Qual o sonho da equilibrista?

[Maria Tereza Maldonado]

Para a consultora e psicoterapeuta Maria Tereza Maldonado, as equilibristas sonham com a redução da sobrecarga de trabalho, que vivenciam em várias frentes.

Para isso, não apenas a divisão igualitária de tarefas com os companheiros e filhos se faz necessária, mas uma reengenharia do tempo e uma transformação profunda no mundo do trabalho e das convenções sociais.

O que você observa na sua vivência com as mães que trabalham?
Percebo que quando a mulher é mãe e profissional, o equilíbrio é uma meta difícil de atingir. Recentemente fiz palestras para empresas tão diversas quanto o Bradesco, a Michelin e uma refinaria em Cubatão, para públicos bem diferentes entre si, mas o conflito principal de todas as mulheres parece ser a administração do tempo e como mudar a postura do homem, que ainda é apenas participante na esfera doméstica. Afinal, se as mulheres de hoje são provedoras e ‘cuidadoras’, os homens também deveriam ser.

Qual seria então o maior sonho da mulher da atualidade?
Elas sonham com uma divisão mais justa das tarefas para diminuir sua sobrecarga. Ainda é muito forte a postura de que as coisas em casa e na educação dos filhos ficam a cargo das mulheres. De uns 10 anos pra cá, a psicologia já corrigiu uma distorção e enfocou a relação pai e filho na construção do afeto de crianças e adolescentes. Mas é preciso alterar o papel de participante do pai para uma atitude de envolvimento e partilha em todas as esferas da vida familiar.

A postura do parceiro deve mudar?
Não só isso. Hoje vivenciamos a mudança de posição da mulher dentro da família. É preciso que os dois (homem e mulher) reformulem sua postura na criação de filhos e filhas. As tarefas domésticas não devem ser mais das mulheres e sim das pessoas, lembrando que geralmente os meninos são menos cobrados no cumprimento de rotinas de arrumação e limpeza da casa. Outra grande reestruturação precisa acontecer nas empresas. Apóio a Rosiska Darcy de Oliveira, que defende uma reengenharia do tempo em benefício dessa rotina feminina. Ela diz que as empresas deveriam flexibilizar horários e determinar uma programação por tarefa e não por carga horária. A reforma da relação com o trabalho e a vida nas cidades ainda é uma transformação profunda que está por vir. Não é um processo fácil, pois vivemos séculos de condicionamento. As mulheres travam batalhas individuais e coletivas. Não dá para esquecer que fazermos parte de uma trajetória composta de mulheres que vieram antes de nós e outras que ainda virão.

Como fazer para não ter expectativas demais se este sonho de partilha com o parceiro e de flexibilização de horários na empresa não se realizar?
Acho que a mulher precisa, acima de tudo, rever seus padrões. Existe uma super exigência em relação ao desempenho de todos os papéis. No momento em que consegue uma libertação dessas exigências ela já experimenta um alívio. Depois, é uma questão de colocar suas prioridades, avaliar o realmente importa. Uma problemática atual é a pressão que a mulher se coloca em relação à imagem do corpo perfeito. Sacrifícios absurdos são cometidos em função disso. Outra coisa que se deve levar em consideração é que os filhos são um aspecto importante da vida da mulher, mas não podem ser o centro de tudo. Girar a vida apenas em torno dos filhos não dá bons resultados, são maiores as chances de eles crescerem tirânicos, mal acostumados, sem valorizar o dar e o receber.

Maria Tereza Maldonado é mestre em Psicologia Clínica pela PUC-Rio e membro da American Family Therapy Academy. De sua riqueza de experiências profissionais (foi professora universitária, trabalhou em hospitais e em projetos sociais, além de ser consultora familiar), desenvolveu temas para as palestras que ministra por todo o Brasil com objetivo de melhorar a qualidade de vida na família e no trabalho. Publicou 28 livros e deve lançar em breve mais um, intitulado O bom conflito.

www.mtmaldonado.com.br

Sobre os temas mencionados na entrevista, Maria Tereza recomenda 2 de seus livros: HISTÓRIAS DA VIDA INTEIRA, que trata de pequenas mudanças no seu cotidiano para viver melhor e PALAVRA DE MULHER – HISTÓRIAS DE AMOR E DE SEXO, sobre o universo feminino, escrito em parceria com sua filha, a médica ginecologista Mariana. Ambos da editora Integrare.

Qual o sonho da mãe equilibrista?

[Maria Irene Maluf]

Conselheira vitalícia da Associação Brasileira de Psicopedagogia, Maria Irene Maluf é pedagoga e especialista em psicopedagogia. Vê passar por seu consultório muitas mães equilibristas e já passou por essa vivência. Atualmente suas filhas têm 30 e 29 anos.

Qual sua opinião sobre a mulher que trabalha, dá conta de casa, filhos, relacionamento?

Acho que os esquemas que as mulheres montaram fazem parte da estrutura de vida atual. A realidade nos empurrou para o mercado de trabalho e não havia suporte para isso. Assumimos os lugares de direito por sermos capazes e por tornar isso possível. As dificuldades foram sentidas na prática. A mulher saiu correndo em busca de uma rede de apoios e surgiram alternativas mais profissionais, como os berçários em período integral. Hoje percebo que muitas famílias estão optando por deixar as crianças com uma empregada de confiança em vez de contratar uma babá desconhecida. Outra escolha viável é a escola de período integral, que já existe faz tempo na Europa. As escolas hoje dão um suporte amplo, que inclui formação e informação, ensinam a criança a organizar seus estudos, a ter autonomia. Muitos têm dúvida quanto à escola de período integral, mas, além de ser um local socialmente destinado para a criança, é a garantia de profissionais de excelente formação e boa índole.

Com o que se preocupam as mães equilibristas?

Creio que uma das grandes ansiedades das mães é com a segurança dos filhos, tanto a física, o que inclui o medo de seqüestro, como a emocional. Elas querem sossego, mas ele dificilmente é alcançado. Ela ficará menos aflita se tiver um porto seguro para deixar o filho (escola, avó, pessoa de confiança). Por conta das novas famílias, com a enorme quantidade de pais separados, as crianças se tornam muito vulneráveis. Os filhos passam os finais de semana com outros casais e meio-irmãos e acontece todo o tipo de incidente, como um paciente meu que caiu de um brinquedo e quebrou as costelas em uma festa infantil. Ele estava acompanhado apenas de um meio-irmão. As famílias se ampliaram de tal maneira que é mais difícil controlar quais as influências que as crianças sofrem.

Essa nova realidade atrapalha?

A reestruturação dessa nova família é muito recente. Ainda não estamos dando conta disso. A mãe, com certeza, fica insegura da posição dos filhos nestas famílias. Teme perder as rédeas e também teme pelo desenvolvimento emocional e afetivo das crianças.

Mas você vê a mãe muito culpada?

Acho que passamos dessa fase, já mudou um pouco. A mulher sabe que não deve passar muito tempo com a criança e sim umbom tempo, um tempo exclusivo e dedicado. Ela não abre mão da carreira e conta com a ajuda da creche e da escola, do transporte escolar, das empregadas, de seus apoios, enfim. Diz “vou dar um jeito” e segue em frente. Se precisar, muda seus planos de trabalho, se adapta, mas segue em frente.

Maria Irene Maluf é pedagoga, especialista em psicopedagogia e conselheira vitalícia da Associação Brasileira de Psicopedagogia e dá palestras nas áreas de pedagogia e educação. Contato:irenemaluf@uol.com.br, tel. (11) 3258-5715.