Rotina sem apoios

[Fernanda Metzler]

Minha vida de publicitária solteira que morava sozinha começou a mudar naturalmente, assim que comecei a dividir o apartamento com meu namorado. Já noivos, decidimos engravidar e logo conseguimos. E aquela gravidez, planejada em conjunto com tanta alegria, assustou meu companheiro.

Diante das novas responsabilidades que viriam, ele mostrou uma imaturidade tão grande que ela derrubou nosso relacionamento. Ou seja, quando o Matheus nasceu eu já estava separada.

Na época eu trabalhava na metalúrgica de meu pai, o que garantia certa flexibilidade de horários. Aliás, topei sair do mercado publicitário contando com algumas facilidades de trabalhar em família. Como minha mãe não era mais tão nova, deixava uma babá tomando conta do Matheus na casa dela, o que seria uma segurança a mais, pois minha mãe olharia os dois. Mas como sempre fui bastante perfeccionista, minha mãe evitava contar de algum deslize com a babá para que eu não me estressasse. Por conta disso, eu descobria depois que tinha mandado a babá embora (pois notava manchas roxas no bracinho do meu filho) que ela batia na cabeça dele e o arrastava com força para o banho. Em quase seis anos, tive três babás que ficaram mais tempo, mas numa época crítica cheguei a trocar quatro vezes de babá em, digamos, três meses.

Um dia cheguei em casa e percebi que a babá (a última) deixava o Matheus fazer o que queria, não conseguia falar não para ele. Quando ela largou o emprego há dois meses, fiquei desestruturada, mas depois vi o quanto ela me perturbava (ela também dormia em casa). Sinto falta de apoios, pois só eu levo e busco o Matheus na escola e nos seus compromissos e agora faço tudo o que costumava delegar para a babá. Com certeza seria mais fácil se pudesse contar com a ajuda de marido e sogros (que não tenho), dos meus pais (meu pai está doente, portanto minha mãe é pouco disponível) e até de uma boa babá.

Mas resolvi estruturar a vida de outra forma: tenho uma empregada fixa e pretendo deixar o Matheus na escola em período integral para sair em busca de uma nova carreira. Acho que até para ele será mais proveitoso ficar na escola na companhia de outras crianças, do que almoçar comigo e ter que fazer coisas de adulto à tarde (pois o carrego junto para todos os cantos).

A empresa da família foi vendida e estou pesquisando para me lançar em outra carreira, talvez abrir um negócio. Tive um período em que me cobrava muito, principalmente por estar sozinha, queria mostrar que dava conta de ser boa mãe e fazer tudo perfeito. Agora estou mais tranqüila com as minhas decisões e confiante no futuro.

Fernanda Metzler é publicitária e mãe de Matheus.

Obrigada aos avós

[Cecília Troiano]

Sempre digo para as pessoas que hoje sou privilegiada: meus pais moram, literalmente, atrás da minha casa. Com direito a uma portinha que dá acesso às duas casas. Muitas mães que trabalham fora provavelmente sonhariam com essa vantagem da proximidade. Especialmente se pensarmos numa cidade grande. Também sei que estar próxima pode trazer outros problemas, mas olhando para o lado bom da coisa, que no meu caso, é bastante grande, considero-me abençoada.

Nem sempre foi assim. Quando meus filhos nasceram, meus pais moravam em um bairro e nós em outro, não tão próximo. Sei bem o que é não ter os pais à mão quando se precisa. Mas há uns 7 anos tenho a felicidade de ter meus pais por perto. Meu marido foi um grande incentivador dessa proximidade com os sogros!

Mas, apesar de estarmos próximos, no dia-a-dia, meu marido e eu optamos por não “dividir” tarefas relacionadas às crianças com meus pais. No nosso caso, todos os dias meu marido e eu negociamos quem fará o quê relacionado a nossos filhos. Quem de nós dois levará ou pegará na escola, quem buscará no clube, se a condução precisará ser acionada. Enfim, todo dia checamos nossas agendas profissionais e negociamos quem faz o quê. Hoje, nossa atividade profissional permite isso e procuramos usufruir de mais essa abertura que nossas carreiras permitem. Eu, como mãe, gerencio essa distribuição de tarefas, mas conto integralmente com a participação do meu marido.

Voltando aos avós, também meus pais são pessoas bastante ativas, com atividades profissionais e pessoais próprias. Eles não tem nenhuma obrigação diária ou semanal fixa, como ir buscar na escola, levar ao clube ou ficar com nossos filhos até chegarmos em casa à noite. Por outro lado, só de saber que eles estão por perto é uma tranquilidade para nós que não tem preço. Nós sabemos que, se necessária, a retaguarda dos avós está garantida. Numa viagem do casal ou numa esticada noturna, meus filhos buscam imediatamente abrigo na casa dos avós. E adoram a folia e os mimos da casa dos meus pais!

Vale deixar registrado um agradecimento especial a todos os avós. Sem eles, sem dúvida, a vida das mães que trabalham fora, e dos pais, seria bem diferente. Principalmente bem mais complicada e com muito mais insegurança.

Uma questão de escolha

[Ana Dini]

Avós, pais, empregadas, babás, escolas: esses apoios, que podem entrar em cena sozinhos ou combinados, fazem a diferença na vida de muitas mães equilibristas.

Logo depois da licença-maternidade (ou ainda durante a gravidez e a licença), nos deparamos com a escolha que teremos de fazer: onde e com quem deixar o nosso querido e amado bebê. O fato de ser um bebê complica e amplia tudo. Ele é tão pequeno, tão dependente, como ter certeza de que se está fazendo o melhor? Muitas mães não percebem que essas aflições vão durar a vida toda… de qualquer forma, tudo começa aqui.

A escolha é individual, mas ajuda se forem privilegiados alguns aspectos: pensar sobre com qual desses apoios eu me sinto mais segura como mãe e, caso não seja possível contar com apenas um, quais podem se articular sem afetar muito a rotina que eu planejo para minha casa. Pensar sobre o que seria mais importante para a criança naquele momento também ajuda, por exemplo, “gostaria que meu filho não saísse de casa” ou “gostaria que ele estivesse em um espaço com mais possibilidades de interação”.

Ajuda também pensar que nada precisa ser definitivo, a criança vai crescer e se desenvolver de um modo nem sempre previsível, então podemos ter outras idéias ao longo do caminho.       Lembro-me de que quando o meu filho nasceu, minha intenção era de deixá-lo em casa com uma empregada de confiança até os três anos. Como na época eu só trabalhava meio período, acreditei que conseguiria organizar as coisas assim. Antes de o João completar dois anos, a empregada de confiança engravidou e me deixou com uma substituta que deixava muito a desejar, mesmo sendo meio período. O João não falava quase nada e pedia diferentes possibilidades de interação então não tive dúvidas em buscar outro caminho: a escola.

De todos esses apoios, a escola parece ser a opção mais segura no que diz respeito ao compromisso estabelecido: ela não viaja a passeio, nem a trabalho, não falta, tem horário definido para chegar, ou melhor, para abrir e também para fechar. Aliás, esse pode ser um complicador ou um quesito para ajudar na escolha (algumas escolas têm flexibilidade de horário). Ao escolher a escola, assim como qualquer outro apoio, é importante ter sempre um plano B, pois a criança pode ficar doente e não poder ir à escola, ou a babá falta, enfim…

Não podemos perder de vista que a escolha, ainda que não seja para sempre, precisa ser a melhor naquele momento. Isso é importante para nos deixar seguras e felizes e nos permitir apenas continuar a equilibrar pratinhos, sem sentir culpa ou temor pela escolha que fizemos.

Ana Dini é educadora, formada pela USP-SP, especialista em Educação Infantil. Há 18 anos atende crianças e pais em escolas de grande porte. Ministra o workshop “Como falar para o seu filho ouvir”. Contato: anapdini@hotmail.com