Para onde vamos, mesmo?

[Ana Dini]

Para driblar o tempo não há muito segredo: primeiro há que se organizar tudo e depois aprender a priorizar. À medida que temos uma rotina, esquecemos que estamos correndo contra o tempo e tudo passa a se encaixar.

Desse modo a correria deixa de ser questionada e passa a ser necessária.

Se é tão simples, porque parece que nunca estamos dando conta? Porque temos mania de perfeição, porque não queremos priorizar, acreditamos que temos e podemos dar conta de mais um pratinho, vivemos tendo imprevistos que nos tiram da nossa rotina como: a falta da empregada, a tosse que não cessa do nosso filho, uma lição de casa em forma de pesquisa para ontem, o trânsito que, detalhe, é um  imprevisto previsto, a internet que caiu bem na hora que eu ia efetuar o pagamento, o caixa do super mercado que não encontra o código do produto, a criança que não termina nunca de se trocar, que enrola pra comer, tem o relatório que precisa ser feito, o curso que deve ser concluído em duas semanas, antes que se comece o outro que já foi agendado pela empresa… enfim, a lista é interminável. Porque tudo ou quase tudo, para quem faz tanto, é complicador.

Como temos muitas frentes é inevitável que uma delas tenha um ou outro probleminha, entre em colapso, e que o nosso tempo sempre esteja sendo reorganizado em função dos nossos compromissos, que de rotineiros só tem acordar cedo e dormir muito tarde.

Vivemos então mergulhadas em um encadeamento de ações que para quem vê de longe parecem bem sem sentido. Corremos o tempo todo. E para onde? Com esse questionamento paramos.

Definir o objetivo da corrida é de suma importância para que se tenha mais tempo. Porque quando estabelecemos as nossas metas, mesmo que a contra gosto, temos que priorizar. Mas hoje em dia… isso está cada vez mais difícil.

Vivemos em um momento histórico em que as oportunidades são muitas, mas a falta de constância, as incertezas e o medo de não dar conta nos toma por inteiras. Diante deles só mesmo correndo sem saber pra onde, se eu parar não dou conta.

O chato disso tudo é que acabamos apressando a vida. A nossa e a de nossos filhos. Queremos que eles cresçam e isso está implícito quando dizemos: “Quanto mais cedo melhor!”

Quanto mais cedo ele for para a escola e ficar livre de estar em casa com uma pessoa que não lhe acrescente nada, quando mais cedo ele entrar em contato com outras crianças, quanto mais cedo ele andar, quanto mais cedo falar, quanto mais cedo aprender inglês… melhor! Ele ganha tempo.

Dizemos: “Como essas crianças estão espertas, já nascem sabendo mexer no computador, fazem tudo antes do tempo…” ai, delas se não forem assim. Como poderiam lidar com mães e pais que correm tanto?

A culpa não é nossa, desde que saibamos para onde vamos e para onde levamos os nossos filhos.

Ana Dini é pedagoga e mãe, ministra o workshop “Como falar para o seu filho ouvir”, anapdini@hotmail.com

Viver é urgente!

[Maggi Krause]

Estou há dias matutando acerca desse texto sobre o tempo. O assunto me encanta tanto que acaba até atrapalhando minhas idéias. Meu trabalho de conclusão de faculdade teve este tema e – filosofias à parte como tempo cíclico, finitude e outros conceitos profundos – a parte prática consistia em andar de metrô e observar os ritmos da metrópole.

Concluí que a percepção do tempo era diferente dependendo do bairro,  da rotina e das demandas pessoais e profissionais de cada um. Parte importante: na apresentação final, deixei claro que uma música agradável aos ouvidos parece mais rápida do que outra monótona, chata mesmo, sendo que as duas tinham a mesma duração objetiva (em minutos).

Naquela época eu era solteira, trabalhava de dia, estudava à noite e namorava no final de semana. Bons tempos aqueles! (me perdoem o trocadilho). E olha que já era uma correria danada. Data de fechamento, prazo de entrega, entrevista marcada e agenda apertada já faziam parte do meu vocabulário de recém-jornalista. E isso tudo permeado de deslocamentos e trânsito e minutos escorrendo feito água de chuva na calçada. Nada que outras equilibristas não tenham experimentado.

Se antes o tempo já parecia escasso, quem dirá depois da maternidade, quando as demandas dos filhos invadem aquelas 24 horas já espremidas de tantos compromissos.

Quem não se lembra de 20 minutos em cada peito, intervalo entre as mamadas, hora do suco, da papinha, do soninho. Hoje já estou em outra fase: hora de levantar e vestir roupa, minutos para escovar os dentes, tomar o leite, ir para a escola… ufa, e tudo isso sem perder a esportiva para que eles já não cresçam estressados!

De volta ao trabalho e ao computador, a lista no caderno parece enorme, impraticável mesmo. Tudo que é mais urgente vai sendo realizado primeiro…  mas, reparem, não é o  que dá mais prazer. Adoro roubar duas horas do dia para almoçar com uma amiga, não existe tempo mais bem empregado! Me concedo uma pausa no trabalho para acompanhar a lição de casa do Tiago ou tomar um picolé com ele na varanda. 

Incrível como os momentos de prazer (lembra daquela história da música que citei antes?) parecem passar muito rápido! E olhando para meu calendário de mesa aqui quase todo preenchido com compromissos: do dentista à entrevista, da reunião ao almoço, tento fazer um exercício a cada final de dia ou de semana: penso em todas as amigas que encontrei, nos e-mails significativos enviados (pessoais, claro), na caminhada com os meninos à padaria, na saída estratégica com o marido para o cinema ou para um lanche apenas. Momentos preciosos que tecem com carinho a teia da minha modesta existência.

E chego à conclusão de sempre: o tempo foge mesmo, já desisti de ter controle sobre ele. A única estratégia que resta é viver o tempo presente com o máximo de intensidade e de presença, ou seja, apegada ao momento, sem ficar remoendo o passado ou sonhando demais com o futuro. Se abrirmos alguns minutinhos diários para incluir aquilo que realmente importa para nós, o tempo (dessa vida) não será em vão.

Pra terminar essa confusão de idéias (não digam que não avisei…) vai aí um trecho de uma de minhas músicas preferidas do Alan Parsons Project: “Time keeps flowing like a river to the sea… till it´s gone forever, gone forever…”

Maggi é uma das equilibristas que se dá ao luxo de doar um tempo para planejar e montar este site!