Mulheres e felicidade

Lembro-me de ter visto, em arquivos antigos na Editora Abril, um lindo anúncio dos “Lençóis Santista”, veiculado na primeira edição de Claudia, em outubro de 1961. Divido essa pérola aqui com vocês:

 

Quando vi essa propaganda, chamou-me muito a atenção a simplicidade da cena e da mensagem: “ela é uma dona-de-casa feliz”. Era isso mesmo, essa mulher, fazendo a cama e brincando de roda com a filha, estava em estado pleno de felicidade. Não era uma propaganda enganosa.

Agora giremos o ponteiro e voltemos novamente para o início de 2011. Será que somos felizes? Será que conseguiríamos ser felizes com “tão pouco”, como essa mãe da propaganda? Tenho minhas dúvidas. De lá para cá, 50 anos se passaram e nesse período ocorreu uma enxurrada de mudanças, tanto na vida das mulheres como na sociedade como um todo. Somos bombardeadas hoje com cobranças que vem de todos os lados, sabiamente expressas nessa fala da psicóloga  Magdalena Ramos:

A mulher de hoje carrega essa angústia permanente porque quer ser boa mãe, boa dona de casa, boa esposa, boa amante, muito competente no trabalho, tem que estudar e se atualizar. E ainda precisa ser magra, fazer ginástica e cuidar da alimentação”.

Ufa, quanta coisa, haja equilibrismo! Culpas, cobranças, falta de tempo, patrulhamentos sociais, “pratinhos” que têm que ser equilibrados, será que as mulheres estão conseguindo ser felizes? Certamente estamos bem mais ocupadas e mais preparadas para lidar com a vida multi-tarefas, mas será que felizes?

Por outro lado, essa nova realidade das mulheres é uma viagem sem passagem de volta. Não queremos mais ser como a mãe da propaganda dos Lençóis Santista, tampouco creio que encontramos nosso ponto de equilíbrio perfeito. Acredito que vivemos um momento de transição: sabemos o que não queremos mais, mas ainda estamos buscando saber o que de fato queremos para nossas vidas. Só arrumar a cama não nos satisfaz mais. Também não queremos abrir mão da carreira e nem da família. Cotidianamente, umas mais outras menos, pensamos sobre o que queremos de nossas vidas. Será que caso ou compro uma bicicleta, será que retorno ao trabalho ou adio um pouco mais esse plano, será que assumo que gosto de ser dona de casa ou sigo trabalhando fora? Muitos “serás” e poucas certezas. De mãe como a dos Lencóis Santista para uma presidente mundial de uma multinacional, hoje, tudo é possível para as mulheres. As possibilidades são imensas e as dúvidas seguem a mesma proporção.

Mas acho que é assim mesmo, fases de transição provocam instabilidade e dúvidas. Isso não precisa significar infelicidade, muito pelo contrário. Somos felizes porque temos oportunidades, horizontes pela frente. Difícil é o trabalho dos publicitários que hoje precisam nos retratar em múltiplos papéis e nem sabem se nos apresentam em casa, no escritório, na porta da escola ou numa viagem de negócios!

Cecília R. T.

 

 

Muita expectativa e nenhum modelo

[Adriano Echeverria]

O empresário Adriano, casado com Karla, grávida de 8 meses, fala de mudança e amadurecimento e de como pretende traçar seu novo papel: o de pai amoroso e presente.

“Sempre gostei muito de crianças, acho que o ambiente fica leve e divertido. E, como minha mãe me criou sozinha, não tive um modelo de pai – ela era pai e mãe, pois me levava até para o estádio ver jogo de futebol. Por esse motivo, além de querer ser um pai presente, vou descobrir o que é ser pai, pois não tenho nenhum modelo anterior. Cresci cercado de mulheres fortes, e acho que por isso também casei com uma!

Quando a Karla ficou grávida, antecipamos nosso casamento para maio – íamos casar no dia 20 de setembro, quando aconteceu o chá de bebê! Mas tenho uma filosofia de que por mais que você procure o momento ideal (para casar ou ter filhos), ele não existe. Minha mãe me criou solteira, sem o casamento ideal, mas isso não me prejudicou – o essencial é dar amor, dedicação, carinho. Claro que acho importante ter estabilidade emocional e financeira, mas isso não pode dificultar a decisão de ter um filho. A criança pode ser motivação para trabalhar mais. As pessoas mais estabilizadas que eu conheço, são as que têm família.

Tenho certeza de que a nossa vida vai mudar, mas não sei bem como ou o quanto. Existem tantas perguntas que faço para mim mesmo, que prefiro deixar acontecer. É interessante como minha família já está mobilizada, e já me aproximei mais das pessoas. As conversas são mais profundas, as coisas que penso já não são as mesmas de um ano atrás. Parece que os problemas ficam menores e que vejo menos prazer em coisas que via há pouco tempo, tem coisas que parecem ter ficado pequenas diante dessa expectativa da chegada do bebê.

Pelo fato de ser o primeiro filho, não quero perder nada desse momento, por isso vou com a Karla a cursos e palestras. Fui eu quem vi a entrevista da Cecília Troiano na Marília Gabriela, vi com ela a reprise, compramos o livro e fomos à livraria no bate-papo. Achei que o livro Vida de Equilibrista mostrou uma maneira muito moderna de encarar essa realidade com filhos, desmistifica esse papo meio demagógico, essa retórica de assistente social que não se encaixa na vida da gente. O livro e a entrevista foram um apoio muito bacana.

Mas me surpreendo a cada dia com a força que a Karla está tendo, nem imaginei que ela pudesse ter. Tem sentido muitas dores nas costas, mas está encarando com leveza. Ambos estamos tentando não racionalizar muito, não ficar buscando encontrar todas as respostas… pois se quisermos sanar todas as dúvidas, vai rolar estresse. Antes já tinha gente nascendo e crescendo sem teoria, é claro que a gente procura se informar, mas sem estresse.

Os filhos trazem compromisso e força e são motivo de amadurecimento. Claro que estou ansioso para exercer o papel de pai e ainda gosto e faço questão de ser o homem da casa, como principal provedor. Mas, com certeza, tudo o que eu puder fazer para ajudar a Karla nesta nova fase, farei. Em casa, quem cozinha sou eu, portanto acho que o tesão será maior ainda de cozinhar para o filho. Dividimos tudo nos afazeres de casa, e, como ela é empresária e eu também, as trocas são muito parecidas. Não vai haver problema se ela precisar trabalhar no sábado, pode deixar que eu fico com o bebê!

Adriano Echeverria é diretor de criação da Toro estratégia em comunicação e aguarda Bernardo para outubro. Leia o depoimento da Karla em um dos posts anteriores.

Primeiro dia de mãe

[Verônica Lopez]

Isso mesmo, no dia seguinte ao nascimento de Antônio, Verônica teve a disposição de dar essa entrevista!  Saiba quais suas expectativas e planos para o início da vida de equilibrista.

Você se considera uma profissional dedicada?

Sim, sou dedicada. Estou na área de pesquisa de mercado há dez anos e há um nesta empresa. Trabalhei a gravidez inteira, minha carga horária é bastante puxada e o dia-a-dia é muito intenso. Até gosto quando está pegando fogo. Sou bastante comprometida, se preciso, levo serviço para o final de semana. 

Seu ambiente profissional é favorável para quem tem filhos?

Percebo que minhas colegas com filhos pequenos sofrem bastante, às vezes são 9 ou 10 da noite e elas querem ir para casa ver o filho. O marido acaba tendo que fazer muita coisa pois  elas não estão em casa, precisa pegar criança no berçário, dar banho, comida… Isso gera conflito entre o casal.

Você irá fazer alguma adaptação na volta da licença?

Boa pergunta, vou pensar depois, mas acho que sim. Estou pensando em chegar mais cedo para sair mais cedo. Plano meu, talvez seja uma ilusão.

Porque decidiu ter filhos e quando tomou a decisão?

Sempre quis ter. A decisão de ter agora é a relação estável com meu companheiro (namoro de sete anos e dois morando junto). Chegamos em um ponto em que tínhamos estabilidade suficiente pra ter um filho, um salário legal e, claro, uma vontade irresistível.

Durante a gravidez, quais foram as expectativas e planos para quando o bebê chegasse?

A expectativa continua sendo de uma mudança radical na minha vida, na rotina, nos valores, além da expectativa de amor incondicional. Será também uma mudança total no dia-a-dia por 5 meses (4 de licença + 1 de férias).

Quais as providências tomadas para o pós-parto?

Aumentei o número de vezes da faxineira, mudei de um apartamento para uma casa com mais infra-estrutura. Brinco que virei gente grande para ter esse filho: estamos com um carro cada um e gastando mais dinheiro.

Pretende seguir trabalhando após a licença? Por quê?

Sim. Para mim, deixar de trabalhar seria desistir de muita coisa. Tenho planos e vida acadêmica paralela, quero fazer doutorado e isso depende de juntar uma boa grana no trabalho. São sonhos que não quero abandonar. Também não vou largar meus 10 anos de carreira, vou continuar construindo coisas que ainda quero na carreira e vida acadêmica. 

Quais as expectativas sobre o período de adaptação, com o bebê e depois com o retorno ao trabalho?

Não tive tempo para encanação durante a gravidez, que foi superboa e supersaudável, trabalhei com mais energia. O livro “O que esperar quando se está esperando” me orientou em muitas coisas. Estou pensando de leve sobre o retorno ao batente. Tenho uma idéia muito vaga do que vou fazer para conciliar Antônio e trabalho. Acho que berçário no começo, e vou ter que dar algum jeito, trabalhar menos horas.

Você tem outros modelos a seguir, colegas de trabalho, amigas, mãe ou sogra? Eles influenciam?

Aprendi com minha mãe, que trabalha com processamento de dados, que dá para ter filho e se virar. Ela teve duas filhas, trabalhava e se sustentava sozinha. Sempre nos passou essa idéia de que ter filho combinava com trabalho.

Fale sobre o apoio do seu companheiro.

Acho importantíssimo o apoio dele nesse período de mudanças e daqui pra frente. Confesso que sou bastante centralizadora, tendo a não aceitar ajuda dos outros. Mas no final da gravidez ele ajudou demais e agora, mais do que nunca, ele é imprescindível. Preciso dele de qualquer jeito!

Verônica Lopez é psicóloga, trabalha em um instituto de pesquisa de mercado e é recém-mãe de Antônio.

Um berço no escritório

A empresária Karla já faz planos para conciliar os cuidados com o filho e o dia-a-dia de negócios. Durante a gravidez, descobriu novas habilidades, como delegar mais no trabalho e confiar na capacidade de seus funcionários.

*foto: Marcelo Min

Abri minha empresa há cinco anos. Começou bem pequena, quando eu ainda morava com minha mãe: era um computador na casa dela! Antes trabalhei como administradora em outras empresas. Como no meu novo negócio tudo dependia de mim, trabalhei sempre muito, até que, de um ano para cá, formei uma boa equipe. Acho que, com 32 anos, busquei a estabilidade no trabalho antes de ter filhos.

Mas acabou tudo acontecendo por acaso – o fato de eu ter ficado grávida depois de conseguir montar uma equipe maior. Eu já morava junto com o Adriano há 3 anos e tinha marcado casamento para 20 de setembro, mas como engravidei no começo desse ano, antecipei o casamento. Acho que o bebê virá na hora perfeita e estamos muito felizes. Em julho do ano passado, minha mãe entrou como sócia na empresa, o que me dá mais tranqüilidade ainda.

Ser empresária tem suas vantagens, como levar o bebê junto para empresa em alguns períodos, já comprei até o berço para deixar na minha sala! O difícil é tirar licença-maternidade, pois não quero deixar o negócio, devo tirar uns 2 meses, não quero ficar muito tempo fora do trabalho, vou ficar sempre em contato. Mas pretendo voltar aos poucos.

Como é a primeira gravidez, me senti um pouco perdidinha, um pouco expectadora… Mas tenho minhas certezas: quero me dedicar ao meu filho, quero conciliar trabalho, filho, maternidade, marido. Não gostaria de virar dona de casa! Talvez tenha um pouco de insegurança diante de muita informação, desde coisas bobas, como o tipo de fralda certa, como o “dar conta de tudo”. Mas estou cercada de pessoas muito legais, tudo vai dar certo. Acho que a receita é equilibrar felicidade, insegurança, dúvida e levar tudo da melhor maneira possível.

Estou contratando uma pessoa, pois hoje moro num flat com serviços, mas quero alguém para me ajudar com as roupas, com a casa, com o bebê. Minha mãe trabalha e eu não gostaria de deixar com alguma avó, não quero misturar. Quero educar meu filho e as avós virão nos momento de curtir a criança.

Na empresa, comecei a delegar muito mais, tive que aprender a fazer isso e a confiar nas pessoas. Atualmente trabalho alguns períodos em casa, e não é só por conta da gravidez, foi proposital para quem está lá na empresa aprender a se virar sem mim. O escritório era muito dependente de mim, agora, a chegada do filho acabou sendo o empurrão que eu precisava para organizar todos os departamentos da empresa.

Não tem ninguém que eu conheça que tenha negócio e depois foi mãe. Por isso, o jeito que a Cecília Troiano lidou, pelo menos no livro, eu achei muito legal. Me enxergo um pouco nela, me inspiro nela, até por ser empresária. A decisão de contratar uma pessoa que não durma foi baseada no que ela disse no livro, que foi lido até pelo meu marido.

O Adriano é o máximo. Como eu acordo muito à noite, sem dormir e com dor nas costas, ele acorda junto comigo. Também me acompanha em todos os exames de pré-natal. Ele é empresário como eu – tem agência de publicidade – e pode conciliar melhor os horários. Atualmente tem chegado em casa mais cedo, até para ficar mais tempo junto comigo. É um companheirão. Tenho a sorte de ter um marido que curte ajudar. Acho que precisa mesmo ser cúmplice, pois os dois trabalham e são pais em pé de igualdade.

Karla Haidar é empresária, proprietária da Kapa+ EcoEmbalagem (www.kapamais.com.br), que faz embalagens naturais, e espera Bernardo para outubro.

Não é impressão: tudo mudou!

[Ana Dini]

Para a mulher de hoje, o trabalho é mais natural do que a maternidade. A grávida tem a auto-estima abalada e duvida da capacidade de ser mãe. Mas, junto com o novo bebê, nasce uma nova mulher: a chave é descobrir quem ela é!

As transformações ocorridas no “ser social mulher” não aconteceram do dia para noite. Ao longo dos tempos, o olhar sobre nós vem se modificando. Se antes era esperado que a menina crescesse e se tornasse mãe, como maior e mais sublime missão, hoje em dia a esperança está em quão boa profissional se tornará. Essa expectativa torna tudo diferente: com o foco na profissão, adiamos o momento de nos tornarmos mães e, mesmo para aquelas que não adiam, estar envolvida com o comprometimento social de ser bem sucedida no trabalho faz com que a maternidade pareça um pouco desajustada.

É com o sentimento de dúvida e de incerteza que damos o passo em direção à primeira gravidez. Mesmo querendo muito, nos perguntamos: será que essa é a melhor hora, mesmo? Antigamente esse conflito era zero. Nenhuma mulher se fazia essa pergunta, a gravidez simplesmente vinha porque era conseqüência de ser mulher. Agora podemos escolher quando é o melhor momento e até escolher por não querer, embora essa posição gere uma certa indisposição para algumas mulheres. A sociedade ainda não aceita com total naturalidade o fato de uma mulher não querer ser mãe.

Certo é que o comprometimento social com o trabalho gera também a necessidade emocional de trabalhar. Ainda no começo da gravidez, quando parece que tudo dentro de nós está parado, lento, e o cérebro parece não responder às nossas atividades diárias, vem aquele aperto e a dúvida: o que será de mim? Após esse primeiro período voltamos a ter o nosso próprio ritmo, mas a barriga começa a crescer e as roupas precisam ser trocadas, até que essa é uma parte boa – comprar uma roupinha nova ainda que seja para se adaptar a nova realidade.

Com a proximidade do nascimento, vamos nos dando conta de que a nossa cabeça está cada dia mais distante do trabalho e nos perguntamos: será que não serei mais a mesma, quando tudo isso acabar? Não mesmo!! Nunca mais. Depois que nos tornamos mães mudamos de condição, já disse isso.A nossa auto-estima, que antes da gravidez era boa e positiva, fica abalada. Não temos a menor experiência em gestar e muito menos em ser mães, teremos que começar do zero ou então recorrermos às nossas queridas mães, sogras ou amigas que já passaram por isso. E ainda assim, para cada uma, a história é única.

Decidir como fazer com a criança, dar conta de continuar a trabalhar, as dúvidas sobre ser uma boa mãe tanto quanto sou boa profissional, não há como lidar com todas essas questões sem se preocupar. Teremos de agora em diante um novo querer, precisaremos investir em nos conhecer um pouco mais para descobrir quem é essa nova mulher que até então esteve adormecida. Essa investigação e o empenho em resolver o enigma “quem sou eu agora?” é essencial para obtermos sucesso nessa nova vida.

Ana Dini é educadora, formada pela USP-SP, especialista em Educação Infantil. Há 18 anos atende crianças e pais em escolas de grande porte. Ministra o workshop “Como falar para o seu filho ouvir”. Contato: anapdini@hotmail.com