Livre, leve e bem feliz!

[Ana Dini]

O número de mães que se sentem culpadas cresce a cada dia. Como o meu trabalho se relaciona com a formação e o desenvolvimento de crianças, escuto e dou atenção especial à culpa das mulheres no que se refere aos seus filhos, mas sei que a nossa culpa não começa nem termina aí.

Essa não é apenas uma tendência do mundo pós-moderno em que vivemos. Nossa culpa não é de hoje, temos carregado a maldita por séculos, talvez tenhamos sido geradas com ela, ou, quem sabe, conquistado-a quando oferecemos o Adão o tal do fruto proibido. Fomos vítimas de uma história mal contada, a “queda” da humanidade não se deu por nossa causa. Acreditar nisso é ver só um lado de uma longa história.

E é aí que reside todo o perigo, quando nos culpamos, passamos a ver tudo a nossa volta com uma perspectiva única: a nossa.

A criança desde muito cedo precisa se sentir amada, querida, segura. Ela não tem mecanismos para se sentir assim sozinha, é preciso que nós a autorizemos. Essa autorização valida seu desenvolvimento emocional, social, físico e também intelectual.  A mãe, em geral, representa para a criança a ligação com o mundo. A criança estabelece por meio dessa relação o contato com o mundo exterior e o exercício para o contato com seu mundo interior.

À medida que nos sentimos culpadas e conseqüentemente inseguras por não estarmos fazendo tudo da forma como gostaríamos – às vezes até porque nem sempre sabemos o que exatamente queremos -, passamos aos nossos filhos a mensagem de que as coisas não vão bem, e pra eles é impossível ficar bem.

Para ilustrar o que estou dizendo vai aí uma história. A mãe  de um menino de quatro anos, acostumada a trabalhar meio período, de repente, se viu em uma situação que a “obrigava” a trabalhar em período integral. Completamente insatisfeita com a situação, a mãe tinha certeza de que seu filho não poderia ficar bem a tarde toda em companhia da empregada, ou com quem quer que fosse. Não demorou muito para o menino, autorizado (ainda que de modo inconsciente) pela mãe, ter crises de bronquite, coisa que nunca havia acontecido antes. Foram noites viradas em pronto socorro, sofrimento por parte dos pais e da criança.

Todos os remédios, tratamentos homeopáticos e alopáticos foram em vão; a criança não melhorava e a mãe tinha certeza: “Ele está assim porque eu estou ausente, a vida dele mudou completamente. Coitadinho!!!” (e  que perigo para auto-estima ser visto como coitado!).

 A situação era grave e, por isso, fácil de ser detectada. Quero alertá-las: nem sempre é assim, às vezes a culpa aparece sorrateiramente e vai nos tomando pouco a pouco. Quando vemos, nossos filhos também já estão contaminados e nem sabemos como tudo começou.

Foi necessário um grande esforço dessa mãe para conseguir separar o seu descontentamento com a situação, foi difícil para ela compreender o que o filho pudesse realmente estar sentindo com a sua ausência.Ela precisou pensar e planejar alternativas possíveis para um menino de quatro anos que talvez nem mais precisasse da sua companhia diária para brincar (e aqui foi necessário que ela aceitasse o seu crescimento). A situação exigiu que essa mãe deixasse de se sentir “obrigada” a trabalhar o dia todo e sim, pensar em alternativas que lhe possibilitassem uma mudança na sua vida que lhe trouxessem satisfação, mesmo vivenciando uma situação adversa. Parece impossível?  Mas não é, eu garanto, porque essa história é minha.

Hoje me sinto livre, leve e feliz, superei a minha culpa, aprendi a devolver à Eva o que é de Eva… pelo menos, em relação ao meu filho.

Quando sentir uma pontinha de culpa, pare e pense em quais as alternativas que você tem para não se sentir assim e busque colocá-las em prática. Nada é melhor do que viver sem culpa, apenas com responsabilidade. Esse sentimento, ao contrário da culpa, não nos paralisa, ele nos transforma – e aos nossos filhos – em seres humanos melhores.

Ana Dini é educadora, formada pela USP-SP, especialista em Educação Infantil. Há 18 anos atende crianças e pais em escolas de grande porte. Ministra o workshop “Como falar para o seu filho ouvir”. Contato: anapdini@hotmail.com

Mea culpa, mea maxima culpa

[Cristiane Campos]

Ando pensando bastante a respeito desta famosa frase em latim, porque tinha um péssimo hábito de viver me culpando por tudo, acredito que me foi incutida a idéia de ser culpada pelas coisas que não davam certo.

Um exemplo: você tem um filho médico, o pai orgulhoso diz “meu” filho; ao contrário, se este filho é um desajustado, então ele é o “seu” filho, e não nosso filho como seria o justo e correto. E a pior parte é que, na maioria das vezes, acabava aceitando como minha culpa os erros das pessoas que mais amava. Tento ser muito objetiva nesta questão, até porque gastei um bom dinheiro com terapeutas para que eles me livrassem da dita “culpa”.

Quando pensava em mim, me sentia culpada, se gastava dinheiro comigo, mais culpada ainda, um filho doente era uma sentença pesada e assim por diante, era como se todos fossem mais importantes do que eu mesma. Até que um belo dia, acordo e descubro que não tive culpa de ter sido trocada por uma garota de vinte anos e que a culpa dos quilos a mais que ganhei ao longo do tempo depois de ter parido quatro filhos não eram minhas e nem de ninguém, eram apenas fatos, e os fatos dizem o seguinte: sou inocente, até porque não existe julgamento nesta vida presente que me condene por minha devoção, pelo excesso de amor ou resignação diante dos fatos. Lembre-se são apenas fatos.

Fato é que para aliviar a dor daqueles que amava, assumia as suas responsabilidades, os seus erros, e os fazia acreditar que era culpada, apenas para que eles pudessem ter mais segurança e tranqüilidade, que beleza não? E com isso fui acumulando resíduos negativos e por vezes me tornei amarga, daí sim tive culpa quando a garota de vinte anos surgiu sorridente e cheirosa destruindo meus sonhos, sem sentir culpa alguma.

Tudo passado, tudo passou – até eu fui passada para trás -, e acredito que graças a estas sentenças mal decretadas é que hoje não sinto culpa de absolutamente nada, deito e durmo o sono dos justos, porque afinal, azar da menina de vinte que vai ter que amargar um coroa de quase sessenta, chato, rabugento e pão duro. Sinto-me divinamente recompensada por tantas condenações, já paguei as minhas penas, todas elas, tim tim por tim tim e isso não tem preço.

Agora é preciso olhar o horizonte, que até então não tive coragem de encarar, agora sim é que o bicho pega, pois se não sinto mais culpas, não tenho mais desculpas, e preciso prosseguir sem medo de continuar cometendo erros, e definitivamente chega de dar dinheiro a terapeutas, vou guardar para uma bela plástica que tenho prometido a mim mesma desde que saí da prisão.

Entro no ateliê todas as manhãs, leve como uma pena. Pego meus velhos pincéis e meu avental sujo e prometo a mim mesma que farei alguma coisa espetacular apenas para os meus olhos se deliciarem, porque eu mereço.

Mereço ter alegrias, apesar dos problemas que os meus sofrem, mereço poder gastar o meu dinheiro comigo, mesmo quando sei que algum deles esta precisando de alguma coisa, mereço sim, porque paguei adiantado por erros que não cometi, e agora livre de qualquer culpa, vou vivendo e me satisfazendo com as pequenas coisas, claro que ainda ontem quando fui ao banco, passei em frente a duas lojas, uma de lingerie e uma de criança… Rsrs, adivinhem só o que eu comprei? Uma sandália linda pro meu netinho que estava precisando.

Não tenho mesmo jeito, eu os amo demais.

Cristiane Campos é artista plástica, tem quatro filhos, mora em Maringá e escreve em http://orebate-cristianecampos.blogspot.com/

A tela Estante I (imagem acima) é de autoria da artista.