Exigências demais

[Cecília Troiano]

Escrava da amplitude e da diversidade dos ideais, dos quais precisa ao menos conseguir se aproximar, a mulher-elástico, vitimada pelo excesso e pelo cansaço diante de suas incríveis atribuições, vive culpada diante da constatação da impossibilidade de ser tudo o que se exige dela.

Maria Helena Fernandes, psicanalista (2004-2005, Revista Mente & Cérebro)

Temos tarefas demais para cumprir ou exigências em excesso, portanto tudo fica mais complicado, difícil e demora mais? Esse é o impasse dos dias de hoje: afinal, 65% das mães pesquisadas concordam com a seguinte frase “Sinto-me cansada para conseguir equilibrar todos os meus papéis.” A psicóloga Magdalena Ramos chama o tipo perfeccionista de mulher-maravilha. Porque ela se exige ser boa em todas as coisas que faz, e é praticamente impossível que consiga. “Mas carrega essa angústia permanente porque quer ser boa mãe, boa dona-de-casa, boa esposa, boa amante, muito competente no trabalho, tem que estudar e se atualizar. E ainda precisa ser magra, fazer ginástica e cuidar da alimentação”, enumera Magdalena. Só sendo mulher-maravilha mesmo para enfrentar tantas exigências. “Essa síndrome produz uma mulher que vive com a conta no vermelho, está sempre devendo. No trabalho, pensa que não está com o filho. Quando fica com o filho, pensa que deveria ter ido a uma reunião ou ao supermercado. Essa mulher não consegue estar em paz em nenhum momento do dia.”

A questão não é “O que estou com vontade de fazer agora?”, mas sim “O que eu faço primeiro?” Situações extremas, como o filho doente, abalam ainda mais esse frágil equilíbrio. Afinal, como comenta Sylvia Mello Silva Baptista, (no livro Maternidade & Profissão, oportunidades de desenvolvimento), apesar de voltada para fora e dedicar-se ao lado profissional, é esperado dela sucesso no lar, ou seja, é obrigatório este sucesso, como pré-requisito para sua saída ao mercado de trabalho. Caso isso não seja cumprido, se misturam os dois campos e a mulher é taxada de incapaz. Esse excesso de cobrança da sociedade leva a exemplos extremos, como a expressão mãe-corvo, cunhada, quem diria, na Alemanha dos anos 2000. Mãe corvo é aquela que delega o cuidado e a educação dos filhos aos outros e sai para trabalhar. Em outras palavras, é mal vista pela sociedade. Como no país as licenças-maternidade são extensas e os benefícios sociais generosos, as pessoas não conseguem entender que a opção filhos não exclui a opção carreira. Arrisco até o palpite de que a baixa taxa de natalidade alemã também sofra influência desse preconceito.

O perfeccionismo, de todo modo, é um mal do qual padecem européias, americanas e até mesmo brasileiras. Em geral, serve apenas como motivação para o sofrimento, assim como a culpa. “Em meu divã, percebo que as mulheres estão perdidas”, diz a terapeuta de família Simone Savaya. “Elas querem ter um trabalho maravilhoso, ser boas profissionais, bonitas e boas amantes. Mas também querem ter filhos, organizar a família, manter a casa em ordem. Quando percebem que é impossível ter tudo, entram em crise.”*E não é porque são cobradas pelo marido, pelos filhos, pelos pais, mas, principalmente porque elas mesmas se exigem demais. Existe um modelo interiorizado que nasceu da nossa cultura, da educação que recebemos, da opinião das amigas e até da influência poderosa da mídia – quem não se lembra daquele ideal do comercial de margarina ou da mãe famosa do showbiz, linda e sorridente, passeando com os filhos? Para Marina Massi, autora de “Vida de Mulheres, cotidiano e imaginário”, o modelo da supermãe e da supermulher aparova e persegue as mulheres, tornando-as angustiadas em relação ao papel a ser cumprido. Apesar de gratificante, a maternidade rouba tempo e disposição, ou seja, pode ser entendida como limitadora (no sentido de que diminui a dedicação ao marido, à casa, ao trabalho). Para driblar a limitação e conseguir dar conta de tudo, a mulher multiplica seus afazeres e subtrai do lazer e dos cuidados consigo mesma. Não raro essa ginástica de horas e minutos resulta em estresse cotidiano e em uma estafa no final do ano!

Um artigo da revista americana Pink Magazine (ago/set 2006, The good Mother, by Paige Parvin) analisa: uma executiva bem-sucedida sabe que, embora adore a maternidade, às vezes terá que colocar a carreira na frente dos filhos. Para alcançar postos altos na cultura corporativa, não dá para esperar o filho na porta de casa quando chega o ônibus da escola. Você pode ser vice-presidente ou mãe do ano, mas não ambos! Isso me soa como pura verdade, não dá para tirar dez em tudo… é preciso se contentar com menos!

*declaração da reportagem Só as mães são sinceras, da revista Época.

“Busque ser flexível, pois você será mais feliz. Nunca mais a sua vida será controladinha.”

Assalariada, SP, filhos de 0 a 2 anos.