e Desemprego) divulgada pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socieconômicos), especialmente para o Dia Internacional da Mulher.

Segundo o estudo, o rendimento médio individual por hora das mulheres sozinhas é de R$ 8,98, enquanto o daquelas que convivem com o cônjuge, mas não têm filhos, é de R$ 6,91. Em seguida, estão as mulheres com filhos e companheiros (R$ 5,89) e, em último lugar, aquelas que possuem filhos, mas não contam com um parceiro (R$ 5,39).

Ainda segundo a pesquisa, a importância da contribuição feminina na composição da renda familiar total é de 31,8% nas famílias chamadas de nucleares sem filhos, de 22,4% naquelas com filhos e de 58,6% nas famílias sem cônjuge, mas com filhos, sendo que, neste caso, o restante da renda vem dos filhos.

Salários e ocupação

Em termos de salários brutos, os dados apurados mostram o seguinte: as famílias que possuem mulheres como chefes e presença de filhos apresentam, em média, renda familiar per capita de R$ 540, mostrando que, provavelmente, essas mulheres tendem a se inserir em postos de trabalho de menor qualidade, por conta de suas responsabilidades de provedoras únicas da família.

Em situação não muito melhor, encontram-se as famílias nucleares com filhos, cuja renda familiar per capita foi estimada em R$ 655. Por outro lado, nas famílias com ausência de filhos, portanto, menos extensas, o rendimento familiar per capita tende a ser mais elevado, de aproximadamente R$ 1.102, para casais sem filhos, e de R$ 1.154, para as mulheres que moram sozinhas.

No caso destas últimas, aponta o estudo, os resultados sugerem uma inserção mais qualificada no mundo do trabalho, especialmente entre as mais jovens, podendo expressar a postergação ou mesmo o abandono de projetos de vida familiar em função de uma carreira profissional.

Fonte: Matéria de Gladys Ferraz Magalhães, do InfoMoney, março 2009.

OUTROS NÚMEROS:

Segundo o IBGE, 1/3 dos domicílios brasileiros são chefiados por mulheres (neste número entram as sozinhas e também as eu são principal fonte de renda de seus domicílios).

Em 2008, para cada 4 casamentos, aconteceu 1 divórcio, ou seja, o percentual de mulheres separadas também aumenta a cada ano.

Equilíbrio de opiniões

[Mães equilibristas]

Na sua opinião, o que a equilibrista ainda precisa conquistar?

“Acho que toda equilibrista precisa se livrar de culpas, precisa encontrar paz e alegria e precisa se equilibrar entre as posições de educadora e de desfrutadora da vida familiar!!!” Natalia Zekhry, obstetra em São Paulo, SP, mãe de Ana (7),  Alice (6), e Alex (1).

“Jornada de trabalho reduzida sem que implique em conseqüências na sua carreira e imagem.” Dora, publicitária, São Paulo, SP, duas filhas (5 e 1 ano).

“Acho que o que ainda falta é o compartilhamento verdadeiro das responsabilidades da casa e dos filhos com o parceiro. A divisão de tarefas já é um bom avanço, mas acredito que a evolução máxima será quando o marido “espontaneamente” abrir a agenda dos filhos para ver os recados do colégio, ou lembrar-se de que é época de visita ao pediatra!” Andrea Alvares, diretora da Pepsico, São Paulo, SP, mãe de Júlia (9), Rafael (5) e Manuela (1 1/2).

“A equilibrista ainda precisa conquistar a independência econômica, para que o equilíbrio não fique ameaçado diante de eventuais contratempos profissionais e/ou pessoais.” Fernanda, autônoma de São Paulo, SP, mãe de Matheus (7).

“Eu acho que a equilibrista precisa de reconhecimento do marido/parceiro/pai porque são pouquíssimos os que conheço que reconhecem que nós somos equilibristas, que nós estamos cansadas sim e que seria de imenso prazer dividir os trabalhos no fim de semana, que seria maravilhoso ouvir na sexta ou sábado à noite “amanhã você dorme até mais tarde que eu acordo cedo com o bebê”, enfim… um pouquinho mais de ajuda não seria nada mal.” Karin, secretária,  Angra dos Reis, RJ, filho (10 meses) e filha (4 anos).

“Nós equilibristas temos que conquistar o controle sobre nossos próprios “hormônios”  que nos fazem questionar e oscilar muito e acabamos tomando decisões e atitudes às vezes precipitadas. Precisamos domar nossos ímpetos, pois temos tudo sob controle !!!” Viviane P. Lopes, Rio de Janeiro, RJ

“Nós equilibristas precisamos conquistar a PAZ, o tão sonhado tempo para dedicar a nós mesmas… e não estou falando de ginástica e estética ( que isso nós já “tentamos” conseguir), e sim algo nosso (interior), respirar sem nenhuma preocupação…sem horários malucos…sem rotina enlouquecedora….enfim apenas você com VOCÊ!!!!” Gi Millan, assessora de eventos, São Paulo, SP, mãe de Gabriela (7).

“Em minha opinião, a equilibrista precisa conquistar equilíbrio e autoconfiança. Precisa segurar os pratinhos segura de si.  Segura de que está fazendo o melhor, segura de que é a melhor pessoa que se pode ser, e segura de que vai dar tudo certo. E ainda, ser detentora daquele olhar confiante, de tranquilidade. Em outras palavras: Precisa se conquistar.  Ser segura de si. Pois quando a mulher é feliz consigo, segura melhor os pratinhos.” Vivian B Teixeira Torolho, advogada, Barueri, SP, mãe de Vitória (3 anos)e Isabela (1 ano).

Outras lutas

[Cecília Troiano]

Hoje, as reinvindicações das mulheres são bem distintas das de gerações anteriores. Um olhar mais ingênuo poderia achar que seguimos lutando pelas mesmas coisas. Total engano.

Se antes as mulheres lutavam para entrar no mercado de trabalho, hoje lutamos para construir um espaço no mercado de trabalho que tenha a nossa cara. Acabou-se a época em que precisávamos provar nossa competência. Claro, ainda persistem alguns espaço machistas dentro das empresas, mas ninguém mais duvida da capacidade e do talento das mulheres. Alguns podem até se incomodar, mas nunca achar que somos menos do que os homens no mundo corporativo.

Além disso, nossa luta hoje tem muito mais frentes abertas. Não digo que a luta das mulheres nos anos 60 e 70 tenha sido menos penosa. Ao contrário, o que elas fizeram foi importantíssimo e extremamente difícil. Hoje minha geração colhe os frutos da dedicação das “Leila Diniz”. Mas acredito que a luta de hoje seja mais pulverizada. Lutamos por  tantas coisas!

Lutamos para que as empresas consigam administrar as carreiras femininas de forma inteligente e possível para as mulheres. Lutamos para que nossos maridos dividam igualmente as tarefas da casa e o cuidado com os filhos. Lutamos para que nossos filhos cresçam como pessoas bacanas e saudáveis. E, apesar de toda nossa correria, lutamos para que nosso corpo resista a tantas exigências que impomos a ele. Poderia seguir com essa lista por mais muitas linhas e lutas.

Sem dúvida, nossas lutas são outras, mas uma coisa é certa: a luta continua!

Originalmente veiculado no GNT/Blog

Um viva ao nosso dia!

[Ana Dini]

Vemos nos dias de hoje mulheres nos hospitais, advogando, pesquisando, empreendendo, votando e sendo votadas, mas não foi sempre assim. Imaginem que não podíamos competir nas olimpíadas, jogar futebol? Hoje conquistamos até mesmo uma delegacia para nos atender.

Mais e mais mulheres assumem posições de comando em empresas e buscam dedicar-se ao mundo coorporativo. Pensar que não tínhamos nem o simples direito de estudar!

Acostumamo-nos com esse cenário e por não vivermos outro ou por não termos tempo, no ritmo de vida que levamos, para parar e pensar sobre a nossa história de conquistas, nos parece que tudo sempre foi assim: mulher trabalha fora, às vezes ganha mais que o marido, tem uma agenda interminável que concilia, muitas vezes, o comando de uma equipe de trabalho com reuniões na escola e idas ao pediatra. E, além de tudo isso, não abre mão da nossa feminilidade, portanto, precisa de tempo para o cabeleireiro e para programas a dois.

Conquistamos o direito à vida pública, que de algum modo se associa a nossa vida privada. Hoje saímos às ruas e somos parte integrante da sociedade, temos direitos e deveres como os homens. Além de conquistar, assumimos o que buscávamos e, diga-se de passagem, temos nos saído bem. Assumimos com tanta força e vontade que hoje quando qualquer uma de nós diz “vou parar de trabalhar e ficar em casa”, é vista como um E.T.

E nesse ponto, a meu ver, reside o que nos falta conquistar. As nossas escolhas são feitas a partir de um senso comum. Hoje o normal é trabalharmos de 12 a mais horas, sermos casadas ou não, termos filhos, cuidarmos da organização de nossas casas, colaborarmos em igualdade com as despesas e não deixarmos que o nosso sentimento de culpa por não estarmos dando conta, como gostaríamos, de  uma  ou outra coisa, influencie negativamente a harmonia de nossos lares. Equilibramos tudo! Quando alguma de nós diz “não quero esse modelo”, hoje não é vista com bons olhos. Ouço relatos de mães que me dizem ter ouvido de suas amigas, quando optaram em ficar em casa com seus filhos, que optaram pela vida boa.

Entre as nossas conquistas deveria estar o direito de fazer aquilo que se julga o melhor para o momento de cada uma. E mais do que isso: o dever de olhar para sua própria vida independentemente do senso comum e buscar nela a resposta para o seu crescimento pessoal. A meu ver, dessa forma teríamos uma atitude digna de ser imitada por nossos filhos e homens.

Ana Dini é educadora, formada pela USP-SP, especialista em Educação Infantil. Há 18 anos atende crianças e pais em escolas de grande porte. Ministra o workshop “Como falar para o seu filho ouvir”. Contato: anapdini@hotmail.com

Sacrifícios pela carreira

Pesquisadores ouvem mais de 250 mulheres no topo da carreira e identificam os obstáculos às altas exigências da vida executiva. Insatisfação com o desequilíbrio entre trabalho e rotina pessoal é a maior queixa, embora a carreira seja um fator de realização. 

Sem culpa, os executivos homens, casados e com filhos, alguns com mulheres que também trabalhavam, soltavam pérolas que caíam como fósforos acesos em palha seca no lado feminino, do tipo: “quando estou estressado, corro na praia, jogo tênis durante umas duas horas depois do trabalho e quando chego em casa estou relaxado”, ao que as executivas respondiam: “ah, é?! E quando você chega em casa, sua mulher já pôs os filhos para dormir? Eu não posso fazer isso, quem cuidaria das minhas crianças?” As executivas entrevistadas disseram que seus maridos, muitos deles também executivos, raramente ajudam nas tarefas com os filhos do casal.

Parece incrível, mas o parágrafo acima figura no estudo A Super Executiva às voltas com Carreira, Relógio Biológico, Maternidade, Amores e Preconceitos, dos autores Betania Tanure, Antonio Carvalho Neto, Juliana Oliveira Andrade. Eles analisaram uma pesquisa quantitativa com 222 respondentes, mulheres executivas no topo da carreira em 344 das maiores empresas do país. Na fase qualitativa, ouviram 48 mulheres de 10 empresas de vários setores. Também ouviram 215 executivos homens.*

No resultado, identificaram os maiores obstáculos à carreira executiva das mulheres:

– preconceitos muito arraigados

– pressão do relógio biológico

– cuidados com os filhos recaindo sobre as mulheres versos uma jornada de trabalho muito extensa.

– dificuldades com o parceiro

Entre outras constatações, algumas são bem interessantes:

–  constituir família produz um impacto positivo na carreira do homem (foram ouvidos também 215 executivos homens na mesma pesquisa), já as mulheres com filhos pequenos investem mais na família e menos na carreira.

– devido à disponibilidade de mão-de-obra barata, as mulheres executivas contam com ajuda de empregadas domésticas, babás e outras profissionais, que assumem tarefas como o cuidado com o dia a dia dos filhos, alimentação e higiene destes, entre outros.

– Tarefas não “terceirizáveis”, como a orientação quanto a valores e definição de limites para as crianças, são uma carga adicional para a mulher executiva.

– Horas excessivas de trabalho geram ausência constante da mulher do lar. Quando estão presentes, podem sofrer de ausência psicológica e ainda estarem ligadas ao trabalho por celular, e-mail, blackberry… Todo o tipo de ausência gera na executiva um grande sentimento de culpa.

– Os primeiros anos de ascensão da carreira profissional (dos 27 a 34) se sobrepõem aos anos mais apropriados biologicamente para a maternidade.

* pesquisa publicada em 2006.

Da ausência à dedicação

[Renata Costa]

Sempre contei com o suporte de minha mãe e minha sogra, que buscavam meus filhos na escola, davam almoço e levavam para a atividade da tarde. Depois do nascimento do nosso terceiro filho, o esquema começou a ficar pesado para elas. A babá ficava com o bebê e sobrava tudo dos mais velhos. Teria que contratar mais uma babá e um motorista para tirar esse compromisso delas. Além disso, as duas estavam tendo que educar, chamar a atenção, falar grosso, enfim, estavam fazendo o papel dos pais.
Vó precisa curtir, mimar, deixar que as crianças pulem na cama delas… Ambas precisavam voltar a ser só avós e meus filhos estavam mesmo sentindo falta da mãe. No início, achavam que eu não iria conseguir ficar direto com eles, pois sou meio brava, não tenho muita paciência, já saio gritando. Mas estou vivenciando um novo aprendizado, à noite sempre repasso o dia e avalio tudo o que fiz.

Trabalhei em agência de publicidade e depois, durante 10 anos, na área de marketing publicitário do grupo Meio & Mensagem. Nunca fui de ligar para casa 3 vezes por dia para saber como estavam as coisas, confiava totalmente nas avós, que levavam até no pediatra e no hospital, se fosse preciso. Eu não estava presente na rotina deles, chegava e estavam de banho tomado, jantados, só para colocar na cama. A mudança do trabalho para casa foi radical. Eu vim do mercado, não sabia nem brincar no chão. Fui me soltando aos poucos, até para desarrumar a casa eu tinha preconceito.

Mas optei por isso na hora certa. A Maria Eduarda, com a chegada do Leonardo, ficou mais carente. Além disso, vai entrar logo no 1º ano e acho bom estar por perto, pois ela precisa de incentivo e de reconhecimento para tudo o que faz. O Rafael, o mais velho, é bom aluno, nunca me deu trabalho com lição, mas em compensação é introspectivo, só com tempo e conversa para saber algo dele. Percebi que ele tinha uma sensação de que não podia contar comigo para nada, não ia à casa de amigos, pois eu não podia buscar, não dava para fazer lições em conjunto (a escola às vezes pede).

Agora me aproximei muito deles, busco todos os dias na escola, almoçamos juntos, levo nas atividades da tarde, brinco, cuido. Tenho uma empregada que cuida da casa e uma babá que dorme para me ajudar. Sinto alívio por poder acompanhar a evolução educacional deles. Mas achei que bastava eu voltar para casa e estaria tudo solucionado. Nada disso, os problemas continuam acontecendo, mesmo você estando perto. Só assim para perceber algumas coisas, como o fato da Duda ser o sanduíche (filha do meio) e achar que deveria conseguir fazer o mesmo que o mais velho faz e, além disso, ouvir de todos que o mais novo é uma gracinha. É um desafio, cada filho é diferente e tem outras necessidades.

Meu marido diz que se a gente pudesse, teria feito isso antes. Ele é muito paizão e achava que faltava mesmo esse cuidado de mãe. Tive o apoio dele em todos os sentidos. Estranho é que depois de ter parado de trabalhar, comecei a questionar minha própria carreira. Não consigo definir do que eu gostava realmente naquela rotina. Vou continuar de olho no mercado, mas acho que na minha área acontecem tantas inovações que quando você dá um tempo, está fora. Vou pesquisar áreas que não exigem tanta atualização. Mas, por enquanto, vou ficar alguns anos acompanhando os três e curtir essa experiência.

Renata Costa é publicitária, mãe de Rafael (8), Maria Eduarda (5) e Leonardo (2).