Apoio na corda bamba

[Moraes Eggers]

Minha mulher tornou-se executiva ao mesmo tempo que recebíamos nosso filho em casa. Assumi a condição de “Pãe”, mistura de pai com mãe ou, até melhor, de “Babai”, um mix de babá com pai.

No ano passado, minha mulher, Cristina, foi contratada para o trabalho mais importante de sua vida: ser diretora na maior editora do país. É um cargo sonhado, a consagração de uma carreira. E ela sempre foi uma profissional competente, superpreparada e acima da média. Estamos juntos há 18 anos e sempre privilegiamos nossas carreiras. Além disso, como mulher e ótima esposa, ela sempre acalentou o desejo de ser mãe.

Por seis anos tentamos ter um bebê, sem sucesso. Como queríamos ser pais, partimos para a adoção. Por isso, quando me telefonaram do Fórum de Santo Amaro, em São Paulo, avisando que havia um bebê com 40 dias à nossa espera, tive a mesma sensação que, imagino, um pai deve ter ao saber que seu filho nasceu. Nosso filho havia nascido para nós! Liguei para a Cris e choramos juntos, tamanha a emoção e a alegria.

Cristina estava trabalhando havia menos de 20 dias, organizando um novo departamento e sua equipe. Em um cargo de confiança, em início de empreitada, por isso não poderia tirar os quatro meses de licença-maternidade. Não vacilei em deixá-la tranqüila para encarar seus novos desafios: o de ser executiva e o de ser mãe. Aproveitando o fato de estar trabalhando em casa, assumi a condição de “Pãe”, mistura de pai com mãe ou, até melhor, de “Babai”, um mix de babá com pai.

Há alguns anos, escrevi um livro com a biografia de John Lennon e nunca esqueci de um fato na vida do ex-Beatle que, durante os primeiros cinco anos de vida de seu segundo filho, Sean, abandonou tudo para se dedicar exclusivamente a ele. Ele e Yoko Ono haviam montado a Lenono, uma empresa para cuidar da carreira e dos negócios de John, como direitos autorais e coisas do tipo. Ela assumiu a direção, confessando que o lado maternal não era seu forte. John estava muito contente em passar todas “essas coisas chatas de números e negócios” para alguém em quem ele confiava. Ela passava o dia inteiro no andar térreo do Dakota, onde funcionava o escritório da Lenono. Ele se dedicava a criar o filho no 7° andar, contando com o auxílio de uma equipe de funcionários e domésticas.

Infelizmente, não tenho tanto dinheiro como Lennon tinha, mas, até hoje, ainda estou conseguindo conciliar meu trabalho (agora o de escrever livros) com os cuidados com o André, que está com 11 meses. A dura rotina corporativa da Cris faz com que ela fique fora quase o dia todo. Entra no trabalho por volta das 10h e retorna para casa lá pelas 20h30, 21h. Nossa empregada chega às 7h30 e vai embora às 16h30. Eu ajudo nas tarefas com o bebê também neste período, saindo para passear com ele e fazendo intervalos no trabalho para dar uma mamadeira ou papinha, trocar a fralda ou até mesmo brincar um pouco. Depois desse horário, assumo sozinho o controle até a festejada chegada da mamãe em casa.

Sou o responsável pelo seu banho e pela última mamadeira antes de ele dormir. Às vezes, a Cris ainda consegue chegar a tempo de fazer isso e curtir o filhote. Nos finais de semana, nos ajudamos para cumprir a rotina diária do André. E estamos vivendo muito felizes. Ser pai ou mãe é uma grande responsabilidade, que deve ser assumida de forma incontestável. Incluindo nisso o fato de que se tem de abrir mão de uma série de coisas. A prioridade passa a ser outra, diante de um ser que precisa de todo cuidado, carinho e amor.

O apoio de um para o outro e para nosso filho é fundamental para que possamos viver normalmente e criá-lo da forma mais correta possível, sem carências ou traumas. E acho que isso é que dá forças para que ela continue desempenhando bem seu papel no trabalho e mesmo em casa.

Assim como no caso da carreira profissional, em que percorremos uma trajetória dura, às vezes sofrida, para se alcançar o sucesso no futuro, também a maternidade e a paternidade exigem um preparo ao longo dos anos de nossas vidas para que possamos ser dignos de nossos cargos de diretores de uma nova vida. E ver nosso filho crescer forte e saudável, na corda bamba do dia-a-dia, certamente, é o melhor “salário” que podemos ter!

Moraes Eggers, 46 anos, é jornalista e escritor.

Vida de empresária: uma reflexão

[Ricardo Longo]

Minha mulher, a Chri, é uma micro-empresária. Abriu sua empresa há pouco mais de um ano, quando a Dora estava com 1 ano e 3 meses (hoje ela tem 2 anos e meio).

Trata-se do “Lugar de Arte – Atelier Infantil” (www.lugardearte.com.br), um local voltado para o desenvolvimento de crianças por meio da expressão artística. E está indo muito bem.

Além do sonho antigo de ter o próprio negócio, num ramo – educação – que ela domina amplamente e tem prazer em trabalhar, pesou na decisão a idéia de que não sendo funcionária de alguma empresa, ela teria mais liberdade para fazer seus próprios horários e ditar seu próprio ritmo. Desta forma, pensava, teria mais tempo para si, assim como poderia exercer com mais facilidade seus outros papéis, de mãe e esposa.

Nesses 15 meses de existência do Lugar de Arte, tiro para mim dois aprendizados, que tenho a oportunidade de compartilhar com vocês agora:

1. Sim, é verdade que a maior liberdade de horários existe e realmente facilita em alguns momentos – como quando a Dora fica uma semana doente e não há aquele “mal estar com o chefe” por chegar um pouco mais tarde ao trabalho todos os dias e talvez até faltar uma manhã toda. Ou na sexta-feira à tarde, quando é possível decidir ir para a praia logo após o almoço. Além disso, lógico, também é ótimo poder decidir os rumos da sua empresa, sentir a realização de ver o seu próprio negócio crescendo etc.

2. Por outro lado, pude comprovar na prática algo que já sabia na teoria mas não achava ser tão marcante: ser empresária significa trabalhar mais e sob mais pressão do que como funcionária. Trata-se de algo difícil de compreender sem a vivência própria, mas a verdade é que o envolvimento é sempre muito maior.

Mas por que é assim? Tenho algumas suposições:

Penso que, normalmente, quando trabalha-se “para alguém”, a gente faz parte de uma engrenagem, de um sistema que funciona à nossa volta, e as atribuições e responsabilidades são mais bem definidas. Além disso, outra pessoa (não nós mesmos) cria expectativas sobre nós que podemos ou não conseguir alcançar.

Quando se é empresário, além de exercer uma função específica na empresa, a gente é responsável por todas as engrenagens. Somos também responsáveis por criar expectativas sobre nós mesmos e saber dosar a auto-cobrança. E ainda por cima o retorno financeiro não é garantido, portanto o risco é maior.

A Chri, por exemplo, exerce a função “fulltime” de coordenadora pedagógica do Lugar de Arte, mas além disso é também responsável por:

  • decisões de investimento e trabalhar para conseguir o retorno
  • gestão estratégica do negócio
  • aquisição e manutenção de clientes
  • gestão de pessoas
  • controle de custos
  • gerenciamento da imagem da marca

São muitas as noites em que eu a vejo no computador até mais tarde escrevendo relatórios, enviando e-mails, analisando currículos, pesquisando coisas na Internet, acessando o site do banco, fazendo contas, preparando materiais de divulgação, preparando materiais para reuniões com pais ou com suas professoras e por aí vai…

Todos esses fatores, na minha visão, tendem a aumentar muito o sentimento de culpa que normalmente já ronda a cabeça das equilibristas. Sendo empresária, é necessário saber lidar ainda melhor com isso.

Por exemplo, quando a decisão sobre os horários e a rotina de trabalho é sua, estar ausente do marido e dos filhos é responsabilidade própria. Por outro lado, privilegiar a família, ou a si mesma, em detrimento da empresa também aumenta a culpa de não estar se dedicando ao máximo pelo sucesso do negócio.

E o maridão, como se encaixa nessa história?

Do meu lado, tento ajudar o máximo que posso com a empresa e, modéstia à parte, acho que ajudo bastante. Ajudei a construir o site (www.lugardearte.com.br), preparo planilhas financeiras, lido com o contador, dou orientações sobre como lidar com fornecedores, instalo coisas na parede, lido com o empreiteiro que faz as reformas etc. Tudo logicamente no ramo mais “administrativo”, pois no lado pedagógico ela é craque.

Ajudo também com a Dora em momentos em que ela precisa trabalhar fora do horário (fins de semana por exemplo) e tento também fazê-la aceitar melhor o fato de que ser empresária significa mais trabalho e mais responsabilidades.

Finalizando:

Portanto o meu recado para equilibristas que já são empresárias ou que estão pensando em tomar a decisão de abrir um negócio, é:

A escolha pelo papel de empresária deverá ser baseada, logicamente, na oportunidade e viabilidade do negócio e, principalmente, na satisfação profissional e pessoal que um empreendimento próprio pode vir a trazer. E só. Não tenham a ilusão de que isto torna, ou tornará algum dia, a tarefa de equilibrista mais simples. Ao contrário, trata-se de um conjunto extra de pratos para equilibrar.

Não quero que pareça, de forma alguma, que estou desencorajando ninguém a iniciar-se (ou continuar) na condição de empresária. Amo minha mulher também por seu lado profissional; pela sua coragem e capacidade empreendedora.

Apenas convido à reflexão sincera e verdadeira sobre os motivos e expectativas desta possível intenção. Ter um negócio próprio deve ser encarado muito mais como um desafio gratificante e não como um “atalho” para facilitar a Vida de Equilibrista.

OBS – Ricardo é marido da Christina, entrevistada para o assunto Mães Empresárias (veja tags).

Carinho sim, grude não

[Sergio Spalter]

Claro que eu gostaria de ter uma licença-paternidade, principalmente sendo pai do terceiro filho e tendo que administrar várias situações novas após a chegada dele!

Mas, se eu pudesse realmente escolher, daria a minha parte da licença para a Natália, que é quem de fato tem acordado várias vezes à noite para cuidar dele e, por ser autônoma como eu, precisou voltar precocemente ao trabalho.

Dizem que na Suécia a mãe tem dois anos de licença e o pai um.Eu ficaria feliz com dois meses. Mais do que isso, dá um pouco de medo de acostumar. Sou pediatra e sempre vejo o suplício que é para as mães, principalmente no primeiro filho, terem que voltar ao trabalho.

Quanto mais perto do dia da volta, mais grudada a mãe fica com a criança. Isso também não é bom…

Claro que é natural pensar na criança, no fato de ficar longe dela, do sofrimento que isso pode gerar. Mas o sofrimento sempre é maior na mãe, que além de exausta, fica culpadíssima e esgotada. Não precisa ser assim. Ficar um pouco longe de casa é até saudável. E a criança precisa de um pouco de espaço, senão sufoca! Tudo é uma questão de equilíbrio. O importante, eu acho, é não sofrer a toa.

Sergio Spalter é médico pediatra, pai de Aninha, Alice e Alex e escreve em 3 blogs! www.drspalter.com

Minha primeira vez

[Ricardo Klein]

Dizem que para tudo na vida sempre tem a primeira vez. E, sem dúvida, a chegada do primeiro filho é uma das mais emocionantes para um pai (nem preciso dizer para uma mãe). São tantos os motivos que poderia ficar aqui escrevendo linhas e linhas.

Mas uma das coisas que mais me deixa feliz é que, com meu filho, todo dia é dia da primeira vez. Primeira vez que olha para você, primeira vez que sorri para você, primeira vez que come papinha, que anda, que chuta uma bola etc, etc.

Pois é, mas chegou o bendito dia da primeira viagem da minha mulher a trabalho. Não vou esconder, fiquei apreensivo e com um friozinho (para não dizer friozão) na barriga.

Eu acho que sou um pai presente e que ajuda em casa, mas confesso que não chego nem aos pés da minha mulher. E agora que teria que me virar uma semana inteira sozinho com o João, eu fiquei gelado.

Um mês antes do dia D (dia da despedida) eu pensava: está longe, relaxa… Mas com uma semana para o dia D eu já não estava mais tão calmo assim. Está chegando, está chegando…era tudo que vinha à mente. Relaxar? Nem pensar.

Para facilitar (muito) a minha vida, e para ela ficar mais segura, minha mulher fez uma verdadeira planilha com a rotina do João. Acorda tal hora e faz isso, dá tantos ml de leite e mistura com 2 colheres de farinha láctea, roupas quentes na terceira gaveta…e por aí vai.

Muitas informações eu sabia, mas fui perceber que é sempre bom ter uma colinha sempre à mão. Na hora do aperto e da correria a planilha foi salvadora.

O João tem um ano e 6 meses. Acha que fala tudo, mas não fala nada. Quer dizer, a mãe dele entende tudo. Eu é que não entendo quase nada.

Minha primeira noite sozinho foi de insônia forçada. Como eu durmo muito bem, e nem escolas de samba me acordam, estava morrendo de medo de não acordar caso o João chorasse. Santa babá eletrônica! Para não correr o risco, coloquei o aparelho grudado na minha cama, deixei o volume no máximo e fui dormir.

No dia seguinte, acordei com o ouvido zunindo mas valeu a pena. O João estava calmo no berço e a primeira coisa que fez quando me viu foi falar mamãe. Não dei bola e fui tirá-lo do berço. Ele, de novo, chamou pela mãe. Tentei explicar que naquela manhã (e nas seis seguintes, mas isso eu não falei) seria o papai que pegaria ele no berço. Parece que ele entendeu o recado porque na mesma hora desatou a chorar. Para ser sincero, parecia mais berrar, o que me deixou meio tenso para tentar acalmá-lo.

Quebrei a regra da planilha, que dizia que eu deveria ir direto para a mamadeira, e perguntei se ele queria jogar bola comigo. Como ele é alucinado por bolas, achei que seria uma boa. Funcionou! O choro foi parando e depois de 5 minutos estávamos nós, às 6h10 da manhã chutando bola na varanda e gritando gooooool para a alegria de todos os vizinhos.

Com a exceção do almoço, que ficou por conta da babá, o café da manhã e o jantar eram minha responsabilidade. No fundo, até que me saí bem. O café ainda é à base de mamadeira, o que facilita bastante, e o jantar era só esquentar o prato já preparado pela babá e dar pra ele comer. Cheguei a pensar em dizer para a babá racionar no lanchinho da tarde, para facilitar minha vida no jantar, mas resolvi encarar o desafio e fazia em uma hora o que minha mulher faz em 20 minutos.

O banho era minha redenção. Essa área eu domino, pensei confiante. Afinal, ele toma banho comigo quase todos os dias. Nada de banheirinha! Vou encarar o banho no box, como sempre faço e ele adora. O que eu tinha esquecido é que minha mulher sempre está lá para pegar o João enquanto eu termino meu banho. Agora, eu tinha que tomar banho e dar banho nele ao mesmo tempo. Me enxugar e enxugar o João. O primeiro banho foi uma catástrofe, pois com medo dele ficar com frio, saí do box molhado e arrumei ele todinho. Nem preciso dizer como ficou o apartamento.

Às 20h30, quando coloquei ele para dormir, percebi o quanto estava quebrado de cansaço e o quanto ainda tinha que fazer: enxugar o rastro molhado que deixei, limpar a mesa do jantar (parecia que um batalhão tinha passado por lá), arrumar a cozinha, recolher as roupinhas sujas dele, separar o conjunto para o dia seguinte. Sem contar as coisas que precisava fazer para mim mesmo. É, seria uma longa semana.

No dia seguinte ele acordou pedindo pela mãe de novo. Quando me viu, ao invés de falar papai (o que me deixaria extremamente feliz) ele falou gooool. Que me desculpem os vizinhos, mas lá fomos nós para a varanda mais uma vez…

Depois do terceiro dia, peguei o jeito e as coisas foram mais tranqüilas. Dias melhores e dias piores, confesso. A planilha não saiu do meu bolso, pois não tive como decorar quando é que deveria usar o bico número 4 da mamadeira, o número de colheres de Sustagem, a marca específica do docinho de fruta que tive que comprar no supermercado etc.

Mas valeu a pena! Muito. Foi uma semana intensa, onde chegava em casa e ficava em função do João por toda a noite. Não assisti o jornal durante meu jantar, não entrei na internet, não vi meus seriados. Por outro lado, hoje causo inveja nos outros pais, pois sei cantar todas as músicas do HI-5 e sou íntimo de toda a turma dos Backyardigans. Posso dizer que estou pronto para mais uma. Mas, sinceramente, espero que demore um pouquinho.

O administrador de empresas Ricardo Klein é gerente de marketing e projetos e marido de Paula Hsieh (veja post anterior).

Simplesmente pai

[Daniel Billio]

Cresci sem pai numa família repleta de mulheres. Meu avô e um tio faziam o papel de figuras masculinas, mas como não apitavam quase nada na rotina da casa, cresci com a certeza de que as mulheres mandavam no mundo. Ao longo dos anos fui trabalhando calmamente o meu Édipo – às vezes nem tanto – e, sem complexos, me apaixonando por mulheres fortes. Casei e, chegada a hora de perpetuar a espécie, adivinhem o que eu pus no mundo? Uma menina. Dois anos depois, pus outra. Agora vivo, definitivamente, cercado de mulheres por todos os lados.

Essa estreita convivência com o universo feminino causou em mim uma distorção na percepção das diferenças entre homens e mulheres. Na verdade nunca percebi diferença alguma, salvo as anatômicas, claro. Não sei se as mulheres da minha família eram muito masculinas, e os homens muito femininos, o certo é que pra mim era tudo igual. Era. A paternidade curou minha miopia. Não existe nada mais diferente do que um pai e uma mãe. Se o pai é homem e a mãe é mulher, logo, não existe nada mais diferente do que um homem e uma mulher. Gênio!

Como eu já disse, cresci sem pai. Essa ausência – que pelas minhas contas já custou uma casa confortável em Camburi, só de terapia – me deu a oportunidade de ser pai do zero. O pai que eu sou é uma invenção minha. Provavelmente sou o pai que eu gostaria de ter tido. Bom, esse pai que eu inventei pras minhas filhas é conhecido no mercado como o “pai participativo”. Uma espécie de semideus, um tipo evoluído de homem capaz de dar banho, trocar fraldas, cozinhar e dar o almoço, botar pra dormir, levar no balé e combinar direitinho a roupa pra sair. Eu não sou um pai participativo, eu sou uma mãe, certo? Errado. Nada é aparentemente assim tão simples. Minha mulher vai ser capaz de perceber pequenos detalhes em todas essas ações que me desqualificam sem dó nem piedade para o papel de mãe. Detalhes que só uma mãe percebe. Detalhes forjados numa combinação de perfeição, culpa, ciúme, posse e um tipo de afeto que homem nenhum consegue entender, por mais feminino ou participativo que seja. No filme Cassino, de Martin Scorcese, o gângster interpretado por Robert de Niro diz uma frase que poderia sair perfeitamente da boca de uma mãe: “Existem três maneiras de fazer as coisas na vida. A certa, a errada e a minha.”

Minha mulher é uma equilibrista. Às vezes por necessidade, às vezes por gosto. E, como diria minha avó, “quem corre por gosto não cansa”. Como tudo que exige técnica, quanto melhor você fica, mais longe quer ir. Cansei de tentar entender por que minha mulher exige tanto dela própria, das meninas, de mim. Também não sofro mais por não conseguir agir como ela agiria. Desisti de tentar ser mãe e estou me divertindo com o papel de pai. Aliás, sem essa de participativo. Simplesmente pai. Faço o que posso e ajudo porque gosto. Nos dias em que o número de equilibrismo falha, me contento com o papel de rede de segurança. Tá bom demais.

Daniel Billio é roteirista e diretor de TV e, se dinheiro caísse do céu, teria mais filhas.

Relações, casinha e perfeição

[Calé]

Deus, que para alguns não existe, tem lá suas idéias de como as coisas devem ser. O que mais me chama a atenção é a idéia de que as coisas partindo Dele são perfeitas. Se for assim, só partindo Dele mesmo. Além disso, acho que Ele, além de ter as razões para fazer as coisas como faz, é um gozador.

Cresci ao lado de duas irmãs, uma mãe muito presente e um lote de amigas. Por alguma razão, o plano que Deus fez para mim envolveu sempre a presença feminina. E confesso, docemente contrariado, que não foi fácil. Desde a mais tenra idade meninas brincam de casinha. E continuam depois, não importa qual a idade. Já ali na aurora das coisas estavam fundamentos bem sólidos como “eu sou isso, você aquilo” ou “primeiro a gente faz assim e depois assado”. Democraticamente participei (e muito) de tudo.

Felizmente tive um filho. Seu nome é Pedro e, tirando o(s) filho(s) que você, leitor ou leitora possam ter, é a coisa mais bacana do mundo e incomparável. Além do mais, me dá a oportunidade de exercer a paternidade na íntegra e do jeitão mais masculino possível, ou seja, se eu entender que preciso parto pra cima sem medo no melhor estilo latino, cultivado a gritos e pontapés pelos cinco séculos que formam nossa história.

Ah, mas se fosse uma menina… estaria perdido. Uma menina faria de mim gato, sapato e tamborim. Olhando tanto pelo lado bom quanto pelo mau. Seria incapaz de falar mais alto ou administrar os momentos mais críticos com um tranco bem dado. Eis o legado que a convivência com as mulheres me deixou: apesar de me dar vontade, sei que não devia tratar a criança de forma truculenta.

Até hoje causo espanto quando digo que assisti (já é estranho) As Pontes de Madison. E fui além: gostei. Toda a dificuldade que rondou a pobre Meryl Streep durante a fita me deixou bem sensibilizado. E olha que nem dá para culpar o Clint Eastwood, pois ele tenta melhorar a vida dela. O caso é que tanto para o plano divino, para a convivência em qualquer nível ou para um simples filminho quase desconhecido, o modo com o qual homens e mulheres tratam as coisas é diferente.

Entre os homens e as mulheres de hoje também é assim. E essa coisa da mulher que trabalha não é nova. Sempre trabalharam. O que mudou foi o aumento desse trabalho, resultando na famosa “segunda jornada”. Mãe, irmãs, amigas e minha mulher passam pelo mesmo processo diariamente. Solidarizo-me absolutamente. Só quando se precisa tratar com a empregada, preparar o rango ou passar uma camisa é que se dá o real valor. Senão pelo trabalho, ao menos pela administração dessas coisas corriqueiras que, quando não entregues na bandeja fazem uma falta danada.

Homens (supostamente) tratam as coisas de outro jeito. Já li, ouvi e vi gente dizendo que é um modo mais objetivo, sem voltas e frufrus, sem nhenhenhém. E é verdade. Mas o que leva a coisa a esse ponto é o fato de fazer o que tem de ser feito e, só em casos de paquera, começo de namoro ou desejo incontrolável, ir um pouco além. Os homens não vão entender nunca (eu também não entendo) os porquês de tanto cuidado. O que vira motivo de desentendimento e de riso é essa busca maluca de colocar ordem no mundo. As moças gostam de tudo no seu lugar. Tudo como tem que ser, acrescido de limpeza, elegância, pertinência e apreço. Enfim, perfeição.

No final, esse embate é o que faz a coisa funcionar (ou não). É duro admitir, mas acho mesmo que as coisas só vão para frente com uma mulher puxando ou empurrando. Sim, há sempre uma mulher envolvida em cada vez que algo evolui. Basta sinceridade na análise e um pouco (tá, dois poucos) de boa vontade para, pelo menos, aceitar.

Sim, Deus, o gozador, deve mesmo ter feito os homens em Marte e as mulheres um Vênus. Fez assim para mostrar as diferenças e facultar a todos os caminhos para o entendimento. Mas, pensando melhor, deve ter feito assim para que os homens não ouvissem as meninas reclamando da bagunça no planeta vermelho.

Calé é cartunista de formação e jornalista de coração.