Eu sobrevivi à primeira viagem!

[Renata Lima]

Viagens a trabalho nunca foram um problema sério para mim. Mudava a rotina, dava para correr em lugares diferentes, respirava outros ares… Bom, foi assim até minha filha nascer…

Quando soube que poderia participar de uma reunião na Argentina, mil pensamentos: ok, legal, Buenos Aires, o espanhol está em dia, hum, reunião na sexta-feira, por que não passar o fim de semana lá, meu marido poderia ir também, muito bom! Mas, e a Luísa?????? Durante oito meses, nunca tínhamos ficado uma única noite longe uma da outra. Como eu a deixaria por um fim de semana inteirinho? Pânico!

Quando “volto ao planeta Terra”, meu chefe me pergunta: “Tá tudo bem? Você poderá ir?” – “Lóóóóóóóóóógico, chefe, pode confirmar a reunião…” Saí da sala dele com os olhos arregalados… O que é que eu iria fazer?

Como eu já tinha lido o livro da Cecília, acionei rapidamente minha rede de apoio. “Reservei” minha mãe para aquele final de semana. Ela ficaria na minha casa, acompanhada pela Ângela, a babá da Luísa (que é ótima).

Os dias pré-viagem foram duros. Aproveitava cada minuto com a Luísa como se fossem os últimos. E chorava…Olhava para ela e pensava como ficaria sem mim e como eu ficaria sem ela. E chorava mais um pouco… Nesse meio tempo, a Cecília me pediu para escrever um texto sobre essa minha experiência, aproveitando que estava tudo “fresquinho” na minha cabeça… Pensei: será que o site dela é à prova d’água???

Para completar o dramalhão, ainda ouço a seguinte pérola da minha sobrinha Isabel, de cinco anos: “Tia Rê, por que você vai viajar e deixar a Luísa aqui sozinha?” – “Calma, aí, Bel, olha como você fala! Como assim, deixar a Luísa???? Eu vou viajar PORQUE EU PRECISO, não porque eu quero!!!” (eu tive que omitir a voluntária esticada do fim de semana para não morrer de tanta culpa…)

No dia da viagem, uma rápida despedida (para não chorar na frente da Luísa) e mensagens encorajadoras de minha mãe e de minha irmã. As últimas recomendações para a babá e os dedos cruzados para que o roaming internacional realmente funcionasse.

Já em Buenos Aires, um brinde à tecnologia! Recebi todos os torpedos enviados pela Ângela (sim, a babá manda torpedos!) e cada minuto me trazia a certeza de que estava tudo bem.

Na madrugada de sábado, porém, fui surpreendida por uma dor de barriga muito forte. Tão forte que foi capaz de me acordar justamente na minha primeira noite sem babá eletrônica ao lado! Que ironia do destino! Eram quatro da manhã, levantei suando frio, pálida.

No dia seguinte, bem cedo, liguei para o Brasil para saber como tinha sido a noite da Luísa. Eu tinha a certeza ab-so-lu-ta de que ela também tinha acordado de madrugada – coisa muito rara. Intuição de mãe? Logo saberia…

Eis que a Ângela me conta que “a Luísa acordou de repente, eram três da manhã (quatro da manhã na Argentina), começou a resmungar porque tinha perdido a chupeta. Depois sentou no berço e chorou. Coloquei-a no meu colo, ela chorou mais um pouco e depois dormiu ”.

Que sensação estranha! De um lado, a preocupação pela noite mal dormida da filha. De outro, o prazer de saber que nós duas temos uma conexão, mesmo à distância! Coincidência? Seja lá por qual motivo, nós duas, que nunca acordamos à noite, despertamos na mesma hora!… Quem chamou quem? Quem não deixou a outra dormir? Como tenho esse tipo de “transmissão” com a minha mãe, fiquei feliz por “isso” parecer hereditário!

Carreguei esse sentimento gostoso até o fim da viagem.

Na volta, a expectativa pelo reencontro e o controle da ansiedade. O atraso de uma hora no vôo quase me enlouqueceu. O choro no avião veio como um desabafo por não conseguir ver a Luísa acordada. Quando cheguei, confesso que tive que me segurar para não tirá-la do berço dormindo. Muito egoísmo da minha parte, pensei.

No dia seguinte, pulei da cama! Eram 5h40 da manhã quando ganhei um sorriso indescritível e inesquecível! O abraço apertado, aqueles bracinhos e perninhas se mexendo freneticamente no meu colo, aquele olhar bem no fundo dos olhos: é você mesmo???

Coisas que aprendi com essa viagem:

  1. A imensa dor da ida é compensada pelo imenso prazer da volta.
  2. “A ligação entre a mãe e a filha não se rompe. Apenas não pode ser simbiótica”, ensinou  minha mãe.
  3. Nunca mais comer sanduíche de presunto e queijo do aeroporto. Dá uma dor de barriga danada (pois é, o coitado levou a culpa…)
  4. A primeira viagem, que é a mais difícil, já foi. Quero crer que a próxima será mais fácil!
  5. Fim de semana “a dois” onde quer que seja: o casamento agradece!

    Renata Lima é administradora com mestrado em antropologia e corredora nas horas vagas.

    Lidar com o sentimento

    [Ana Dini]

    Decidir por trabalhar e deixar o filho em casa já requer da mãe uma estrutura complexa; uma viagem a trabalho exige uma reestruturação do que já foi organizado com tanta cautela. Mas não é dessa organização que eu quero falar hoje e sim dos sentimentos envolvidos nessas viagens. Sentimentos de mães e filhos.

    No ano passado fui procurada por uma mãe que, bastante ansiosa, me questionou sobre o seu filho mais velho. Sua pergunta era pontual: Como a criança lidava com o fato de ela trabalhar o dia todo e mais, precisar viajar em função do cargo que ocupava.

    Devolvi-lhe a pergunta: Como você lida? Porque é essa a questão. Somos nós que autorizamos os nossos filhos a ficarem bem ou não. Se a viagem a trabalho é necessária, pode ser produtiva e é importante para o nosso crescimento profissional e se esse crescimento profissional é importante para a nossa realização pessoal, não há filho no mundo que não entenda, ou melhor, vivencie e sinta o nosso bem estar.

    Essa mãe em especial tinha uma história bonita pra contar. Há oito meses ela tinha tido o seu segundo filho e a volta de sua licença maternidade foi celebrada com uma viagem a trabalho. Exatamente uma semana depois de sua volta, o bebê não tinha completado 5 meses ainda, ela precisaria viajar. Além disso, teria que criar e apresentar uma campanha interna da empresa em um Estado vizinho.

    Sua cabeça não respondia à sua necessidade criadora, só pensava em seu bebê. Em função disso, ela teve uma idéia. A campanha dizia respeito a um remédio novo que seria lançado no mercado e os diretores e donos da empresa estavam muito preocupados porque o produto em questão seria concorrente do seu remédio mais vendido naquele momento. Um não poderia sobrepor o outro. Como fazer?

    Voltemos à mãe. Ela viajou e no dia da apresentação, após fazer uma fala introdutória à sua campanha, a porta da sala de reuniões se abriu e nela entraram, pelas mãos de seu marido, o seu filho mais velho vestindo uma camiseta com o nome do remédio mais vendido – o carro chefe da empresa – e em seguida, entrou o seu bebê de quase 5 meses vestindo uma camisetinha com o nome do novo remédio. A mãe então, emocionada como todos da sala, continuou sua campanha dizendo que um não substituiria o outro mas sim, somaria e faria crescer a empresa, assim como fez com a sua família.

    O que as crianças envolvidas em uma história como essa podem aprender para vida? Paixão, envolvimento, competência, responsabilidade, dedicação… É isso que deve ser privilegiado, é nisso que a mãe deve pensar quando vai trabalhar, ainda que seja para ficar alguns dias longe de casa: o que os meus filhos ou filhas ganham com isso? E o como eu tenho que fazer e sentir para que eles ou elas ganhem mais? A resposta é simples: viver com intensidade. No futuro as crianças terão subsídios para buscar a felicidade em suas próprias vidas.

    Ana Dini é educadora, formada pela USP-SP, especialista em Educação Infantil. Há 18 anos atende crianças e pais em escolas de grande porte. Ministra o workshop “Como falar para o seu filho ouvir”. Contato: anapdini@hotmail.com

    Minha primeira vez

    [Ricardo Klein]

    Dizem que para tudo na vida sempre tem a primeira vez. E, sem dúvida, a chegada do primeiro filho é uma das mais emocionantes para um pai (nem preciso dizer para uma mãe). São tantos os motivos que poderia ficar aqui escrevendo linhas e linhas.

    Mas uma das coisas que mais me deixa feliz é que, com meu filho, todo dia é dia da primeira vez. Primeira vez que olha para você, primeira vez que sorri para você, primeira vez que come papinha, que anda, que chuta uma bola etc, etc.

    Pois é, mas chegou o bendito dia da primeira viagem da minha mulher a trabalho. Não vou esconder, fiquei apreensivo e com um friozinho (para não dizer friozão) na barriga.

    Eu acho que sou um pai presente e que ajuda em casa, mas confesso que não chego nem aos pés da minha mulher. E agora que teria que me virar uma semana inteira sozinho com o João, eu fiquei gelado.

    Um mês antes do dia D (dia da despedida) eu pensava: está longe, relaxa… Mas com uma semana para o dia D eu já não estava mais tão calmo assim. Está chegando, está chegando…era tudo que vinha à mente. Relaxar? Nem pensar.

    Para facilitar (muito) a minha vida, e para ela ficar mais segura, minha mulher fez uma verdadeira planilha com a rotina do João. Acorda tal hora e faz isso, dá tantos ml de leite e mistura com 2 colheres de farinha láctea, roupas quentes na terceira gaveta…e por aí vai.

    Muitas informações eu sabia, mas fui perceber que é sempre bom ter uma colinha sempre à mão. Na hora do aperto e da correria a planilha foi salvadora.

    O João tem um ano e 6 meses. Acha que fala tudo, mas não fala nada. Quer dizer, a mãe dele entende tudo. Eu é que não entendo quase nada.

    Minha primeira noite sozinho foi de insônia forçada. Como eu durmo muito bem, e nem escolas de samba me acordam, estava morrendo de medo de não acordar caso o João chorasse. Santa babá eletrônica! Para não correr o risco, coloquei o aparelho grudado na minha cama, deixei o volume no máximo e fui dormir.

    No dia seguinte, acordei com o ouvido zunindo mas valeu a pena. O João estava calmo no berço e a primeira coisa que fez quando me viu foi falar mamãe. Não dei bola e fui tirá-lo do berço. Ele, de novo, chamou pela mãe. Tentei explicar que naquela manhã (e nas seis seguintes, mas isso eu não falei) seria o papai que pegaria ele no berço. Parece que ele entendeu o recado porque na mesma hora desatou a chorar. Para ser sincero, parecia mais berrar, o que me deixou meio tenso para tentar acalmá-lo.

    Quebrei a regra da planilha, que dizia que eu deveria ir direto para a mamadeira, e perguntei se ele queria jogar bola comigo. Como ele é alucinado por bolas, achei que seria uma boa. Funcionou! O choro foi parando e depois de 5 minutos estávamos nós, às 6h10 da manhã chutando bola na varanda e gritando gooooool para a alegria de todos os vizinhos.

    Com a exceção do almoço, que ficou por conta da babá, o café da manhã e o jantar eram minha responsabilidade. No fundo, até que me saí bem. O café ainda é à base de mamadeira, o que facilita bastante, e o jantar era só esquentar o prato já preparado pela babá e dar pra ele comer. Cheguei a pensar em dizer para a babá racionar no lanchinho da tarde, para facilitar minha vida no jantar, mas resolvi encarar o desafio e fazia em uma hora o que minha mulher faz em 20 minutos.

    O banho era minha redenção. Essa área eu domino, pensei confiante. Afinal, ele toma banho comigo quase todos os dias. Nada de banheirinha! Vou encarar o banho no box, como sempre faço e ele adora. O que eu tinha esquecido é que minha mulher sempre está lá para pegar o João enquanto eu termino meu banho. Agora, eu tinha que tomar banho e dar banho nele ao mesmo tempo. Me enxugar e enxugar o João. O primeiro banho foi uma catástrofe, pois com medo dele ficar com frio, saí do box molhado e arrumei ele todinho. Nem preciso dizer como ficou o apartamento.

    Às 20h30, quando coloquei ele para dormir, percebi o quanto estava quebrado de cansaço e o quanto ainda tinha que fazer: enxugar o rastro molhado que deixei, limpar a mesa do jantar (parecia que um batalhão tinha passado por lá), arrumar a cozinha, recolher as roupinhas sujas dele, separar o conjunto para o dia seguinte. Sem contar as coisas que precisava fazer para mim mesmo. É, seria uma longa semana.

    No dia seguinte ele acordou pedindo pela mãe de novo. Quando me viu, ao invés de falar papai (o que me deixaria extremamente feliz) ele falou gooool. Que me desculpem os vizinhos, mas lá fomos nós para a varanda mais uma vez…

    Depois do terceiro dia, peguei o jeito e as coisas foram mais tranqüilas. Dias melhores e dias piores, confesso. A planilha não saiu do meu bolso, pois não tive como decorar quando é que deveria usar o bico número 4 da mamadeira, o número de colheres de Sustagem, a marca específica do docinho de fruta que tive que comprar no supermercado etc.

    Mas valeu a pena! Muito. Foi uma semana intensa, onde chegava em casa e ficava em função do João por toda a noite. Não assisti o jornal durante meu jantar, não entrei na internet, não vi meus seriados. Por outro lado, hoje causo inveja nos outros pais, pois sei cantar todas as músicas do HI-5 e sou íntimo de toda a turma dos Backyardigans. Posso dizer que estou pronto para mais uma. Mas, sinceramente, espero que demore um pouquinho.

    O administrador de empresas Ricardo Klein é gerente de marketing e projetos e marido de Paula Hsieh (veja post anterior).

    Matar a saudade é uma delícia

    [Paula Hsieh]

    Parti para Europa, onde fui visitar o Salão Internacional de Design do Móvel,  os eventos e lojas de Milão durante uma semana em abril, com a tranqüilidade de quem conta com uma boa retaguarda e  deixando tudo organizado em casa.

    É claro que, uma semana antes da viagem, ainda estava um pouco apreensiva, na dúvida se ia ou não. Mas o Caco, meu marido, já conhece muito do dia-a-dia do João, nosso filho de 1 ano e oito meses, e dá conta do recado. Além disso, a babá está acostumada com o bebê em casa, por isso optamos por manter a rotina dele inalterada.

    Lá em Milão, como não parei, o tempo passou rápido. Quando tinha um momento para pensar na saudade do João, era consolada por uma amiga arquiteta que viajou comigo, deixando o marido e três filhos – o menor deles pouco mais velho que o João – no Brasil.Cada uma revelou os esquemas que armou para poder viajar; falávamos das crianças em todos os intervalos. Mas, longe de casa, aproveitamos para admirar a moda, folhear revistas e olhar vitrines – coisas de menina que também fazem falta de vez em quando, principalmente quando a prioridade é cuidar de filhos pequenos.

    Eu só fiquei com o coração mais apertado quando não conseguia ligar de Milão ou então não achava ninguém em casa bem na hora em que podia telefonar! Um dia o João reconheceu minha voz do outro lado da linha e desandou a chorar. Em outro, teve um febrão (descobri isso só na volta da viagem), o que é uma típica maneira de expressar a falta que sentia da mãe. Mas a febre passou rápido e ele logo se ligou mais ao pai, tanto que na semana seguinte falava muito sobre o Caco e as coisas que fizeram juntos. Acho que o vínculo entre os dois aumentou. Na minha volta, percebi que o João ficou com saudade, vinha me abraçar muito: aliás, é uma delícia matar a saudade depois da viagem!

    Se eu considerar meu desenvolvimento profissional, sem dúvida, só saí ganhando. Uma viagem dessas serve como respiro e como reciclagem. Foi tudo tão bom que combinamos, minha amiga e eu, de voltar a Milão a cada dois anos! Meu marido, que é um pai dedicado, reconhece e admira esse meu papel de mãe e profissional, com certeza vai me incentivar.

    Paula Hsieh Klein, arquiteta paulista, mulher de Ricardo Klein e mãe de João.

    Mãe prevenida vale por duas

    [Maggi Krause]

    PLANILHA DA MÃE PREVENIDA

    Uma boa apresentação de negócios segue um roteiro, uma visita de executivo acompanha uma agenda, aquela reunião com o novo cliente tem uma recomendação… Pois é, quando se trata de garantir o bem-estar e a saúde dos filhos, nada mais prudente do que mostrar a mesma eficiência e organização antes de sair em viagem.

    Dicas úteis:

    1 – Planeje quem vai tomar conta da criança e deixe alguém de stand by (pregue telefones de contato do pai, do pediatra e dessa pessoa estepe na geladeira de casa).

    2 – Organize uma planilha ou resumo com a rotina seguida pela criança, com horários, costumes e manias, tipos de comida e medidas. Exemplo:

    • 6:30 Acorda e toma mamadeira 270ml de leite com Sustagen (2 cl de chá) e Farinha Láctea (1 cl de chá). Costuma tomar café com a gente.
    • 9:30 Toma suco e às vezes dorme
    • 12:00 Almoço e sobremesa (fruta de preferência)
    • 13:00 Se ele não dormiu de manhã, banho e soneca depois do almoço.
    • 15:30 Lanche – Ades com bolacha ou bisnaguinha, danoninho Se ele dormiu de manhã, banho e soneca
    • 18:30 Jantar e sobremesa
    • 20:00 Banho com o papai, mamadeira 240ml e berço

    3 – Anote os remedinhos, com horários e doses recomendadas. É uma boa escrever as medidas diretamente no rótulo do frasco, se for homeopatia. Deixe à mão também anti-térmico, anti-alérgico e pomadinhas úteis, como as que aliviam picadas de insetos. Deixe telefone e celular do médico sempre anotado em local visível.

    DIVERSÃO NA SUA AUSÊNCIA

    Vovôs, tios e o papai podem e devem levar as crianças para se divertir na ausência da mãe! Bons programas não faltam, principalmente em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro. O site http://peprafora.uol.com.br/ indica peças de teatro, cinema, passeios, shows e exposições para crianças de todas as idades nestas duas capitais. Tudo com resenhas, endereços, horários, preços. Um prático calendário e até uma janelinha para conferir a previsão do tempo nos próximos dias ajuda a família a se programar.

    CASA RECHEADA DE LIVRINHOS

    Uma sala de leitura com estantes, cadeiras e poltronas na medida para a garotada é um dos trunfos da Casa de Livros, um lugar gostoso para levar os pequenos em dias de chuva (ou sol). A livraria de Denize Bianchi Carvalho e Maria Angela Prado organiza contação de histórias aos sábados, e tem uma programação intensa (e gratuita) que vale conferir pelo site. Escritoras famosas, como Ruth Rocha e Tatiana Belinky, já autografaram livros por lá durante o projeto Autor na Casa, que incentiva o contato de ilustradores e escritores com as crianças. R. Cap. Otávio Machado, 259, Chácara Santo Antônio, São Paulo, tel.: 5182-4227; de seg a sex, 8h/18h; sáb, 9h/13h www.casadelivros.com.br

    Bebê internacional

    [Cecília Troiano]

    Quando o Gabriel tinha apenas 5 meses, surgiu uma viagem profissional para Buenos Aires. Era uma reunião de dois dias inteiros, esquema workshop, num hotel. Não tinha como faltar.

    Mas a decisão não era tão simples. Como ir, se o Gabriel ainda mamava no peito? Não queria desmamá-lo ainda, já que estava conciliando bem o meu trabalho com fugidas para mamadas a cada 4 horas. Parar de amamentar estava fora de questão. A solução? Já que a “mamadeira” iria, seria imprescindível levar o Gabriel comigo.

    Surge a segunda dúvida: o que eu faria com o Gabriel se estaria em uma reunião durante dois dias inteiros? Mais um dilema e uma busca de solução rápida. Aliás, ser mãe equilibrista é também quebrar a cabeça e pensar em soluções boas em curto espaço de tempo. Levar minha babá de São Paulo comigo não dava, pois ela teria de cuidar de minha filha de 3 anos. Lembrei-me de uma amiga que morava em Buenos Aires. Contatei-a e, por meio dela, localizei uma babá peruana que faria um free-la e ficaria com o Gabriel, no próprio hotel, durante minhas horas de reunião.

    E lá fomos nós dois, o Gabriel com passaporte e tudo, em sua primeira viagem profissional e já internacional. A babá, chamada Rosa, era super-recomendada e com boas referências. Passeou por todo o hotel e eu dava escapadas estratégicas para amamentar nas horas da fome.

    Final da história: consegui atender um cliente importante, ter a presença de meu filho de 5 meses e não deixar de amamentá-lo. Foi uma experiência riquíssima para mim. E, hoje, o Gabriel aos 11 anos tem muito orgulho de contar para os amigos que foi com 5 meses a Buenos Aires para trabalhar!

    Loretto vai a Paris

    [Márcia Carini]

    Mal saí da sala do chefe, liguei para o meu marido: “Olha, você vai ter que arranjar uns dias de férias e um dinheiro também: em novembro, nós vamos viajar para a França”.

    Eu tinha acabado de saber que faria a cobertura jornalística de uma feira em Paris e nem cogitava a possibilidade de ficar longe do Loretto (então com 1 ano e meio de idade). O Maurício, que é tão maluco quanto eu, topou na hora.

    De maneira geral, as pessoas (colegas de trabalho, familiares e amigos) olharam bem torto para a gente. “Tem certeza? Vôo internacional…ele é tão pequeno. E se ficar doente, e se doer o ouvido?…”. Sei que essas preocupações são válidas. Mas com o Loretto, a coisa é diferente: ele está com a gente o tempo todo, em qualquer lugar, a qualquer hora e topa qualquer parada. Come de tudo (e bem!) e nunca chora. E ele já falava tudo – portanto, se sentisse alguma dor, saberia expressar o que doía. Outro ponto importante: o Maurício segura as pontas como pai – ele dá banho, troca fralda, dá comida, tem paciência – então, poderia ficar tranqüila enquanto estivesse trabalhando.

    No avião, como o Loretto paga só 20% da passagem, teoricamente ele ia ter que ficar no meu colo. Felizmente, o vôo não estava cheio e ele conseguiu um lugar só para ele ao meu lado. Conversou com as pessoas ao redor, dizendo que ia a Paris, comeu e dormiu. Só acordou no dia seguinte, para tomar o café da manhã. Já em Paris, quando saímos pela primeira vez nas ruas, ficou extasiado com as cores das árvores e corria sobre as folhas caídas no chão. Era outono. Meu trabalho começaria na segunda-feira, mas eu cheguei na cidade na sexta anterior. Só cometemos um erro: não levamos carrinho. O que significava, em vários momentos, ter que carregar o Loretto nos braços. No domingo fomos à Galeria Lafayette e compramos um carrinho guarda-chuva, bem levinho.

    Também no domingo, fiz o check in no hotel pago pela empresa. O Maurício e o Loretto pagaram um extra para se hospedar no mesmo quarto que eu. O Loretto mamava pela manhã (ah, sim…ele mama no peito ainda – sou adepta da amamentação prolongada…), eu tomava banho, café e ia trabalhar. Maurício e Loretto começavam então sua rotina preguiçosa: tomavam café tarde, o Loretto tomava banho de banheira, eles preparavam um lanche para levar à rua e saíam. Viajar com criança pequenina significa percorrer o Louvre inteiro em minutos, mas passar horas brincando com uma pombinha na rua. Dessa forma, o Maurício zanzava de acordo com o humor do Loretto. Por volta das 15h, invariavelmente, ele dormia no carrinho e o Maurício continuava pela rua, caminhando.

    À noite, quando eu chegava, ele já estava todo agasalhado para nosso terceiro turno: cada dia escolhíamos um restaurante diferente. O Loretto ficava acordado até uma da manhã, num frio de 2 graus. Colocávamos o plástico protetor no carrinho e ele achava aquilo o máximo. Nas mil e uma escadas de metrô de Paris, o Maurício segurava o carrinho com o Loretto dentro – sim, isso é cansativo.

    Quando a feira acabou, a gente ficou em Paris mais dez dias aproveitando um restinho de férias. Viajamos de trem até Borgonha e, lá, alugamos um carro. Puxa, que diferença – quando a gente tem um carro, se sente bem mais em casa, pois pode carregar aquele monte de tralhas que uma criança pede: carrinho, bolsinha de trocar, suco, pão…até brinquedo.

    Na volta, no avião, o Loretto teve que ficar no meu colo. O vôo estava cheio. Como na ida, o Loretto comeu, explorou um pouco o espaço e dormiu. Na manhã seguinte, o rapaz que sentava ao nosso lado fez o seguinte comentário: “Nossa, eu nunca durmo em avião e, quando vi vocês chegando com o bebê, pensei que ia ser uma noite terrível… Mas vendo como o pequeno dormia gostoso e até ressonava, eu acabei pegando no sono também. Foi meu melhor vôo!”. Isso nos encorajou: agora é o Maurício que vai a uma feira na Alemanha. Já reservamos nosso vôo e o aniversário de dois anos do Loretto vai ser comemorado na Europa. Depois eu conto tudo!

    Márcia Carini é jornalista, estudante de chinês e editora do site www.casa.com.br