A luta continua

É cada vez mais comum vermos mulheres liderando empresas ou em cargos de alto escalão. São inegáveis as conquistas femininas nesse campo e isso nem é mais tão notícia assim. Mas o que ainda surpreende é quão pouco as mulheres caminharam na divisão de tarefas. Todos os dados que leio relacionados à carga horária das mulheres dentro de casa apontam para a mesma direção: a mulher soube entrar nas empresas mas não soube delegar a casa ao marido. Cabe ainda às mulheres, com exceção das muitos ricas (que pagam para alguém cuidar disso), ter a dupla jornada, trabalhando muito dentro e fora de casa. Hoje, lendo ao jornal Estado de São Paulo, o sociólogo pesquisador da Universidade de Brasilia, Marcelo Medeiros, aborda muito bem esse ponto, fazendo-me refletir sobre uma ideia: ainda há muito o que mudar no que se refere à igualdade entre homens e mulheres. Aceita-se muito bem mulheres presidindo empresas mas poucos homens são corajosos o suficientes para serem “apenas” donos de casa. Ainda prevalece sobre eles o estereótipo do provedor. Ele pode até  “dar uma mão” nas tarefas da casa mas essa gestão ainda é feminina.

Não sou defensora da igualdade absoluta entre gêneros mas sim a favor da liberdade de escolha. Nesse quesito acho que tanto homens como mulheres ainda vivem numa encruzilhada. Mulheres porque não se libertaram das tarefas da casa, apesar do excelente desempenho no mundo corporativo. Homens porque sentem-se pressionados para produzir “fora de casa” e sentem-se impedidos de fazer uma outra opção, que não essa.

Pois é, para quem acha que muitas mudanças rolaram, sem dúvidas, isso é inequívoco. Mas a luta ainda continua. Para elas e para eles.

Mulheres e felicidade

Lembro-me de ter visto, em arquivos antigos na Editora Abril, um lindo anúncio dos “Lençóis Santista”, veiculado na primeira edição de Claudia, em outubro de 1961. Divido essa pérola aqui com vocês:

 

Quando vi essa propaganda, chamou-me muito a atenção a simplicidade da cena e da mensagem: “ela é uma dona-de-casa feliz”. Era isso mesmo, essa mulher, fazendo a cama e brincando de roda com a filha, estava em estado pleno de felicidade. Não era uma propaganda enganosa.

Agora giremos o ponteiro e voltemos novamente para o início de 2011. Será que somos felizes? Será que conseguiríamos ser felizes com “tão pouco”, como essa mãe da propaganda? Tenho minhas dúvidas. De lá para cá, 50 anos se passaram e nesse período ocorreu uma enxurrada de mudanças, tanto na vida das mulheres como na sociedade como um todo. Somos bombardeadas hoje com cobranças que vem de todos os lados, sabiamente expressas nessa fala da psicóloga  Magdalena Ramos:

A mulher de hoje carrega essa angústia permanente porque quer ser boa mãe, boa dona de casa, boa esposa, boa amante, muito competente no trabalho, tem que estudar e se atualizar. E ainda precisa ser magra, fazer ginástica e cuidar da alimentação”.

Ufa, quanta coisa, haja equilibrismo! Culpas, cobranças, falta de tempo, patrulhamentos sociais, “pratinhos” que têm que ser equilibrados, será que as mulheres estão conseguindo ser felizes? Certamente estamos bem mais ocupadas e mais preparadas para lidar com a vida multi-tarefas, mas será que felizes?

Por outro lado, essa nova realidade das mulheres é uma viagem sem passagem de volta. Não queremos mais ser como a mãe da propaganda dos Lençóis Santista, tampouco creio que encontramos nosso ponto de equilíbrio perfeito. Acredito que vivemos um momento de transição: sabemos o que não queremos mais, mas ainda estamos buscando saber o que de fato queremos para nossas vidas. Só arrumar a cama não nos satisfaz mais. Também não queremos abrir mão da carreira e nem da família. Cotidianamente, umas mais outras menos, pensamos sobre o que queremos de nossas vidas. Será que caso ou compro uma bicicleta, será que retorno ao trabalho ou adio um pouco mais esse plano, será que assumo que gosto de ser dona de casa ou sigo trabalhando fora? Muitos “serás” e poucas certezas. De mãe como a dos Lencóis Santista para uma presidente mundial de uma multinacional, hoje, tudo é possível para as mulheres. As possibilidades são imensas e as dúvidas seguem a mesma proporção.

Mas acho que é assim mesmo, fases de transição provocam instabilidade e dúvidas. Isso não precisa significar infelicidade, muito pelo contrário. Somos felizes porque temos oportunidades, horizontes pela frente. Difícil é o trabalho dos publicitários que hoje precisam nos retratar em múltiplos papéis e nem sabem se nos apresentam em casa, no escritório, na porta da escola ou numa viagem de negócios!

Cecília R. T.

 

 

Oração da equilibrista

[Maggi Krause]

O que são as conquistas de uma equilibrista senão um dia vivido (e cumprido) após o outro?

Bom, eu não saio da cama sem rezar e pedir a Deus proteção, serenidade e diligência. Quem é equilibrista sabe bem o motivo…

Segue aí um exercício que, na certa, é muito pessoal. Cada equilibrista deveria adaptá-lo a seu gosto e necessidade.

Obs. A minha oração diária é bem mais simples do que essa.

ORAÇÃO DA EQUILIBRISTA

Senhor, meu querido Deus e pai, permita que eu consiga cumprir meus afazeres de hoje, seja com as crianças, o trabalho, a casa… Conceda-me paciência com todos os que me rodeiam e, principalmente, comigo mesma.

Dê-me sabedoria para discernir o que é prioridade e acrescente uma dose de objetividade, sempre em falta. E me agracie com saúde física e inteligência emocional, sobretudo para lidar com as pressões na carreira e com as cobranças da família.

Perdoa-me a minha pressa e proteja-me do inferno do trânsito e da violência urbana. Dentro do carro, na porta da escola, na hora do banho, da lição e da comida, conceda-me calma para escutar os problemas dos filhos e atender as suas necessidades.  

Não me deixe cair de exaustão e livra-me da síndrome da mulher perfeita, geradora de culpa e causa de gastrites, enxaquecas e crises de TPM. E não me deixe perder a memória, pois não posso esquecer a lancheira, a reunião, a lasanha no forno… Necessito lembrar das tarefas de hoje, das contas a pagar de amanhã e dos compromissos do final de semana – meus e da família toda. 

Agradeço senhor, pela saúde e o humor dos meus filhos, pela harmonia no lar, pelo relacionamento amoroso e amigo com o marido, pelo auxílio precioso dos avós, pela dedicação da empregada e pelo funcionamento dos equipamentos para que o dia-a-dia corra bem (o carro, o celular, o e-mail e o despertador…).

Peço sua compaixão para com a mulher moderna – atribulada, mas nunca descrente -, e seu apoio nas horas realmente difíceis, para além do estresse e do cansaço da vida de equilibrista. Derrama sua bondade sobre mim e me contagie com alegria, senhor, para que eu possa completar a minha humilde (e dupla) missão.

Amém

Um viva ao nosso dia!

[Ana Dini]

Vemos nos dias de hoje mulheres nos hospitais, advogando, pesquisando, empreendendo, votando e sendo votadas, mas não foi sempre assim. Imaginem que não podíamos competir nas olimpíadas, jogar futebol? Hoje conquistamos até mesmo uma delegacia para nos atender.

Mais e mais mulheres assumem posições de comando em empresas e buscam dedicar-se ao mundo coorporativo. Pensar que não tínhamos nem o simples direito de estudar!

Acostumamo-nos com esse cenário e por não vivermos outro ou por não termos tempo, no ritmo de vida que levamos, para parar e pensar sobre a nossa história de conquistas, nos parece que tudo sempre foi assim: mulher trabalha fora, às vezes ganha mais que o marido, tem uma agenda interminável que concilia, muitas vezes, o comando de uma equipe de trabalho com reuniões na escola e idas ao pediatra. E, além de tudo isso, não abre mão da nossa feminilidade, portanto, precisa de tempo para o cabeleireiro e para programas a dois.

Conquistamos o direito à vida pública, que de algum modo se associa a nossa vida privada. Hoje saímos às ruas e somos parte integrante da sociedade, temos direitos e deveres como os homens. Além de conquistar, assumimos o que buscávamos e, diga-se de passagem, temos nos saído bem. Assumimos com tanta força e vontade que hoje quando qualquer uma de nós diz “vou parar de trabalhar e ficar em casa”, é vista como um E.T.

E nesse ponto, a meu ver, reside o que nos falta conquistar. As nossas escolhas são feitas a partir de um senso comum. Hoje o normal é trabalharmos de 12 a mais horas, sermos casadas ou não, termos filhos, cuidarmos da organização de nossas casas, colaborarmos em igualdade com as despesas e não deixarmos que o nosso sentimento de culpa por não estarmos dando conta, como gostaríamos, de  uma  ou outra coisa, influencie negativamente a harmonia de nossos lares. Equilibramos tudo! Quando alguma de nós diz “não quero esse modelo”, hoje não é vista com bons olhos. Ouço relatos de mães que me dizem ter ouvido de suas amigas, quando optaram em ficar em casa com seus filhos, que optaram pela vida boa.

Entre as nossas conquistas deveria estar o direito de fazer aquilo que se julga o melhor para o momento de cada uma. E mais do que isso: o dever de olhar para sua própria vida independentemente do senso comum e buscar nela a resposta para o seu crescimento pessoal. A meu ver, dessa forma teríamos uma atitude digna de ser imitada por nossos filhos e homens.

Ana Dini é educadora, formada pela USP-SP, especialista em Educação Infantil. Há 18 anos atende crianças e pais em escolas de grande porte. Ministra o workshop “Como falar para o seu filho ouvir”. Contato: anapdini@hotmail.com