Mães no controle

[Ana Dini]

É comum as mães de primeira viagem carregarem o germe do perfeccionismo. Preocupamo-nos com os mínimos detalhes, desde antes de o bebê chegar, e fazemos deles a razão de nossa existência, ao menos nos primeiros meses de sua vida. Após algum tempo, com a volta ao trabalho, além dos muros do berço, vamos deixando de lado o controle excessivo de tudo que diz respeito à criança. Passamos a delegar tarefas e a confiar que outras pessoas possam fazê-las por nós e por nossos filhos.

Mas nem todas nós conseguimos abandonar as manias perfeccionistas. Algumas mães, mesmo de longe, querem dar conta de que as mamadeiras sejam esterilizadas à sua maneira, querem a garantia de que a chupeta tenha sido bem lavada depois de ir ao chão (para algumas só lavar não é o suficiente), gostam de conferir pessoalmente se os brinquedos que vão à boca da criança estão em estado de higiene perfeita… Conheço uma mãe que ouviu do pediatra: “Qualquer dia você vai esterilizar a sua filha! Ela está sem anticorpos!”

Exageros à parte. Não! O que não está à parte, na vida dessas mulheres, é o exagero. Nada lhes foge ou escapa. Essas mães, em geral, têm mais compromisso com o êxito do que qualquer outra e se sobrecarregam por acreditarem que ninguém pode fazer melhor do que elas. Para elas, verdadeiramente, delegar pode ser o início do caos.

E, por isso, não só estão preocupadas em equilibrar seus pratinhos sem dividi-los com ninguém, como também se preocupam em cuidar pessoalmente de cada um deles, responsabilizando-se pela sua limpeza e cuidados extras, como um polimento de vez em quando. Ao fazerem e resolverem tudo do seu melhor jeito poupam esforços dos filhos, mas, principalmente, de si mesmas, pois acreditam que assim otimizam o tempo. Afinal, dividir com outras pessoas pode significar um esforço maior e, quem sabe, ter que refazer. Só elas conhecem a perfeição e sabem como atingi-la.

A vida dessas mulheres passa a ser uma seqüência de rituais, é a forma encontrada para darem conta de tudo. Têm hora para levantar-se, jeito certo de se arrumar, a mesa do café da manhã precisa estar posta sempre da mesma maneira, o cardápio semanal planejado, as compras a fazer listadas, as mochilas das crianças meticulosamente organizadas, circulares escolares assinadas e devolvidas no dia seguinte… Sem dúvida não lhes falta organização, indício de bom aproveitamento do tempo, mas onde entram os outros? Essas mulheres estruturam uma casa que compartilham com no mínimo mais uma pessoa, o filho. Onde ele entra? Como é reconhecido o seu espaço na vida de alguém que impõe tantos limites?

Ana Dini é educadora, formada pela USP-SP, especialista em Educação Infantil. Há 18 anos atende crianças e pais em escolas de grande porte. Ministra o workshop “Como falar para o seu filho ouvir”. Contato: anapdini@hotmail.com