Mulheres e felicidade

Lembro-me de ter visto, em arquivos antigos na Editora Abril, um lindo anúncio dos “Lençóis Santista”, veiculado na primeira edição de Claudia, em outubro de 1961. Divido essa pérola aqui com vocês:

 

Quando vi essa propaganda, chamou-me muito a atenção a simplicidade da cena e da mensagem: “ela é uma dona-de-casa feliz”. Era isso mesmo, essa mulher, fazendo a cama e brincando de roda com a filha, estava em estado pleno de felicidade. Não era uma propaganda enganosa.

Agora giremos o ponteiro e voltemos novamente para o início de 2011. Será que somos felizes? Será que conseguiríamos ser felizes com “tão pouco”, como essa mãe da propaganda? Tenho minhas dúvidas. De lá para cá, 50 anos se passaram e nesse período ocorreu uma enxurrada de mudanças, tanto na vida das mulheres como na sociedade como um todo. Somos bombardeadas hoje com cobranças que vem de todos os lados, sabiamente expressas nessa fala da psicóloga  Magdalena Ramos:

A mulher de hoje carrega essa angústia permanente porque quer ser boa mãe, boa dona de casa, boa esposa, boa amante, muito competente no trabalho, tem que estudar e se atualizar. E ainda precisa ser magra, fazer ginástica e cuidar da alimentação”.

Ufa, quanta coisa, haja equilibrismo! Culpas, cobranças, falta de tempo, patrulhamentos sociais, “pratinhos” que têm que ser equilibrados, será que as mulheres estão conseguindo ser felizes? Certamente estamos bem mais ocupadas e mais preparadas para lidar com a vida multi-tarefas, mas será que felizes?

Por outro lado, essa nova realidade das mulheres é uma viagem sem passagem de volta. Não queremos mais ser como a mãe da propaganda dos Lençóis Santista, tampouco creio que encontramos nosso ponto de equilíbrio perfeito. Acredito que vivemos um momento de transição: sabemos o que não queremos mais, mas ainda estamos buscando saber o que de fato queremos para nossas vidas. Só arrumar a cama não nos satisfaz mais. Também não queremos abrir mão da carreira e nem da família. Cotidianamente, umas mais outras menos, pensamos sobre o que queremos de nossas vidas. Será que caso ou compro uma bicicleta, será que retorno ao trabalho ou adio um pouco mais esse plano, será que assumo que gosto de ser dona de casa ou sigo trabalhando fora? Muitos “serás” e poucas certezas. De mãe como a dos Lencóis Santista para uma presidente mundial de uma multinacional, hoje, tudo é possível para as mulheres. As possibilidades são imensas e as dúvidas seguem a mesma proporção.

Mas acho que é assim mesmo, fases de transição provocam instabilidade e dúvidas. Isso não precisa significar infelicidade, muito pelo contrário. Somos felizes porque temos oportunidades, horizontes pela frente. Difícil é o trabalho dos publicitários que hoje precisam nos retratar em múltiplos papéis e nem sabem se nos apresentam em casa, no escritório, na porta da escola ou numa viagem de negócios!

Cecília R. T.

 

 

Medindo a culpa

[Cecília Troiano]

Qual é a intensidade da culpa de cada mãe?

Na pesquisa quantitativa realizada para o livro “Vida de Equilibrista, dores e delícias da mãe que trabalha” apresentamos às mulheres um “termômetro da culpa”. Ele mostrava uma escala de 1 a 10 pontos, sendo 10 o grau máximo (mostre o seu grau de culpa FÓRUM dessa semana!!).

A média alcançada foi de 7 pontos! Se dividirmos 10 em quartis, essa média estaria no terceiro quartil – não chega a ser uma culpa insuportável, mas é bem significativa.

E surgiu um dado interessante: não há diferença na intensidade desse sentimento entre mães de um e mães de dois filhos ou mais.

Como era de se esperar, a culpa é ligeiramente maior nas mães que têm filhos de até 6 anos e menor nas com crianças mais velhas do que 7 anos. Ou seja, ela não se sente tão mal por estar ausente quando tem filhos maiores: ficava mais arrasada quando eles eram pequenos!

A culpa das autônomas é maior

Parece um contrasenso, mas não é. A culpa das mães que fazem seu próprio horário, a exemplo das empresárias ou profissionais liberais, tende a ser maior do que a culpa das mães que trabalham em empresas, como assalariadas. Mães que têm maior autonomia sobre seu horário são responsáveis pelas escolhas que fazem. Decidem quanto tempo trabalham, de que forma, quando param, se emendam ou não um feriado.

Mães autônomas ou profissionais liberais optam por estar ou não estar com os filhos. Essa autonomia da decisão cobra um preço, o preço de uma culpa mais elevada. À medida que essas mães têm nas mãos a decisão e o controle, a cobrança sobre si é muito maior.

Por outro lado, no caso das assalariadas, na maioria das vezes, elas são reféns dos horários estipulados pela empresa ou pelo chefe. O limite e o controle são determinados por outros. Cabe a elas apenas respeitar mais ou menos, dentro das regras de cada empresa. Mas a definição já foi feita e tomada pelo “outro”. Ela não é ativa na decisão, ao contrário, é passiva. A culpa fica mais controlada exatamente por essa razão: sua menor presença junto aos filhos foi determinada pela empresa, não foi uma escolha dela.

(baseado em trechos do livro Vida de Equilibrista, dores e delícias da mãe que trabalha, de Cecília Russo Troiano)

Opiniões e posturas diversas

Em relação à culpa, tem quem seja muito bem resolvida. Outras, nem tanto.  Leia os depoimentos das equilibristas e veja se você se identifica!

O caminho trilhado por nós mães – marinheiras de primeira, segunda ou terceira viagem – sempre foi e sempre será árduo (mas não menos doce!), na tentativa de sermos melhores a cada dia. Mães melhores… Ah, essa eterna busca da superação!! Superação da culpa, diga-se de passagem!Muitas vezes, não nos basta fazer tudo o que fazemos para tentar cumprir a agenda dos nossos filhos e a nossa. Equilibristas de plantão, driblamos como ninguém os compromissos profissionais, a administração do lar doce lar, a lição de casa dos menores, a balada da mais velha. Imagine só, ter espaço para sentir culpa! Ao menos não deveria. E a tal superação? Superação do que mesmo? Pois é, os filhos crescem e só se modificam as atividades da mãe PHD, pois cada fase é uma fase. Mas nada mudou; continuamos querendo muito para os filhotes, tenham eles a idade que tiverem. Noites mal-dormidas a gente coleciona aos montes desde que ouvimos o choro deles pela primeira vez.

E se o casamento acabar, nem pense em ser pai e mãe. Imagine, não vai sobrar um só pedacinho de você para contar história para os netinhos. Por isso, exorcize a culpa! Trabalhe o necessário, saia para dançar, namore muuuuito!!! Seja absolutamente feliz com você mesma! Seja profissional sim, seja amiga, seja amante, seja maluca por um dia! Os laços de afeto com seus filhos estarão eternizados se você conseguir ensinar a eles que mãe é tudo de bom, mas também precisa de espaço.

Telma Egle, jornalista, filhos de 18, 11 e 3 anos.

Culpada ou Inocente?

Culpa é aquele sentimento que consome as energias de quem precisa produzir, mas sente-se paralisado por não ser o que gostaria de ser?

Culpa em Direito Penal, é atribuída, basicamente quando se causa dano a alguém, mediante negligência, imperícia ou imprudência. Caso haja Culpa ou Dolo (intenção de cometer o delito) a pessoa será condenada.

A mãe que trabalha, que “deixa” seu filho lhe causa danos? A resposta é muito subjetiva e tem inúmeras possibilidades. Mas, o problema para a mulher que trabalha e que gosta de ser um boa mãe é a dificuldade de dosar essas funções. E, se condena por não oferecer o que gostaria a seus filhos. Então, como pena, carrega uma culpa enorme em seus ombros.

Culpa paralisa, consome, estressa. Culpa é má conselheira. Acredito que mulheres que não possuem culpa são as que possuem ideais de mãe bem próximos da realidade. Fazem o que podem fazer.

Concluindo, para se libertar do fantasma da culpa é necessário se absolver. Buscar viver bem. Ser bem resolvida com suas escolhas.

PS- Eu sou uma condenada e apenada, venho lutando por absolvição.

Vivian B Teixeira Torolho, autônoma, filhos de 3 e 1 ano.


Penso que culpa não nos serve em nada! Nosso trabalho vai muito além do que a necessidade material, ele nos realiza, nos dignifica e com essa certeza podemos estar inteiras enquanto estamos no trabalho. Outra qualidade fundamental a ser desenvolvida em nós é a confiança naqueles que escolhemos para parceiros no cuidado e na educação de nossos filhos.

Com isso no coração aos poucos a gente pode trilhar o caminho do meio ao nos desenvolvermos profissionalmente, fazendo o que gostamos e acreditando naquilo que podemos contribuir. Ao mesmo tempo colocar limites, porque nossa tarefa em casa como educadores e orientadores fomos nós que escolhemos e isso requer muito trabalho, as vezes mais interno do que externo.

Ana Altenfelder, autônoma, 4 filhos.


Que culpa eu tenho se não sinto culpa? Não. Eu não me sinto culpada em trabalhar e deixar meus filhos mais velhos na escola e meu filho caçula em casa. Sou mãe de trigemeos de 4 anos e de um filho mais novo de 2 anos. E nunca deixei de trabalhar, de sair com o meu marido, de ver meus amigos e acima de qualquer coisa, aproveitar todo o momento para estar com os meus filhos, seja pessoalmente ou pelo telefone e principalmente no meu coração. Eles sempre comigo, não importa onde ou que eu esteja fazendo.E sim, eu me sinto feliz, realizada, amada e querida. Equilibrando todos os meus  muitos “pratinhos”. Culpa? Nunca! Jamais!”

Aurea Cardoso

Eu senti culpa, mas logo passou. Programei passar a deixar meu filho na escola durante 4 tardes por semana e a culpa foi o primeiro sentimento que apareceu. Logo no primeiro dia de aula o Matheus voltou pra casa por volta das 17h00 e, para a minha surpresa e tranquilidade, me deparei com uma criança super feliz! Me senti uma tola…o que poderia ser mais gostoso do que ficar a tarde na escola em companhia de outras crianças? Eles se adaptam às novidades melhor do que nós, adultos. A culpa sumiu imediatamente!”

Fernanda Metzler, autônoma, filho de 6 anos.

“Parece que nunca consigo dar conta dos filhos, nem do trabalho. Quando estou no pico do trabalho, não posso dar atenção que gostaria de dar a minha filha. Quando tiro férias para ficar com ela, me sinto mal por estar descansando… E assim fecha o círculo vicioso.”

Silvana Rosso, profissional liberal, filhos de 18 e 3 anos.

“Estava no meio da filmagem da nova propaganda da Elegê e comecei a conversar com a diretora da produtora se não teria vontade de fazer um longa metragem e ela me respondeu…”Não dá, eu também sou mãe”, aí começamos a desabafar….o quanto deixamos de fazer as nossas vontades por ser mãe…e chegamos a conclusão que se você conseguir  manter a depilação e a mão em dia, já se considere uma mulher afortunada!!”

Ana Lúcia Borgiani Tacla, assalariada, 2 filhos.


“Sei que as equilibristas geralmente se sentem culpadas, mas desde que o meu filho nasceu (hoje ele tem 6 anos), convivo bem com a decisão de ser equilibrista e não carrego a tal culpa. Simplesmente acredito no meu modelo de vida, nas minhas escolhas: trabalho porque gosto e me desenvolvo (logo, não vou deixar minha carreira) e meu filho estuda em período integral em uma escola maravilhosa. Não tenho e nunca tive babá, assim, nas demais horas, ele está sempre na companhia do pai ou da mãe, que lhe dão muito carinho, atenção e educação. O resultado é uma criança alegre, interessada, educada, segura e de maneira alguma carente. Vivo cada momento plenamente, seja como profissional ou como mãe!”

Elke Mittelsdorf, assalariada, filho de 6 anos.


Alguns depoimentos do livro “Vida de Equilibrista, dores e delícias da mãe que trabalha”:

Ter culpa é natural, mas precisamos ter nosso próprio momento, para que possamos crescer em todos os aspectos, cada um a seu tempo. O tempo de ser mãe é um crescimento, mas a vida não pára por aí”, reflete uma assalariada paulista com filhos entre 7 e 9 anos.

Apesar da culpa que sentimos, ainda somos e seremos admiradas pelos nossos filhos”, profetiza uma catarinense, assalariada, com filhos entre 10 e 12 anos.

Não se culpem pelas horas fora de casa e sim pelas horas mal administradas dentro de casa. Tenha paciência com seus filhos. Criança que tem a atenção devida não dá trabalho, só prazer”, ensina uma empresária paulista, com filhos de 3 a 6 anos.

Oito passos contra a culpa

[Maggi Krause]

A autora do livro Getting it Right, How Working Mothers Sucessfully Take Up the Challenge of Life, Family, and Career, da editora Touchstone, confessa: é preciso assumir que a culpa é um “custo-embutido” da equação mãe-profissional.Ou seja, o sentimento será sempre aquela sombra que acompanha a vida de quem se divide entre o cuidado com os filhos e o desenvolvimento da carreira. E por isso a melhor receita é não dar tanto espaço para a culpa e não deixar que nos façam sentir culpadas sem o nosso próprio consentimento!

OS OITO PASSOS de Laraine T. Zappert contra a culpa:

Passo 1 – Quando lidar com a culpa, adote estratégias cognitivas.

Ela sugere aplicar pensamento racional para resolver conflitos emocionais. Estratégias cognitivas incluem quebrar um problema em pequenas partes administráveis. Outra coisa, em vez de nos concentrarmos em coisas que não fizemos direito (como se atrasar para pegar a criança na escolinha, por exemplo), é melhor focalizar um jeito de evitar o mesmo erro. O objetivo é diminuir a culpa sem propósito, por coisas que a gente nem sempre pode controlar…

Passo 2 – Concentre-se nos fatos.

Conseguir informação é uma estratégia cognitiva fundamental. Informe-se sobre a creche ou a escola se tem dúvidas sobre o desenvolvimento da criança. Leia estudos como esse da psicóloga Elizabeth Harvey que concluiu que “se a qualidade da relação mãe-filhos em casa é boa, ter uma mãe que trabalha não prejudica as crianças”. Além de um alívio, estudos como esse ajudam a resolver dúvidas e recriminações tão comuns às mães que trabalham.

Passo 3 – Considere uma perspectiva de longo prazo.

A culpa que você tem ao deixar um bebê pequeno e ir trabalhar é muito diferente da que você sente quando a criança já é mais velha e vai à escola. Colocar a carreira em segundo plano quanto os filhos são adolescentes para depois retomá-la pode significar não conseguir mais uma colocação tão boa. Ou seja, focar somente em um momento pode resultar em decisões que você não tomaria se olhasse todo o quadro.

Passo 4 – Estimule a participação: família é esforço em equipe.

Mesmo quem já divide a criação dos filhos com o parceiro, ainda carrega uma responsabilidade psicológica pelo bem-estar das crianças. Isso é uma semente para a culpa. Mães são as primeiras acusadas quando algo não vai bem com as crianças.

Mas não dá para esquecer que essa responsabilidade pelas crianças é compartilhada e é preciso dar mais participação aos pais. Nós nos preocupamos demais e eles, de menos… mas só porque permitimos isso. Dá para maneirar nesse caso:

– assumindo menos propriedade psicológica de coisas que na verdade são responsabilidade compartilhada.

– convidando o parceiro a participar das decisões e execuções de uma série de responsabilidades no cuidado com as crianças.

– Deixar a pessoa responsável totalmente responsável por seus feitos (e não ficar se culpando pelos erros dos outros!)

Passo 5 – Reavalie suas expectativas.

O drive e a determinação que servem muito bem na carreira podem ser nocivos quando carregados para casa. Simples: a mania de perfeição e da mulher gera expectativas de que, apesar de trabalhar o dia todo e ser a responsável pelas crianças e a administração da casa, vai conseguir uma casa sempre bonita e organizada. Caia na real e não se culpe se a casa não estiver maravilhosa.

Passo 6 – Cerque-se de pessoas que compartilham das suas inquietações.

Não existe forma melhor de se livrar da culpa desnecessária do que achar outras pessoas que compartilham das mesmas preocupações. Comece a conversar sobre este e outros assuntos com as mães que trabalham e perceba que a culpa materna é aliviada. Que tal começar já no blog do  www.vidadeequilibrista.com.br?

Passo 7 – Verifique se existe uma causa.

Às vezes a culpa pode ser estimulada por outras pessoas. Uma cunhada que lhe envia um artigo sobre adolescentes com problema de drogas na época em que você recebeu uma promoção no trabalho só pode estar querendo azedar seu sucesso profissional. Considere as ansiedades das outras pessoas e reconheça seus sentimentos. Mas não autorize os outros a julgar as suas escolhas.  

Passo 8 – Enfoque o lado positivo.  

Podemos enfocar o lado negativo da vida de equilibrista, ficando preocupadas e obcecadas sobre se estamos ou não fazendo a coisa certa, ou então, decidir por fazer as melhores escolhas, baseadas na melhor informação que obtivemos. Reconhecer o lado positivo das nossas escolhas já mina uma bela parte da culpa.   

Pai moderno

[Jules Rimet]

É uma impressão. Talvez um dado empírico. Mais como um sentimento, vá lá. Tenho a sensação de que um filho (ou, no meu caso, uma filha) na vida de um homem melhora consideravelmente a qualidade de vida do homem.Claro que não estou falando aqui daqueles homens que “têm filhos”, e sim dos que criam seus filhos, dos que compartilham o crescimento deles, dos que estão presentes e vibram com cada balbucio diferente que a filha descobre.

Creio mesmo que o homem moderno é assim. No meu restrito círculo de amizades, os homens são assim. São quase pães, como diz o vocabulário popular; meio pais, meio mães. São homens que não se preocupam e demonstram a afetividade que têm por seu rebento em qualquer lugar. Homens que se vestem de mães quando vão passear com o filho (a filha, direi daqui por diante).

Outro dia mesmo, chegando atrasado numa reunião e com minha menina de um ano a tiracolo mais bolsa com água, fralda, lencinhos e roupas sobressalentes, uma amiga virou e falou: estávamos comentando que não tinha nenhum homem hoje, na reunião, quando você chegou e eu falei pras outras:e o único homem que veio, veio vestido de mãe.

É esse tipo de homem que eu acho que tem a qualidade de vida extremamente melhorada. Porque a filha causa isso. A presença e a carência da filha fazem o homem se sentir um super-homem. Ainda que nem todo super-homem seja superpai, sei que todo superpai é um super-homem. E não estou aqui puxando a sardinha pra brasa mais perto de mim. Estou querendo apenas compartilhar um sentimento que percebo há algum tempo, em mim e nos amigos superpais. Nem sei direito se essa sensação de superpai se aplicaria a mim. Claro que eu gostaria. Mas ao mesmo tempo há ainda o vazio de saber que há muito a fazer e tão pouco tempo ou que poderia ter feito mais ou melhor.

A mesma sensação eu li num livro que minha esposa comprou e que trata da vida de mães que se dividem entre o trabalho remunerado e o trabalho em casa, com filhos: vida de equilibrista. É o velho sentimento de frustração que ataca tantas mães que não conseguem conciliar os papéis. O livro revela que esse sentimento de frustração é resultado de uma cobrança por perfeição e, como a perfeição é inatingível, sobra angústia.

O que eu estou descobrindo é que essa angústia, essa mesma frustração, atinge também os pais. Não sei se isso se relaciona ao fato de que sou pai de uma menina e (dizem todos e eu comprovo) menina é muito ligada ao pai, mas o fato é que eu também padeço dessa frustração.

O engraçado é que durante toda a minha vida eu ouvi a história da ligação da mãe com os filhos, que ser mãe era padecer no paraíso, que mãe só tem uma, que mãe é o maior dos presentes, que é a mãe quem mais se liga aos filhos, etc, etc, e, por não ter um pai presente, achava que era isso mesmo. Não que eu esteja querendo diminuir o papel da mãe, mas um pai, pelo menos da forma como eu vivencio, traz as mesmas dores e delícias que sempre foram atribuídos às mães.

O mais recente tema do site será a culpa. E como pai se sente culpado! Mas é uma culpa saudável, ligada à vontade de estar mais presente na vida da filha, de pensar sobre o que ela aprendeu  durante o tempo em que o pai está no trabalho, de ter saudades de suas risadas e seu carinho.

Acho que vou viver mais meio século por causa de minha filha.

Jules Rimet é professor de história do sistema ANGLO de ensino, casado com Rachel, psicopedagoga, e pai de Ana Carolina. Escreve no blog http://imagina.blogspot.com

Um basta para a culpa

[Cecília Troiano]

De um jeito ou de outro, nós mulheres sempre nos sentimos culpadas. Temos culpa por trabalhar e deixar os filhos. Temos culpa se não trabalhamos porque nos sentimos inúteis e ainda deixamos o companheiro, quando o temos, como único provedor da casa. Temos culpa de voltar mais cedo para casa na véspera de uma apresentação importante na empresa. Temos culpa se damos aquela esticada para terminar um job importantíssimo e chegamos tarde em casa. Temos culpa se não fazemos ginástica e o nosso corpo fica devendo no teste da praia. Temos culpa se malhamos quando deveríamos estar usando essas horas para estar com o marido, curtindo a vida a dois.

É culpa demais!!! Precisamos dar um basta nessa culpa antes que ela nos engula. Será que conseguimos? Esse sentimento onipresente da culpa se espalha como água, é difícil de conter. Na pesquisa que fiz para ilustrar meu livro, “Vida de Equilibrista: dores e delícias da mãe que trabalha”, perguntei para as mães qual era a intensidade da culpa de cada uma das 850 brasileiras que entrevistei. Construí um “termômetro da culpa” usando uma escala de 0 a 10. E qual foi a média da culpa das mães que trabalham? Sete! Não chega a ser uma culpa insuportável, mas é bem marcante. E mais do que isso, incomoda demais a todas nós.

O problema da culpa é como se lida com ela. Querer compensar o tempo perdido, além de não ser possível, gera uma frustração generalizada, em nós e entre os que nos cercam.

Não sou muito boa para dar conselhos, mas para lidar com a culpa, especialmente das mães que trabalham, gosto de me lembrar da frase do pediatra dos meus filhos: “A falta de mãe é perigosa e o excesso intoxica”. Tão importante quanto estar com nossos filhos é também não estar com eles o tempo todo. Tanto a valorização do tempo passado junto quanto o querer um ao outro se intensificam. Você sente o desejo de estar com o filho – porque não está naquele momento – e ele vai continuar querendo que você volte! Essa constatação, aparentemente simples, já pode ser suficiente para deixar muitas mães aliviadas.

E para terminar por cima, tenho uma boa notícia. Se no termômetro da culpa o nível atingiu a casa dos 7, construí também um “termômetro da felicidade”. Queria saber como as equilibristas enxergavam suas vidas e quão satisfeitas estavam com elas. Acreditem, a nota da felicidade é 9. A felicidade das mães que trabalham fora é maior do que a culpa! Exatamente por isso, creio eu, as mães conseguem achar energia e determinação para seguir adiante. Se a culpa fosse superior à felicidade, dificilmente as mães conseguiriam levar em frente seus projetos profissionais. Ufa, ainda bem!

Um basta para a culpa e vamos em frente! Boa sorte!

Livre, leve e bem feliz!

[Ana Dini]

O número de mães que se sentem culpadas cresce a cada dia. Como o meu trabalho se relaciona com a formação e o desenvolvimento de crianças, escuto e dou atenção especial à culpa das mulheres no que se refere aos seus filhos, mas sei que a nossa culpa não começa nem termina aí.

Essa não é apenas uma tendência do mundo pós-moderno em que vivemos. Nossa culpa não é de hoje, temos carregado a maldita por séculos, talvez tenhamos sido geradas com ela, ou, quem sabe, conquistado-a quando oferecemos o Adão o tal do fruto proibido. Fomos vítimas de uma história mal contada, a “queda” da humanidade não se deu por nossa causa. Acreditar nisso é ver só um lado de uma longa história.

E é aí que reside todo o perigo, quando nos culpamos, passamos a ver tudo a nossa volta com uma perspectiva única: a nossa.

A criança desde muito cedo precisa se sentir amada, querida, segura. Ela não tem mecanismos para se sentir assim sozinha, é preciso que nós a autorizemos. Essa autorização valida seu desenvolvimento emocional, social, físico e também intelectual.  A mãe, em geral, representa para a criança a ligação com o mundo. A criança estabelece por meio dessa relação o contato com o mundo exterior e o exercício para o contato com seu mundo interior.

À medida que nos sentimos culpadas e conseqüentemente inseguras por não estarmos fazendo tudo da forma como gostaríamos – às vezes até porque nem sempre sabemos o que exatamente queremos -, passamos aos nossos filhos a mensagem de que as coisas não vão bem, e pra eles é impossível ficar bem.

Para ilustrar o que estou dizendo vai aí uma história. A mãe  de um menino de quatro anos, acostumada a trabalhar meio período, de repente, se viu em uma situação que a “obrigava” a trabalhar em período integral. Completamente insatisfeita com a situação, a mãe tinha certeza de que seu filho não poderia ficar bem a tarde toda em companhia da empregada, ou com quem quer que fosse. Não demorou muito para o menino, autorizado (ainda que de modo inconsciente) pela mãe, ter crises de bronquite, coisa que nunca havia acontecido antes. Foram noites viradas em pronto socorro, sofrimento por parte dos pais e da criança.

Todos os remédios, tratamentos homeopáticos e alopáticos foram em vão; a criança não melhorava e a mãe tinha certeza: “Ele está assim porque eu estou ausente, a vida dele mudou completamente. Coitadinho!!!” (e  que perigo para auto-estima ser visto como coitado!).

 A situação era grave e, por isso, fácil de ser detectada. Quero alertá-las: nem sempre é assim, às vezes a culpa aparece sorrateiramente e vai nos tomando pouco a pouco. Quando vemos, nossos filhos também já estão contaminados e nem sabemos como tudo começou.

Foi necessário um grande esforço dessa mãe para conseguir separar o seu descontentamento com a situação, foi difícil para ela compreender o que o filho pudesse realmente estar sentindo com a sua ausência.Ela precisou pensar e planejar alternativas possíveis para um menino de quatro anos que talvez nem mais precisasse da sua companhia diária para brincar (e aqui foi necessário que ela aceitasse o seu crescimento). A situação exigiu que essa mãe deixasse de se sentir “obrigada” a trabalhar o dia todo e sim, pensar em alternativas que lhe possibilitassem uma mudança na sua vida que lhe trouxessem satisfação, mesmo vivenciando uma situação adversa. Parece impossível?  Mas não é, eu garanto, porque essa história é minha.

Hoje me sinto livre, leve e feliz, superei a minha culpa, aprendi a devolver à Eva o que é de Eva… pelo menos, em relação ao meu filho.

Quando sentir uma pontinha de culpa, pare e pense em quais as alternativas que você tem para não se sentir assim e busque colocá-las em prática. Nada é melhor do que viver sem culpa, apenas com responsabilidade. Esse sentimento, ao contrário da culpa, não nos paralisa, ele nos transforma – e aos nossos filhos – em seres humanos melhores.

Ana Dini é educadora, formada pela USP-SP, especialista em Educação Infantil. Há 18 anos atende crianças e pais em escolas de grande porte. Ministra o workshop “Como falar para o seu filho ouvir”. Contato: anapdini@hotmail.com

Mea culpa, mea maxima culpa

[Cristiane Campos]

Ando pensando bastante a respeito desta famosa frase em latim, porque tinha um péssimo hábito de viver me culpando por tudo, acredito que me foi incutida a idéia de ser culpada pelas coisas que não davam certo.

Um exemplo: você tem um filho médico, o pai orgulhoso diz “meu” filho; ao contrário, se este filho é um desajustado, então ele é o “seu” filho, e não nosso filho como seria o justo e correto. E a pior parte é que, na maioria das vezes, acabava aceitando como minha culpa os erros das pessoas que mais amava. Tento ser muito objetiva nesta questão, até porque gastei um bom dinheiro com terapeutas para que eles me livrassem da dita “culpa”.

Quando pensava em mim, me sentia culpada, se gastava dinheiro comigo, mais culpada ainda, um filho doente era uma sentença pesada e assim por diante, era como se todos fossem mais importantes do que eu mesma. Até que um belo dia, acordo e descubro que não tive culpa de ter sido trocada por uma garota de vinte anos e que a culpa dos quilos a mais que ganhei ao longo do tempo depois de ter parido quatro filhos não eram minhas e nem de ninguém, eram apenas fatos, e os fatos dizem o seguinte: sou inocente, até porque não existe julgamento nesta vida presente que me condene por minha devoção, pelo excesso de amor ou resignação diante dos fatos. Lembre-se são apenas fatos.

Fato é que para aliviar a dor daqueles que amava, assumia as suas responsabilidades, os seus erros, e os fazia acreditar que era culpada, apenas para que eles pudessem ter mais segurança e tranqüilidade, que beleza não? E com isso fui acumulando resíduos negativos e por vezes me tornei amarga, daí sim tive culpa quando a garota de vinte anos surgiu sorridente e cheirosa destruindo meus sonhos, sem sentir culpa alguma.

Tudo passado, tudo passou – até eu fui passada para trás -, e acredito que graças a estas sentenças mal decretadas é que hoje não sinto culpa de absolutamente nada, deito e durmo o sono dos justos, porque afinal, azar da menina de vinte que vai ter que amargar um coroa de quase sessenta, chato, rabugento e pão duro. Sinto-me divinamente recompensada por tantas condenações, já paguei as minhas penas, todas elas, tim tim por tim tim e isso não tem preço.

Agora é preciso olhar o horizonte, que até então não tive coragem de encarar, agora sim é que o bicho pega, pois se não sinto mais culpas, não tenho mais desculpas, e preciso prosseguir sem medo de continuar cometendo erros, e definitivamente chega de dar dinheiro a terapeutas, vou guardar para uma bela plástica que tenho prometido a mim mesma desde que saí da prisão.

Entro no ateliê todas as manhãs, leve como uma pena. Pego meus velhos pincéis e meu avental sujo e prometo a mim mesma que farei alguma coisa espetacular apenas para os meus olhos se deliciarem, porque eu mereço.

Mereço ter alegrias, apesar dos problemas que os meus sofrem, mereço poder gastar o meu dinheiro comigo, mesmo quando sei que algum deles esta precisando de alguma coisa, mereço sim, porque paguei adiantado por erros que não cometi, e agora livre de qualquer culpa, vou vivendo e me satisfazendo com as pequenas coisas, claro que ainda ontem quando fui ao banco, passei em frente a duas lojas, uma de lingerie e uma de criança… Rsrs, adivinhem só o que eu comprei? Uma sandália linda pro meu netinho que estava precisando.

Não tenho mesmo jeito, eu os amo demais.

Cristiane Campos é artista plástica, tem quatro filhos, mora em Maringá e escreve em http://orebate-cristianecampos.blogspot.com/

A tela Estante I (imagem acima) é de autoria da artista.