Solteira e mãe na metrópole

[Amara Lousiene Sales por Patrícia Patrício]

Lousi sempre conviveu com crianças, mas se descobriu grávida sem planejar, aos 39 anos. Levou adiante a maternidade, experimentou o cansaço da jornada equilibrista na cidade de São Paulo e tentou reaproximar o pai da filha. Em depoimento à Patrícia Patrício, ela diz assistir à carência de Cecília pela figura paterna.

Amara Lousiene Sales é enfermeira com especialidade em UTI Pediátrica e mãe de Cecília, 7 anos. Solteira, 46 anos, sempre conviveu com crianças na vida profissional até os 39, quando se descobriu grávida e decidiu levar adiante a maternidade por conta própria.

No começo foi um susto, sabia que tudo ia mudar na minha vida, que ia ter que cuidar sozinha daquele bebê. A primeira decisão prática foi mudar de emprego, sair do Hospital Menino Jesus. Foi difícil sair, gostava de lá, tinha chegado em maio de 2001 e em dezembro deixei esse emprego – mesmo tendo recebido convite para ser promovida a supervisora. Isso ia aumentar a responsabilidade e financeiramente não era o bastante para eu cuidar de uma criança. Então me transferi para o Programa de Saúde da Família, com jornada de 8 horas, e não 6 horas, como antes. Afinal, não poderia trabalhar em dois empregos e ser mãe solteira.

Logo no início da gravidez, fui a uma terapeuta e pedi: “me ajuda com floral, porque não quero voltar atrás na decisão de ser mãe”. Porque se não, como diz uma amiga, vencia o prazo de validade… diz com uma risada gostosa.

A gravidez foi de risco e exigiu exames como translucência nucal e estudo dos cromossomos para averiguar possíveis doenças genéticas. Felizmente não havia nada de grave. Os cinco primeiros meses foram os mais difíceis. No início da gravidez, sangramentos causaram apreensão, apagada diante do ultrassom: parecia que o bebê estava acenando com a mãozinha, e o coração pulsava forte. Antes mesmo do exame dos cromossomos, Amara sabia que seria mãe de uma menina. Sonhou com a cunhada carregando um bebê e dizendo, olha aqui a Cecília. O nome foi escolhido assim, em sonho.

Sobre o fato de não ter um parceiro para compartilhar o cuidado com a filha, Amara comenta: dividir o tempo é o mais difícil, não tenho flexibilidade no trabalho. Tenho hora pra chegar, mas não pra sair, quando chega um paciente no fim do período, trabalho mais que oito horas. Enfrento trânsito para buscar Cecília na escola e com isso dá quase doze horas. Depois, dentro de casa, tem a segunda etapa. Tem dia que chego tão cansada, não tô com vontade de brincar de cavalinho. E as histórias noturnas… sempre gostei de dormir, não consigo levar a história até o fim. Comprei um livro de contos infantis, mas mesmo com esses curtos, tenho preguiça de contar. Agora vem lição, tem que estudar junto e precisa de muita paciência. Outra dificuldade: a Cecília é um chiclete, não consigo fazer nada sozinha.

Mas converso com outras mães, que se queixam que o marido desfaz ordem que ela deu. E muitas dizem que eles não ajudam em nada. Achava que não tinha ajuda porque estou sozinha, mas vejo algumas mulheres que, mesmo com o marido, não têm colaboração. Acostumei a fazer tudo do meu modo, na hora em que quiser, não espero por ninguém. Por isso, não consigo me imaginar morando com nenhum homem. Namorado, pode ser, cada um em sua casa.

Quando Cecília ainda era bebê, Amara entrou em contato com o pai para conhecer a filha. Foram apenas duas visitas, aos quatro e aos onze meses. Comecei a me preocupar porque ela não se lembrava mais dele, e perguntava. Só depois de dois anos e meio ele passou a vir com mais frequência, uma vez por semana ou a cada quinze dias. Agora ele se afastou, desde dezembro não aparece. Pelo menos procurei por ele para conhecer Cecília, disso ela não pode ter raiva de mim. Mais difícil do que a parte financeira, e de ter alguém ao lado quando ela está doentinha, é enfrentar Dia dos Pais, Natal, aniversário… Semana passada ela pegou um telefone invisível:

– Hoje é feriado, Tiradentes morreu, você não tá sabendo, pai?

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