Por trás de uma Equilibrista

“O livro é um bom passatempo, até o momento de conhecer de perto a maravilha que é ser avô”.

Essa é a dedicatória que recebi do Dr. Leonardo Posternak, co-autor do “Livro dos Avós: na casa dos avós é sempre domingo?”, escrito em parceria com a terapeuta Lidia Aratangy. O sentimento que transborda nessas palavras é inquestionável: o vovô Leonardo está babando de orgulho, alegria e prazer na relação com a neta. Aliás, tal comentário, com essas ou outras palavras similares poderia ter vindo da boca de outros tantos avós que conheço.

Essa magia do envolvimento de avós com seus netos é sempre relatada repleta de doçura, sorrisos nos lábios e com um forte sentido de admiração. Tudo isso sem nenhuma responsabilidade diária relacionada à educação do neto. A curtição prevalece à obrigação na relação com os netos. É tudo de bom!

Que o amor de avós para netos é imenso e incondicional, isso não é novidade para ninguém, certo? Mas o que me chama a atenção é como a “população” de avós ao redor do mundo é imensa. Não tenho dados brasileiros, mas há muitos de outros países. No livro que cito acima, os autores falam que as estatísticas mostram que o século XXI será o séculos dos avós! Entre os americanos, por exemplo, mais da metade deles se torna avô entre 49 e 53 anos e “passa” 30 a 40 anos nessa “função”. Além disso, metade deles declara ter contato semanal com seus netos, mesmo num país onde é tão comum as famílias se espalharem geograficamente. Na França, cerca de 80% das pessoas com mais de 65 anos têm netos e quase a metade delas será bisavó ou bisavô. E, pasmem, 20% das mulheres com mais de 80 anos são tataravós! Na Inglaterra existem hoje 16,5 milhões de avós e, por volta dos 50 anos, metade da população tem netos. No Brasil não achei números para confrontar com esses, mas acredito numa realidade bastante semelhante.

E o que esses números têm a ver com a vida de equilibrista? Tudo! Aqui, como em tantos outros países, muitas mães que trabalham dependem dos avós para ficar com os filhos em sua ausência. Na pesquisa que originou o livro “Vida de Equilibrista: dores e delícias da mãe que trabalha”, 25% das mães deixam os filhos com os avós enquanto trabalham. O número da Inglaterra é idêntico a esse, ou seja, aqui no Brasil mesmo com a facilidade de termos uma babá, a confiança nos avós nos aproxima das inglesas. É incrível o papel social que os avós ocupam hoje na sociedade contemporânea. Eles são uma peça fundamental para garantir que a vida ativa, especialmente das mulheres, seja possível. Apesar de todas as dúvidas, vantagens e desvantagens de se deixar os filhos com os avós, é incontestável a segurança que essa opção confere aos pais. No reino dos avós, o que não falta é carinho e amor para os netos. Para muitos casais, isso já é motivo suficiente para essa tomada de decisão. Mas, como sempre, cada família tem um jeito, cada filho tem suas manias e cada avó tem seus próprios mimos, a decisão não é tão simples como parece: deixar ou não na casa dos avós ainda é um tema muito discutido em boa parte das casas das equilibristas.

Mãe duas vezes

[Rosemarie]

Ela se envolve na rotina e ajuda na criação das quatro crianças da filha Monica, gerente administrativo-financeira de uma indústria química. 

“Minha filha Monica se realiza no trabalho. Ela sempre foi dedicada, estudou e realmente gosta do que faz. Ela ficaria frustrada só em casa sendo mãe, seguindo rotinas de uma época em que as mulheres não trabalhavam. Mas quatro filhos não estavam no programa, a princípio, seriam só dois.

Engraçado é que eu sempre disse que não ajudaria se meus filhos tivessem crianças, mas já estou criando cinco. Minha primeira netinha, até completar 1 ano e meio, ficava comigo todos os dias, pois fiquei com pena porque minha nora ia colocá-la na creche. E, se fiz assim para um, faço para todos. Virei mãe duas vezes.

Quando a distância entre as nossas casas diminuiu, as coisas ficaram mais fáceis. Era mais complicado quando a Monica trabalhava em Diadema, nós morávamos em Interlagos e eles no Morumbi (três locais afastados na zona Sul da grande São Paulo). Muitas vezes, o Rafa dormiu lá em casa, pois não valia a pena ela levar o menino dormindo para casa para trazê-lo na manhã seguinte (a escolinha também ficava em no mesmo bairro em que eu morava).

Agora moramos no mesmo prédio, basta pegar o elevador. As crianças vão para a escola de manhã e à tarde tem bastante atividade aqui no clube do condomínio. Mas sempre estou por perto para dar uma olhada. Tomo parte grande na educação deles, acompanho a lição dos mais velhos todos os dias, e, às vezes, coloco na cama. Eu sempre levo ao médico, esse  trabalho é meu, pois ela não pode ir. Também faço as compras de frutas, verduras, leite e carne da semana, às quartas-feiras. Ela é quem faz as compras de mês no final de semana.

Claro que já passei alguns sufocos cuidando de netos: uma vez deixei uma netinha brincando com a chave do carro e ela a apertou e se trancou lá dentro. Eu, do lado de fora, acabei pegando um martelo e quebrando o vidro do motorista, com medo que ela sufocasse. Outra nos deixava apavorados, pois desmaiava ao ser contrariada! Agora ela faz greve de fome… pirraça de criança. Esses dias o transporte se desencontrou de uma das meninas na escola e veio sem ela para casa. Levamos 40 minutos procurando até achá-la por lá.

Durante a semana, às vezes me sinto cansada, pois um sozinho é um anjinho, mas quatro juntos… Mas se fico dois dias sem vê-los, sinto falta. A vida já está mais calma, o pequeno vai fazer 3 anos, não é mais bebê. Minha maior alegria como avó é ver as crianças crescendo com saúde a cada dia que passa. Vê-los felizes dá muita satisfação. E no domingo à noite reunimos a família aqui para comer pizza, juntam 13 pessoas, e todos se dão bem.

Admiro a Monica porque ela nunca faz corpo mole, chega em casa e fica por conta dos filhos. E não tem babá no final de semana, teima em ficar só com as crianças. Acho estressante. Mas ela está fazendo muito bem, tenho orgulho, porque realmente a minha filha faz as coisas direito dos dois lados (o profissional e o maternal). À noite eu tenho meu sossego, mas ela ainda não, pois não dá para ter folga com quatro filhos, sempre tem alguém que acorda… ”

Rosemarie, mãe de Monica (leia depoimento no pos anterior), é alemã radicada em São Paulo, tem três filhos e cinco netos.

Apoio na corda bamba

[Moraes Eggers]

Minha mulher tornou-se executiva ao mesmo tempo que recebíamos nosso filho em casa. Assumi a condição de “Pãe”, mistura de pai com mãe ou, até melhor, de “Babai”, um mix de babá com pai.

No ano passado, minha mulher, Cristina, foi contratada para o trabalho mais importante de sua vida: ser diretora na maior editora do país. É um cargo sonhado, a consagração de uma carreira. E ela sempre foi uma profissional competente, superpreparada e acima da média. Estamos juntos há 18 anos e sempre privilegiamos nossas carreiras. Além disso, como mulher e ótima esposa, ela sempre acalentou o desejo de ser mãe.

Por seis anos tentamos ter um bebê, sem sucesso. Como queríamos ser pais, partimos para a adoção. Por isso, quando me telefonaram do Fórum de Santo Amaro, em São Paulo, avisando que havia um bebê com 40 dias à nossa espera, tive a mesma sensação que, imagino, um pai deve ter ao saber que seu filho nasceu. Nosso filho havia nascido para nós! Liguei para a Cris e choramos juntos, tamanha a emoção e a alegria.

Cristina estava trabalhando havia menos de 20 dias, organizando um novo departamento e sua equipe. Em um cargo de confiança, em início de empreitada, por isso não poderia tirar os quatro meses de licença-maternidade. Não vacilei em deixá-la tranqüila para encarar seus novos desafios: o de ser executiva e o de ser mãe. Aproveitando o fato de estar trabalhando em casa, assumi a condição de “Pãe”, mistura de pai com mãe ou, até melhor, de “Babai”, um mix de babá com pai.

Há alguns anos, escrevi um livro com a biografia de John Lennon e nunca esqueci de um fato na vida do ex-Beatle que, durante os primeiros cinco anos de vida de seu segundo filho, Sean, abandonou tudo para se dedicar exclusivamente a ele. Ele e Yoko Ono haviam montado a Lenono, uma empresa para cuidar da carreira e dos negócios de John, como direitos autorais e coisas do tipo. Ela assumiu a direção, confessando que o lado maternal não era seu forte. John estava muito contente em passar todas “essas coisas chatas de números e negócios” para alguém em quem ele confiava. Ela passava o dia inteiro no andar térreo do Dakota, onde funcionava o escritório da Lenono. Ele se dedicava a criar o filho no 7° andar, contando com o auxílio de uma equipe de funcionários e domésticas.

Infelizmente, não tenho tanto dinheiro como Lennon tinha, mas, até hoje, ainda estou conseguindo conciliar meu trabalho (agora o de escrever livros) com os cuidados com o André, que está com 11 meses. A dura rotina corporativa da Cris faz com que ela fique fora quase o dia todo. Entra no trabalho por volta das 10h e retorna para casa lá pelas 20h30, 21h. Nossa empregada chega às 7h30 e vai embora às 16h30. Eu ajudo nas tarefas com o bebê também neste período, saindo para passear com ele e fazendo intervalos no trabalho para dar uma mamadeira ou papinha, trocar a fralda ou até mesmo brincar um pouco. Depois desse horário, assumo sozinho o controle até a festejada chegada da mamãe em casa.

Sou o responsável pelo seu banho e pela última mamadeira antes de ele dormir. Às vezes, a Cris ainda consegue chegar a tempo de fazer isso e curtir o filhote. Nos finais de semana, nos ajudamos para cumprir a rotina diária do André. E estamos vivendo muito felizes. Ser pai ou mãe é uma grande responsabilidade, que deve ser assumida de forma incontestável. Incluindo nisso o fato de que se tem de abrir mão de uma série de coisas. A prioridade passa a ser outra, diante de um ser que precisa de todo cuidado, carinho e amor.

O apoio de um para o outro e para nosso filho é fundamental para que possamos viver normalmente e criá-lo da forma mais correta possível, sem carências ou traumas. E acho que isso é que dá forças para que ela continue desempenhando bem seu papel no trabalho e mesmo em casa.

Assim como no caso da carreira profissional, em que percorremos uma trajetória dura, às vezes sofrida, para se alcançar o sucesso no futuro, também a maternidade e a paternidade exigem um preparo ao longo dos anos de nossas vidas para que possamos ser dignos de nossos cargos de diretores de uma nova vida. E ver nosso filho crescer forte e saudável, na corda bamba do dia-a-dia, certamente, é o melhor “salário” que podemos ter!

Moraes Eggers, 46 anos, é jornalista e escritor.

Avós na liderança

[Cecília Troiano]

As pesquisas apontam que elas são personagem fundamental nessa logística intrincada das mães que trabalham. As avós (mães da mãe ou do pai) são as pessoas mais confiáveis para se entregar o netinho e sair para a labuta. Veja esses dados da pesquisa quantitativa feita para o livro “Vida de Equilibrista, dores e delícias da mãe que trabalha”.

Onde ficam os filhos enquanto a mãe trabalha?

61% escola **

43% em casa

24% na casa dos avós!

** principalmente crianças com mais de 3 anos

As mães que têm só um filho são as que deixam mais com avós (27%, contra 19% das que têm 2 ou mais filhos).

Também é opção maior entre assalariadas (28%).

Para se ter uma idéia da importância dos avós para as mães que trabalham, quando a criança fica em casa, em 44% dos casos quem fica responsável por ela são os avós.

Eles cuidam das crianças mais do que empregadas (39%) ou babás (21%). Opai/companheiro fica com a criança em 13% dos casos enquanto a mãe trabalha.

A pesquisa Singulares, da Philips, também perguntou qual a pessoa reponsável pelos filhos no horário de trabalho das funcionárias da empresa. Em 44% dos casos, eram mãe/pai das entrevistadas e 6% dos casos a sogra, ou seja, em 50% dos casos são os avós os responsáveis pela criança enquanto a mãe está fora.

Fique esperta na visita à escola

[Ana Dini]

A educadora observa o que se deve priorizar, caso a escolha seja colocar a criança na escola ou no berçário.

  • O primeiro contato com a escola é o mais importante, observe o que você sente.
  • Leve a criança com você, assim poderá ver como as pessoas da escola se comportarão diante dela.
  • Fuja da escola que ficar muito em cima do seu filho, fazendo elogios ou muitas perguntas. Em um primeiro contato, é você que tem que conhecer a escola e não a escola conhecer você.
  • Escolha ambientes que tenham segurança adequada para a faixa etária do seu filho, não deixe de questionar sobre os espaços onde a criança poderá estar à vontade, em liberdade, mas com segurança.
  • Prefira visitar a escola em um dia frio e chuvoso, assim você terá a certeza das atividades que serão promovidas nesses dias mais difíceis.
  • Questione sobre a formação dos professores e número de alunos por sala.
  • Como é feita e de quem é a responsabilidades na alimentação das crianças e na higiene? É importante que essas atividades façam parte da rotina da criança e que não sejam delegadas a pessoas que não tenham vínculo com as crianças, as pessoas responsáveis por essas tarefas também precisam ser qualificadas.
  • Localização da escola: é importante que seja perto do seu trabalho ou da sua casa. No caso de emergência, é ótimo ter alguém por perto e que não tenha problemas com trânsito.
  • O ambiente precisa ser limpo, organizado, mas é indispensável que se possa notar a ação da criança nesse ambiente, não como cenário. Onde a criança brinca, por exemplo, está “brincado” ou está tudo no devido lugar e com aparência de que ninguém usa? As atividades artísticas são feitas pelas crianças ou pelas professoras?
  • Berços são um desestímulo a independência, embora a aparência gere conforto e bem estar aos nossos olhos brasileiros, tão acostumados a cuidar e dar conta de tudo.
  • Como é realizado o período de adaptação? A mãe ou alguém de confiança da criança deverá estar na escola durante o tempo que for necessário. A criança precisa formar o vínculo com a professora e a mãe ou outra pessoa da família pode ajudar nesse processo.

Parceria na criação dos filhos

[Ana Altenfelder]

Ana Altenfelder teve três filhos em quatro anos e continuou trabalhando como terapeuta corporal. Em casa, um braço-direito, uma babá e empregada de mão cheia. Não à toa que Maria dos Santos foi carinhosamente apelidada de Santinha.

Desde quando tem o apoio da Santinha?
Ela entrou na minha vida quando a Luisa, minha filha mais velha, estava com 6 meses. Ela foi indicada pela sua irmã que na época era minha secretária, eu estava com 28 anos, récem-casada, com minha primeira filha e muitos pacientes para atender. Santinha veio do interior de Minas, estava com 22 anos e desde então já se passaram 19 anos.

Conte um pouco da sua rotina com seus quatro filhos e como esse apoio se encaixa para que você continue desenvolvendo sua carreira.
Imagine que eu tive em apenas quatro anos, três dos meus filhos! Eram centenas de mamadeiras e ainda por cima fraldas de pano!!! Muita papinha, carrinho, berço e toda “tralha” que é necessária. Como eu sempre tive flexibilidade de horário para trabalhar, me deslocava muito nos horários diurnos de atendimento mas não havia tanto trânsito, aproveitava o horário da tarde para estar mais horas no consultório e voltava para jantar. Na época não tinha telefone em casa e tudo era na base da confiança, nunca tive nenhum susto… O caçula, Gabriel, chegou quando o Renato estava com 4 anos. A Tinha é muito tranqüila, serena, e eles foram crianças muito saudáveis. Então só era um grande problema quando eles tinham uma virose ou coisa parecida, aí eu ficava em casa.

Fale dos benefícios de ter alguém como ela por perto e conte algum aperto que ela solucionou para você!
Eu compartilho com ela a educação dos meus filhos, sem ela eu não teria dado conta, ela foi minha grande parceira. Quando eles eram pequenos, os acidentes foram poucos, mas aconteceram. A Helena quando engatinhava tropeçou no degrau da sala e machucou feio a boca. Eu estava trabalhando e a Tinha socorreu, fez o que era necessário, sempre teve bom senso.

Você imagina a vida sem esse apoio?
No meu caso, sem esse apoio eu não poderia trabalhar e ficar fora tanto tempo, me dedicar e investir no meu desenvolvimento profissional.

Ana Altenfelder é terapeuta corporal (tel. 2578-7254 e www.metodoaltenfelder.com.br)

Rotina sem apoios

[Fernanda Metzler]

Minha vida de publicitária solteira que morava sozinha começou a mudar naturalmente, assim que comecei a dividir o apartamento com meu namorado. Já noivos, decidimos engravidar e logo conseguimos. E aquela gravidez, planejada em conjunto com tanta alegria, assustou meu companheiro.

Diante das novas responsabilidades que viriam, ele mostrou uma imaturidade tão grande que ela derrubou nosso relacionamento. Ou seja, quando o Matheus nasceu eu já estava separada.

Na época eu trabalhava na metalúrgica de meu pai, o que garantia certa flexibilidade de horários. Aliás, topei sair do mercado publicitário contando com algumas facilidades de trabalhar em família. Como minha mãe não era mais tão nova, deixava uma babá tomando conta do Matheus na casa dela, o que seria uma segurança a mais, pois minha mãe olharia os dois. Mas como sempre fui bastante perfeccionista, minha mãe evitava contar de algum deslize com a babá para que eu não me estressasse. Por conta disso, eu descobria depois que tinha mandado a babá embora (pois notava manchas roxas no bracinho do meu filho) que ela batia na cabeça dele e o arrastava com força para o banho. Em quase seis anos, tive três babás que ficaram mais tempo, mas numa época crítica cheguei a trocar quatro vezes de babá em, digamos, três meses.

Um dia cheguei em casa e percebi que a babá (a última) deixava o Matheus fazer o que queria, não conseguia falar não para ele. Quando ela largou o emprego há dois meses, fiquei desestruturada, mas depois vi o quanto ela me perturbava (ela também dormia em casa). Sinto falta de apoios, pois só eu levo e busco o Matheus na escola e nos seus compromissos e agora faço tudo o que costumava delegar para a babá. Com certeza seria mais fácil se pudesse contar com a ajuda de marido e sogros (que não tenho), dos meus pais (meu pai está doente, portanto minha mãe é pouco disponível) e até de uma boa babá.

Mas resolvi estruturar a vida de outra forma: tenho uma empregada fixa e pretendo deixar o Matheus na escola em período integral para sair em busca de uma nova carreira. Acho que até para ele será mais proveitoso ficar na escola na companhia de outras crianças, do que almoçar comigo e ter que fazer coisas de adulto à tarde (pois o carrego junto para todos os cantos).

A empresa da família foi vendida e estou pesquisando para me lançar em outra carreira, talvez abrir um negócio. Tive um período em que me cobrava muito, principalmente por estar sozinha, queria mostrar que dava conta de ser boa mãe e fazer tudo perfeito. Agora estou mais tranqüila com as minhas decisões e confiante no futuro.

Fernanda Metzler é publicitária e mãe de Matheus.

Obrigada aos avós

[Cecília Troiano]

Sempre digo para as pessoas que hoje sou privilegiada: meus pais moram, literalmente, atrás da minha casa. Com direito a uma portinha que dá acesso às duas casas. Muitas mães que trabalham fora provavelmente sonhariam com essa vantagem da proximidade. Especialmente se pensarmos numa cidade grande. Também sei que estar próxima pode trazer outros problemas, mas olhando para o lado bom da coisa, que no meu caso, é bastante grande, considero-me abençoada.

Nem sempre foi assim. Quando meus filhos nasceram, meus pais moravam em um bairro e nós em outro, não tão próximo. Sei bem o que é não ter os pais à mão quando se precisa. Mas há uns 7 anos tenho a felicidade de ter meus pais por perto. Meu marido foi um grande incentivador dessa proximidade com os sogros!

Mas, apesar de estarmos próximos, no dia-a-dia, meu marido e eu optamos por não “dividir” tarefas relacionadas às crianças com meus pais. No nosso caso, todos os dias meu marido e eu negociamos quem fará o quê relacionado a nossos filhos. Quem de nós dois levará ou pegará na escola, quem buscará no clube, se a condução precisará ser acionada. Enfim, todo dia checamos nossas agendas profissionais e negociamos quem faz o quê. Hoje, nossa atividade profissional permite isso e procuramos usufruir de mais essa abertura que nossas carreiras permitem. Eu, como mãe, gerencio essa distribuição de tarefas, mas conto integralmente com a participação do meu marido.

Voltando aos avós, também meus pais são pessoas bastante ativas, com atividades profissionais e pessoais próprias. Eles não tem nenhuma obrigação diária ou semanal fixa, como ir buscar na escola, levar ao clube ou ficar com nossos filhos até chegarmos em casa à noite. Por outro lado, só de saber que eles estão por perto é uma tranquilidade para nós que não tem preço. Nós sabemos que, se necessária, a retaguarda dos avós está garantida. Numa viagem do casal ou numa esticada noturna, meus filhos buscam imediatamente abrigo na casa dos avós. E adoram a folia e os mimos da casa dos meus pais!

Vale deixar registrado um agradecimento especial a todos os avós. Sem eles, sem dúvida, a vida das mães que trabalham fora, e dos pais, seria bem diferente. Principalmente bem mais complicada e com muito mais insegurança.

Uma questão de escolha

[Ana Dini]

Avós, pais, empregadas, babás, escolas: esses apoios, que podem entrar em cena sozinhos ou combinados, fazem a diferença na vida de muitas mães equilibristas.

Logo depois da licença-maternidade (ou ainda durante a gravidez e a licença), nos deparamos com a escolha que teremos de fazer: onde e com quem deixar o nosso querido e amado bebê. O fato de ser um bebê complica e amplia tudo. Ele é tão pequeno, tão dependente, como ter certeza de que se está fazendo o melhor? Muitas mães não percebem que essas aflições vão durar a vida toda… de qualquer forma, tudo começa aqui.

A escolha é individual, mas ajuda se forem privilegiados alguns aspectos: pensar sobre com qual desses apoios eu me sinto mais segura como mãe e, caso não seja possível contar com apenas um, quais podem se articular sem afetar muito a rotina que eu planejo para minha casa. Pensar sobre o que seria mais importante para a criança naquele momento também ajuda, por exemplo, “gostaria que meu filho não saísse de casa” ou “gostaria que ele estivesse em um espaço com mais possibilidades de interação”.

Ajuda também pensar que nada precisa ser definitivo, a criança vai crescer e se desenvolver de um modo nem sempre previsível, então podemos ter outras idéias ao longo do caminho.       Lembro-me de que quando o meu filho nasceu, minha intenção era de deixá-lo em casa com uma empregada de confiança até os três anos. Como na época eu só trabalhava meio período, acreditei que conseguiria organizar as coisas assim. Antes de o João completar dois anos, a empregada de confiança engravidou e me deixou com uma substituta que deixava muito a desejar, mesmo sendo meio período. O João não falava quase nada e pedia diferentes possibilidades de interação então não tive dúvidas em buscar outro caminho: a escola.

De todos esses apoios, a escola parece ser a opção mais segura no que diz respeito ao compromisso estabelecido: ela não viaja a passeio, nem a trabalho, não falta, tem horário definido para chegar, ou melhor, para abrir e também para fechar. Aliás, esse pode ser um complicador ou um quesito para ajudar na escolha (algumas escolas têm flexibilidade de horário). Ao escolher a escola, assim como qualquer outro apoio, é importante ter sempre um plano B, pois a criança pode ficar doente e não poder ir à escola, ou a babá falta, enfim…

Não podemos perder de vista que a escolha, ainda que não seja para sempre, precisa ser a melhor naquele momento. Isso é importante para nos deixar seguras e felizes e nos permitir apenas continuar a equilibrar pratinhos, sem sentir culpa ou temor pela escolha que fizemos.

Ana Dini é educadora, formada pela USP-SP, especialista em Educação Infantil. Há 18 anos atende crianças e pais em escolas de grande porte. Ministra o workshop “Como falar para o seu filho ouvir”. Contato: anapdini@hotmail.com